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23/10/2017

A homossexualidade como infortúnio – sobre a “cura gay”


A noção de que a homossexualidade é doença reapareceu. A formação ruim dada pelos nossos cursos de Direito colocou um juiz de Brasília na reta de chegada do erro crasso. Ele deu liminar favorável aos psicólogos que querem por em prática terapias de “reversão sexual”. O senso comum liberal e não preconceituoso condenou o ato do juiz. Mas a filosofia, diferente do senso comum, deve tentar antes de tudo entender toda a situação envolvida.

Nossa sociedade moderna não sabe o que fazer com o seu destino. E qual seu destino?

A modernidade é um conceito transhistórico. Nós filósofos a colocamos em diversos lugares: Kant a viu no “fim da menoridade”, ou seja, no esclarecimento vindo dos que podem “pensar pela própria razão”; Nietzsche a pôs em Sócrates/Jesus, no subjetivismo e na moralização do mundo; Hegel e Heidegger a colocaram no advento da subjetividade em Descartes enquanto fundamento metafísico; Sloterdijk a pôs na intensificação de si e do individualismo nascido do Renascimento, do culto à sorte. Como se pode ver, o fio comum em todos esses filósofos é a questão da  formação da subjetividade. É difícil hoje, ao mapear a história da cultura, não atentar para a ideia de que podemos descrevê-la como um longo caminho para a “interiorização”, e que a modernidade, nesse trajeto, não tinha como não catapultar uma ciência especial: a psicologia.

Os modernos ocidentais, seguindo a base cristã, ampliou a dualidade interior-exterior sinonimizando-a a subjetivo-objetivo. Nos dois casos, venceu a “busca ao interior”. Na física, procurou-se o interior do átomo. Na psicologia e, junto, agora, nas neurociências, procurou-se o interior da mente. Se vamos ao interior, encontraremos a verdade do cosmos e do homem – eis a saga na qual depositamos esperanças, desde o dia em que Santo Agostinho nos garantiu que Deus estava dentro de nós.

O crescimento da psicologia como ciência maior, como fundamento de tudo (após o descrédito da teologia e da filosofia), criou uma nova metafísica. E eis aí o psicologismo na boca dos professores que viraram gurus de auto-ajuda ou coisa do tipo, para mostrar que não estou mentindo ou enganado. De fato, o psicologismo avançou à medida que a própria psicologia se tornou a rainha das ciências, aquela que pode desvendar o que há na nossa mente. Pois, afinal, para nós modernos, tudo está na nossa mente. Nada há que não se resolva por meio de investigação do mental. Felicidade, doença, banditismo – tudo é fruto da mente e, agora, casando psicologia e física, tudo está em nosso cérebro. Sendo assim, nosso aparato burocrático de estado, para tudo, pede o parecer de um psicólogo. Se quero fazer uma cirurgia de redução de estômago, tenho de ter permissão de um psicólogo. Se no futebol agrido alguém ou estou perdendo o jogo, o clube chama um psicólogo. Se não me alfabetizo, eis que surge o psicólogo. Se há suicídio, que venha para a TV o psicólogo. Se meu cachorro ou meu papagaio não faz o que mando, o melhor é chamar um especialista em “psicologia animal”. Se meus filhos não são capazes de arrumar a cama, preciso de um psicólogo. Ah, o mundo está perdido em drogas, então os pais precisam de psicólogos. Ora, para a troca de sexo, então, novamente o psicólogo. Platão hoje não falaria do Rei-Filósofo, mas do Rei-Psicólogo.

Somos vítimas dessa eleição da subjetividade acoplada à noção de interioridade tendo por cume a psicologização de tudo. Pois se a psicologia, até por lei, pode tudo, por que ela não poderia também brincar de Deus e fazer as pessoas que possuem desejos por outras terem desejo por ainda outras? Quando olhamos a questão por esse lado, a imbecilidade do juiz de Brasília ganha uma conotação nada imbecil. Sabemos que ele agiu por burrice. Mas sabemos que por detrás de sua nuca, há ação de uma mentalidade moderna que, de fato, nos faz todos acreditarmos que cada um de nós pode recorrer ao psicólogo para resolver casos amorosos, casos de desejo. Afinal, se o mundo se reduz à mente e, no limite, à minha mente, posso pedir uma audiência ao Rei-Psicólogo para que ele, por algum decreto dessa República, me tire do sofrimento de, sendo eu mulher, viver beijando mulheres e ser discriminado por isso. “Não quero mais beijar mulheres, pois sou mulher” – grita a jovem evangélica que, em casa, sofre perseguição. É como a gorda que quer reduzir o estômago, é como a moça que quer fazer cirurgia plástica nas orelhas. Também elas não estão achando que gordura e orelhas de abano são doenças! Mas querem que alguém resolva o caso. E não será o médico que dará a última palavra, mas o psicólogo ou psiquiatra. E com a ajudinha, agora, dos doutores que sabem tudo, os neurocientistas! “Neuro” é agora o sinônimo de “mental”, nessa nova metafísica materialista.

Quando olhamos por essa lado as coisas, pela filosofia, começamos a perceber que não estamos lidando com algo fácil, com uma briguinha simples a respeito de preconceitos de um juiz burrinho. Um juiz burrinho pode ser retirado do caminho. Vários juízes burrinhos podem ser tirados da jogada de um país, se este fizer uma escola de Direito melhor. Mas o que não pode ser tirado do caminho de modo fácil é o próprio caminho. Nós, no Ocidente, geramos o Rei-Psicólogo, não temos força para tirar seus poderes uma vez que toda nossa cultura nos levou a isso. O Rei-Psicólogo governa sem Constituição, diz o juiz, ele é praticamente um tirano. E se há uma Constituição dada pelo Conselho de Psicologia, “eu juiz a abafo, em nome maior da história que fez nascer o Rei-Psicólogo e sua autonomia”. “Não se pode tirar a legitimidade de um rei que ganhou a coroa por conta de uma revolução – a revolução moderna” – assim poderia escrever o juiz. E foi quase isso que ele fez.

A modernidade gerou situações modernas. Ela nos trouxe problemas que são inerentes a ela mesma. Espernear politicamente não é inútil, mas é bom que saibamos que o monstro dos fatos é maior.

Paulo Ghiraldelli Jr., 60, filósofo. São Paulo, 19/09/2017

PS. Alguns ficarão com raiva desse meu texto, dado que ele não tem uma bula ao final, ou uma palavra de ordem para combater o obscurantismo. Claro que do ponto de vista prático-político, da minha vida, eu vejo a atitude do juiz uma temeridade, que vai contra a OMS. Mas como filósofo, minha visão não pode se reduzir ao momentâneo. Preciso entender a situação. E o artigo para que possamos entender onde nos metemos com a modernidade.

Foto acima: Einstein e seu terapeuta

Cura gay

Posted by Filósofo Paulo Ghiraldelli on Tuesday, September 19, 2017

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11 Responses “A homossexualidade como infortúnio – sobre a “cura gay””

  1. Cléberton
    21/09/2017 at 12:14

    O psicologismo contemporâneo como fruto da metafísica moderna, voltada para a interioridade. Ótimo texto para localizar bem a bizarrice que tá acontecendo..

  2. LMC
    21/09/2017 at 12:09

    Obama estará em SP em Outubro
    numa palestra patrocinada pelo
    Santander.Será que a gentalha
    do MBL vai pedir pro banco
    cancelar a visita?ESPERO QUE NÃO!

  3. LMC
    20/09/2017 at 13:21

    Tem muito Rei-Juiz por aí.E esse juiz
    deve ser da mesma turma daqueles
    que proíbem peça de teatro com Jesus
    transexual ou que pedem uma
    intervenção militar(???)no Brasil.

    • 20/09/2017 at 20:42

      Não há Rei-Juiz, LMC. Meu texto foi exatamente para mostrar que não existe essa figura. Você cometeu o erro que o texto quis evitar. E isso por uma razão simples: você raramente lê o texto e pega a novidade dele. Você já tem um texto na cabeça e usa o texto que lê para reiterar o seu.

    • LMC
      21/09/2017 at 11:45

      Pra variar,as olavetes-bolsonaretes
      ficaram do lado do juiz.Só pra variar.
      kkkkkk

  4. Matheus
    20/09/2017 at 11:31

    VIm assistir o vídeo, não vi no seu canal no YT… tenta jogar lá depois paulo, abraços!

  5. Roberto
    20/09/2017 at 10:08

    No começo eu tinha concordado com o juiz, mas vc é a segunda pessoa que fala sobre esses dados da OMS. A primeira foi a vereadora Manuela D’ávila! Então devo repensar meu posicionamento. Com relação ao juiz, ele apenas concedeu uma liminar, o que significa que poderá voltar atrás. E digo que ele fez isso sem pensar na homossexualidade como doença. Mas como vc disse: ele foi contra a OMS.

    • 20/09/2017 at 10:11

      Minha questão, Roberto, não é o juiz. Eu falei de metafísica, não de direito.

  6. Orquidéia
    20/09/2017 at 07:59

    Aí a sociedade se “froidianizou” de vez… [de Freud]

  7. Hilquias Honório
    19/09/2017 at 12:59

    Exatamente. Existe jornalismo, militância política, tudo tem seu lugar. O papel da filosofia é outro. É fazer, no meio desse tipo de caso, esse tipo de reflexão, sobre a modernidade, por exemplo.

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