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21/08/2017

Frigidez, assexualidade e pornografia


Toda pessoa experiente em relações humanas sabe que uma mulher que muito se expõe, que é sexy demais e até despudorada é uma forte candidata a descobrir-se ou frígida ou anorgásmica ou assexuada. A pornografia é feita para sexuados, mas sua produção é, em geral, obra de assexuados e coisas do tipo. Também a prostituição é assim.

A maior parte das grandes divas da amostragem sexy, quando se tornam mais velhas, acabam revelando que jamais gozaram ou que simplesmente não se interessavam por homens. Às vezes ficaram com mulheres, mas não eram lésbicas, apenas assexuadas. Por mais liberal que uma sociedade seja, ao menos no Ocidente, tesão é algo que, quando surge, nos faz entrar para o recolhimento, não para a exposição. Por mais sem vergonha que possamos ter aprendido a ser, o recato se apresenta como irmão ou primo do desejo sexual fervoroso. Uma mulher que se expõe em demasia, fazendo gestos sensuais, simplesmente não provoca nada em si mesma, e isso é um indicador de que não sabe com o que está lidando, ou melhor, não sente nada e por isso pode colocar seu corpo na berlinda. Só anjos desafiam a dor e a morte, o fazem exatamente por não sentirem nada.

Isso que estou dizendo não é regra, é uma verdade vinda do trato com a vida e das observações psicológicas – tanto da psicologia popular quanto das dos scholars. Deveríamos atentar para isso, para conhecer mais as mulheres.

Mulheres assexuadas são objeto de desejo, não raro vítimas de abuso. Provocam homens perigosos exatamente pela razão de que não sabem nada sobre provocação. Outras aprendem, mas como não sentem, atuam no campo do esteriótipo. Prostitutas fazem isso. Uma boa gama de atrizes pornôs faz isso. Daí a procura do “pornô caseiro” e daí o sucesso, hoje, de todo filme de celular a partir de cenas reais. Há uma busca desesperada de se encontrar novamente as mulheres que podem gozar, as que não são fakes. No fundo, há um lento movimento, mas já efetivo, de descoberta de que há mais fakes no mercado sexual do que se imagina antes.

Há muito mais gente frígida no Brasil do que podemos imaginar. As pesquisas oficiais falam de vários números diferentes (não vou citá-los, não é o caso), mas nenhum deles é pequeno. E quando a pergunta de que faz o survey é sobre fingimento de orgasmo, então, a coisa é assustadora. Os homens chegam a não acreditar nisso. Contestam. Como sempre a culpa cai sobre eles, e então preferem não admitir a verdade das pesquisas. Casam-se com anorgásmicas, o casamento não vai adiante e, assim mesmo, recusam-se a acreditar na anorgasmia. Inclusive as mulheres também não levam a sério o quanto a depressão vem disso. Não percebem que não eram deprimidas quando criança, e que se tornaram assim após o primeiro beijo. Quando descobriram sem realmente descobrir que nada sentiam, começaram a amargar a vida. A realidade de certas mulheres anorgásmicas é pior que a das assexuadas. É um inferno na terra sentir e não chegar ao fim do ato sexual. Sabe-se bem o quanto uma mulher que sente, quando não goza, é capaz de utilizar a bomba atômica. Parceiros de mulheres que possuem controle sobre arsenais nucleares deveriam ficar atentos, podem um dia colocar fim ao mundo.

Há profissões que são típicas de assexuados: modelos homens e mulheres, bailarinos e bailarinas, atrizes pornôs. Exige-se demais do corpo à mostra, e só os que não dão muito crédito para a vergonha, exatamente por nenhum alerta surgir da exposição, podem se sujeitar a tão duro ritual ascético.

Um recado. O tal Brasil tropical é um dos países campeões em mulheres assexuadas, anorgásmicas e frígidas. Os tais “trópicos” não nos ajudam. Ou até ajudam, se pensarmos que nossa cultura faria pior do que já fez. O Brasil é liberal sexualmente, e no entanto, isso não adianta nada.

Paulo Ghiraldelli, 59, filósofo. São Paulo, 03/09/2016.

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24 Responses “Frigidez, assexualidade e pornografia”

  1. Silvia
    21/09/2016 at 17:43

    Professor, é possível fazer filosofia apenas com aforismos ou ensaios ou é sempre preciso trabalhar com textos argumentativos e teses para dar apoio? É que senhor disse que é impossível entendê-los sem ler os livros de apoio.

    • 21/09/2016 at 20:19

      Pode ver o trabalho dos scholars com Nietzsche, Wittgenstein, Pascal ou mesmo Adorno (Minima Moralia) e outros autores aforismáticos. Dá trabalho para os scholars.

    • Silvia
      22/09/2016 at 10:39

      Para alguém que deseja ser filósofo hoje, você aconselharia ela a fazer filosofia só com aforismos ou é bom que ela escreva também com textos mais longos?

    • 22/09/2016 at 13:54

      Silvia, filosofia é uma vivência, ao mesmo tempo um trabalho de scholar e escritor. Um escritor aforismático é um grande filósofo. Não é para qualquer um.

  2. Assis Oliveira
    19/09/2016 at 10:55

    Eu sinceramente, fiquei preocupado com esse texto. Há tantas certezas nele que ele me soa estranho. Eu nunca havia lido algo sobre um assunto tão complexo com tantas certezas em meu 54 anos de vida e uma longa vivência e pratica sexual. Conheci muitas mulheres que se enquadram em sua definição de mulheres assexuadas, ou fake. Prostitutas em especial, por mais de uma década, fui gerente de mais de uma casa desse tipo e nunca encontrei uma mulher que correspondesse as que você descreve aqui. Sou casado há mais de 30 anos com uma mulher que eu poderia definir como uma das que você descreve como desinibida, que se expunha ao máximo, e que no entanto, até hoje é orgástica demais.

    Se não fosse você, Paulo, que escreve, a quem sempre e respeito pelo que escreve, eu não daria nem o beneficio da dúvida. Voce pesquisar mais sobre o tema, antes de afirmar que talvez esteja errado

    • 19/09/2016 at 10:58

      Assis acho que você não sabe o que é gênero literário.Ou esqueceu. Um artigo de blog é como jornal, ele não é uma tese, ele funciona como um micro-ensaio. Não é tese. Ele é dogmático mesmo. Vem da experiência. No caso, vem da experiência pessoal, claro, mais a da filosofia. Claro que não posso dizer de onde vem essa experiência, no caso.

    • Assis Oliveira
      19/09/2016 at 11:19

      Talvez não mesmo, mas um dia eu aprendo. Obrigado pela atenção.

    • 19/09/2016 at 11:54

      Pode aprender checando um artigo de jornal, um ensaio, um romance, uma tese, um paper, etc. Verá que cada um usa de uma “abordagem” própria.

    • Assis Oliveira
      20/09/2016 at 08:41

      Então, baseado no que você explicou como sendo gênero literário, eu concluo que eu sabia o que era. Fico feliz em saber que seu texto tem como base a experiencia, e é dogmático. Minha objeção é também com base na minha experiência e portanto, dogmático.

      Desculpe-me qualquer outra coisa. É tudo por que levo muito a serio o que você escreve, por isso estou sempre voltando aqui

    • 20/09/2016 at 09:48

      Assis, sinceramente, acho que você não entendeu ainda, e não entendeu a palavra dogmático. TODO texto do mundo do jornalismo cultural e da filosofia aplicada como crítica cultural é dogmático. Pelo que você escreveu você não sabia o que é gênero literário. E continua não sabendo. Um texto filosófico argumentativo não é um texto de crítica cultural, ninguém leria meu caro. Ninguém abriria um blog ou um jornal com alguém argumentando por uma tese. Putz! Estou pasmo!

    • Assis Oliveira
      21/09/2016 at 09:13

      Vou tentar te mostrar em definitivo que sei o que é Gênero Literário para encerrarmos a questão em definitivo

      Os gêneros literários são categorias ou grupos em que se pode classificar uma produção literária levando-se em conta determinados critérios semelhantes (semânticos, discursivos, contextuais, sintáticos, formais, entre outros).

      A classificação de obras literárias em gêneros tem origem na Grécia Antiga, através de Aristóteles. Ele foi o primeiro a classificação de obras em três gêneros: épico, lirico e dramático.

      Um exemplo do gênero épico: Os Lusíadas. A obra poética escrita pelo poeta português Luis de Camões.

      De gênero lírico: Vou-me Embora pra Pasárgada, o poema de Manuel Bandeira, ou Soneto de Fidelidade, poema de Vinicius de Moraes.

      Posso citar ainda os gêneros Teatral, Narrativo – o meu preferido, em que a história é apresentada em forma de uma cadeia de eventos – Experimental, Fábula, Ensaio, etc.

      Para finalizar: A regra clássica de separação dos gêneros em épico, lírico ou dramático, que não admitia a presença numa mesma obra de gêneros diferentes, já não é respeitada, sendo muito comum hoje em dia a fusão de vários gêneros em uma só obra.

      Obrigado

    • 21/09/2016 at 09:27

      A definição é boa, a prática sua é que não foi. Você queria uma tese no lugar de crítica cultural. Expliquei, expliquei e expliquei e parece que não adiantou. Cansei.

  3. Ricardo
    10/09/2016 at 20:05

    Paulo, um pensamento rápido de amador que me veio aqui: essas mulheres que, infelizmente, não conseguem gozar, será esse mesmo o motivo delas se exibirem mais que a maioria? Ou seja, elas tentam chegar ao máximo de exposição pra ver se ‘desse jeito vai’. E como não vai, elas puxam mais e mais os limites… sem resultado.

    Também já ouvi falar que o principal órgão sexual feminino é a mente. Se ela não consegue se entregar de verdade ao homem, ao prazer, o orgasmo fica sempre à beira de acontecer, mas não acontece. Alguma dessas ideias procedem?

    • 11/09/2016 at 08:33

      Ricardo, não creio. Elas se expõe por conta de que nunca tiveram as partes sexuais como partes que se movimentam autonomamente.

  4. Isaias Bispo de Miranda
    06/09/2016 at 04:56

    Tem algo que se possa dizer a nossas amigas que não gozam, Paulo?

    • 06/09/2016 at 09:00

      UMA PESSOA sem tesão, sem desejo, deveria ficar fora do jogo. Mas, infelizmente, a maior parte descobre isso depois que já teve experiências. E aí, na maior parte dos casos, começa o martírio da ansiedade. Quando nada se sente, ótimo. Quando se sente um pouco, pior – a anorgasmia é o pior caso. Nesse caso, abre-se a porta para dizer a elas: bem vinda a elas, bem vindo ao inferno.

  5. Petrônio Gonçalves
    04/09/2016 at 00:26

    Será que não é religião que fais isso? Eu vejo que nas religioes tem repressão, o sexo é visto como do diabo ou demônio em muitos casos.

    • 04/09/2016 at 07:30

      Petrônio, pode ter a ver sim, claro, mas seria uma resposta muito fácil. As coisas parecem ser mais básicas, mais “anteriores”.

  6. Leonardo
    03/09/2016 at 14:38

    Paulo, por que será que problemas como a frigidez e anorgasmia atinge principalmente mulheres? Veja, apenas 30% das mulheres já sentiram orgasmo.Algumas nem mesmo sente prazer sexual. O motivo seria fisiológico, social ou psicológico?

    Sobre o texto, desculpe te diverger, mas acho que não podemos generalizar. Atores pornôs sentem prazer mas as atrizes não.Vamos lembrar também das pessoas com Autagonistofilia.

    • 03/09/2016 at 20:23

      Há um correspondente no homem: ejaculação precoce.

  7. João Neto
    03/09/2016 at 11:28

    Viva, Paulo. Onde posso ler sobre frigidez, anorgasmia e histeria (historia, origens, teorias etc) tens aí algumas referências que possas indicar?
    Os melhores cumprimentos, beba água e bom fim de semana!
    J

    • 03/09/2016 at 12:34

      João … preciso pensar, há tanta coisa, mas sempre de péssima qualidade. Mas é sempre bom pegar o Freud e ver como eram as dúvidas dele.

  8. 03/09/2016 at 00:50

    Paulo, dentro deste contexto pode falar sobre a prática cuckold?

    • 03/09/2016 at 00:54

      Enoque, num contexto sem sexo falar de mais sexo?

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