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01/05/2017

Só é ódio se for ódio político?


Um indivíduo faz uma pichação em casa alheia e, não contente, espanca o proprietário. Ainda não satisfeito, junto com outros espanca o filho do proprietário levando-o à morte. As pessoas dizem “crime bárbaro”. Mas elas não dizem “ódio”. Agora, se alguém agredir ou outro com um palavrão em rede social e tal coisa tiver relacionada a motivos políticos, então aí sim, é para se dizer “ódio”. E rapidamente há o linchamento virtual, sem ódio, do então declarado odiador.

O Brasil atual aboliu o ódio interno às prisões. Ali dentro não há ódio. Uns dizem que há vagabundos que não merecem sequer uma privada, outros dizem que os presos precisam pagar pelo “hotel”, e por aí vai. Não há ódio lá dentro, só criminosos. E tudo que se fala aqui fora, nessas frases de ódio, não é ódio.

Ódio é algo da rivalidade política, do campo das movimentações sociais que estão articuladas ao político. Tudo é mais, nessa nossa semântica de macacos, é conflito, crime, barbarismo ou coisas assim. Mas ódio não. O ódio pessoal, individual, aquele que se transforma em maldade, não é inteligível por nós. Não raro, nós o patologizamos. Tudo que não é político, que não pode ser chamado de ódio por ser político, não pode ser ódio e nem pode conduzir à maldade. Seguindo essa estrada, logo aparece um médico e um psicólogo, até mesmo gente melhor preparada, para dizer que “é doença”. É interessante isso, pois toda maldade não política vira doença e isso ganha tamanha força que, depois, uma doença (pedofilia, por exemplo), às vezes não é reconhecida como tal, e vira exclusivamente crime.

Não estamos sabendo lidar com nossa semântica corriqueira. Falta-nos dicionário melhor, vocabulário mais cuidado, melhor alfabetização e, sem dúvida, boa dose de filosofia para podermos ver que ódio é ódio, que pode ser desenvolvido, na maioria das vezes, como um sentimento que não tem nada a ver com divergências políticas. Nem mesmo podemos reduzir todo ódio a questões sociais. Nem é verdade que há ódio porque há inveja. Aliás, essa conversa de acusar outros de invejosos, não raro, é ideologia bem malandra, parecida com aquela que exige humildade.

O rapaz que foi pichar a casa do outro e o matou tinha ódio. Tem ódio. Frustrações acumuladas. Ódio de alguém da família? Ódio de alguém na infância? Ódio da namorada que o chutou e do carinha que a levou embora? Há política nisso? Só as pessoas que vivem em torno de esquerda e direita irão querer politizar o ódio para, então, lhe dar importância. Não conseguem lidar com o humano porque fizeram do homem, numa leitura errada de Aristóteles, o “animal político”. As pessoas que pensam politicamente possuem inúmeras dificuldades, uma delas é saber dizer o que é o ódio.

Quem vive no mundo político deveria saber o que é o ódio. Basta olhar para si mesmas e irão perceber que possuem ódio, um ódio particular, que é o ódio à inteligência.

Paulo Ghiraldelli, 58, filósofo. São Paulo, 09/08/2016

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4 Responses “Só é ódio se for ódio político?”

  1. 25/01/2017 at 10:52

    Bem interessante.

  2. Renato A. Gimenes
    10/08/2016 at 12:13

    “Não estamos sabendo lidar com nossa semântica corriqueira. Falta-nos dicionário melhor, vocabulário mais cuidado, melhor alfabetização e, sem dúvida, boa dose de filosofia para podermos ver que ódio é ódio, que pode ser desenvolvido, na maioria das vezes, como um sentimento que não tem nada a ver com divergências políticas”.

    Falta filosofia, falta história, falta mesmo sociologia. Sobra política, sobra “sociologuês”. Seu blog é um dos poucos que procura fugir desse desastre que se transformou o debate na esfera pública brasileira, é um dos únicos que procura pensar temas como biopolítica, biopoder, público/privado e tendências de pensamento contemporâneo sem inscrever estas questões nesse fla-flu ideológico – que me desculpe o futebol.

    Leio frequentemente seus textos e acompanho o máximo possível sua escrita. Venho aqui muitas vezes para confrontar o que eu penso sobre alguma coisa e o que você escreve, porque sei que, aqui, encontro um espaço no qual me aproprio de textos que, após a leitura, me fazem parar e sentir algo como: “calma, cara, pense direito, repense, tente re-descrever o que você vê, mesmo o que você sente. Releia, revisite sua formação, faça a crítica dela”. Seu blog é um dos únicos que vem proporcionando esse efeito em seus leitores hoje.

    Pela caixa de comentários, vê-se o quanto deve ser difícil para ti realizar este trabalho.

    Continue, meu caro, boa sorte!

    • 10/08/2016 at 13:47

      Renato o professor e filósofo é o que conversa, e conversa normalmente. Sou o único que conversa e leva em consideração o leitor. Sou professor. Os outros falam e não xingam, para não se queimar. Ou por autoritarismo mesmo, só falam. Eu desisti da grande mídia por isso.

    • LMC
      11/08/2016 at 10:49

      Ih,xingar hoje em dia virou coisa de
      militante pago por partido na internet,
      PG.E o nosso gênio Trump nos
      EUA,então?Só sabe xingar os
      outros o tempo todo.Jesus……

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About Paulo Ghiraldelli

Filósofo