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28/04/2017

Lula: um estudo clínico de auto-engano


O filósofo americano Donald Davidson é quem tem os melhores papers sobre o auto-engano. Na modalidade do auto-engano deliberadamente intencional, ele traça uma exata narrativa do funcionamento desse mecanismo.

Ora, no seu último discurso, tentando rebater a justiça brasileira e a exposição televisiva das denúncias contra ele feitas pela Força Tarefa da Lava Jato, o ex-presidente Lula cumpriu todos os passos do ritual teorizado por Davidson. Uma aula!

O auto-engano é uma atitude proposicional, ou seja, uma crença associada a um desejo, com conteúdo retrospectivo, criada por um indivíduo para este possa atravessar algum episódio mais difícil da sua vida. A crença é falsa e o desejo pouco legítimo ou justificável. Mas aparecem. Quem cria tal coisa sabe da falsidade da crença e da não razoabilidade do desejo, mas sustenta ambos para o convencimento do outro, todavia, antes de tudo e no mesmo momento, para o convencimento de si mesmo. O auto engano só funciona como engano se é auto-engano. Conta com essa façanha, que em geral dá certo: se conseguir reproduzir com emoção, para si mesmo, certos episódios não totalmente verdadeiros de sua vida, aos poucos a própria memória e os mecanismos emocionais envolvidos vão fazendo o serviço. Tornam o elemento psíquico falso um portador de força emocional que o faz ser sentido como verdade pelo seu criador. A força dessa pragmática psicológica é assustadora, e funciona como uma espécie de instinto de sobrevivência de segunda ordem. A memória trabalha no sentido de reconstruir-se e fazer as partes não verdadeiras se adequarem às outras partes verdadeiras das crenças envolvidas no âmbito mental do indivíduo, ou no âmbito de sua “rede de crenças e desejos” (a subjetividade, na terminologia de Davidson-Rorty), de modo que tudo se reconstrói em um novo conjunto coerente, uma narrativa razoável, com desejos corretamente realinhados envolvidos. Surge aí um tipo de novo eu. Então, eis que o criador pode acreditar piamente na criatura – ele próprio, agora em nova (ou já velha) versão. A nova atitude proposicional, que o criador sabe que é uma não-verdade, mas sem a qual ele não poderia mais sobreviver consigo mesmo, está à sua disposição. O auto-engano é uma peça feita para o aceitamento de si, e ao mesmo tempo, claro, para o convívio social no qual se dá o aceitamento de si.

Lula tem facilidade para tal tarefa, e elementos bons para a produção do auto-engano. Ele pode recontar mil vezes para ele mesmo a história de sua pobreza, que agora, como ele fala, já é maior que a real e até mais duradoura do que foi. Ele pode também, em situação não confessável, mas com segredo que funciona como auto-justificativa, achar que pegou donativos de empresas para se preservar caso fosse retaliado, como está sendo, e também porque “não se faz política sem ceder um pouco às ‘classes dominantes’ ou às ‘elites’ “. Ele chegou uma vez a dizer isso para o ex-presidente uruguaio, praticamente confessando o mecanismo pelo qual ele cria seus elementos de auto-engano. Tudo isso pode ser agrupado ao mito sobre ele mesmo criado pela sua máquina de propaganda e maquiagem de dados: “o homem que salvou o Brasil da pobreza dando um prato de comida ao trabalhador”; o “homem que ofendeu as elites por ter dado um prato de comida ao trabalhador”.  O que ele fala para si mesmo não é uma mentira: ter dado certas benesses com feição social-democrata, mas com forma populista para o Brasil, o fez, sim, ser odiado por conservadores empedernidos. Há sim quem tenha ódio de Lula pelo que fez de certo. E nisso Lula pode colher os melhores frutos para o seu auto-engano, o mecanismo pelo qual ele pode se manter vivo, forte, ainda sobre duas pernas, diante das descobertas da Justiça.

A frase “Lula chefe do mensalão e petrolão” é substituída em sua cabeça por “Lula o único presidente que fez algo pelos pobres depois de Vargas”. E descaradamente, então, os petistas reproduzem: “Lula não tinha outra maneira de fazer algo pelos pobres senão utilizando-se no governo de ‘certas práticas’ dos partidos tradicionais”. Ora, o PT já é um partido tradicional ao menos desde a saída de Francisco Weffort da presidência. O PT é corrupto faz tempo.

Esse treinamento de auto-engano de Lula é semelhante ao que muitos fazem para serem agentes secretos, para enfrentarem o detector de mentiras. O auto-engano tem um poder de tal ordem que é capaz de funcionar como auto-lavagem cerebral. O agente realmente monta para si uma identidade de tal modo coerente que ele a assume até com lembranças visuais do que não ocorreu ou do que ocorreu, mas transmutado para o modo como ele recontou para si mesmo. O choro faz parte desse apoio emocional, ele é auto-emulação para que a narrativa não verdadeira se instaure como a verdadeira no interior do próprio indivíduo. Um homem movido pelo auto-engano é duas vezes mais poderoso que um homem que tem fé em suas crenças por acreditar que são verdadeiras não a partir do auto-engano.

Paulo Ghiraldelli, 59, filósofo. São Paulo, 16/09/2016

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11 Responses “Lula: um estudo clínico de auto-engano”

  1. 17/09/2016 at 20:29

    A questão da crença ou desejo ser real, depende de se acreditar e fazer acreditar e não na verdade.
    Pode-se acreditar e não ser real ou pode não acreditar e ser real, tudo depende da reação com o mundo real, onde se encontra a materialidade ou imaginação da coisa.

  2. Vlips
    17/09/2016 at 17:20

    Lula é lula…
    Não se desespere Paulinho.. você não sabe o que é um domingo de chuva esperando dar meio dia e não ter um punhado de feijão pra comer…
    A fran sabe? E o Pondé? nosssssaaaaaa…
    Tô vendo que o senhor não entende nada de Lulas…
    Filósofo de gabinete..
    Essa frase do pondé eu concordo…
    Não li seu texto, depois leiuuuuuuuu

    Agora, na parte do feijão eu e meu pai ficamos com os olhos marejados. Eu porque o vi chorar, e ele pq passou por isso. Mas enfim, venceu na vida, assim como vc.

    Já sei o que vai dizer..
    vc é um babaca, não entende nada!
    Mas eu entendo de Lulas e vc não!

    A fran entende, decerto

    • 17/09/2016 at 19:00

      Seu pai e você acreditam mesmo no Lula passando fome? Fiquei com dó de vocês não pelo feijão, mas pela credulidade, talvez um pouco de auto-demagogia para poderem justificar o apoio ao que rouba. Sim, sou um babaca, ainda acho que posso fazer algo por gente como você.

    • Orquidéia
      18/09/2016 at 08:47

      O que adianta o prato de comida que o Lula daria a vc hoje,Vlips?
      Amanhã o que vc teria,era cachorro de rua para comer.
      E precisaria ficar genuflexo na frente da sua Majestade Molusco, por ainda te ceder as ruas da cidade.

  3. Kelson JS
    16/09/2016 at 19:10

    Gostei bastante!

  4. Leonardo
    16/09/2016 at 18:16

    Bom Texto! Imagino qua daqui a 100 anos as pessoas reunirão seus textos e livros e irão louvar a sua filosofia. Isto se chamará Ghiraldellismo.

    • 16/09/2016 at 18:39

      Leonardo, espero que leiam antes, sem louvor, apenas para dizer: sabe, isso me deu alguma ideia.

  5. Filósofo Pablo Maranello
    16/09/2016 at 15:20

    Paulo Ghiraldelli, boa tarde!

    Sou um fã e admirador do seu trabalho!
    Preciso que responda para mim:
    Você joga PES ou FIFA?

  6. João Barreira
    16/09/2016 at 11:06

    Ghiraldelli, recomenda algum paper específico de Donald Davidson?

    • 16/09/2016 at 11:13

      Pegue o meu livro e dali vá adiante, está com link na coluna da direita do meu blog.

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Filósofo