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16/12/2017

Coutinho acha mais deprimidos que sem-vergonhas


O jovem colunista português da Folha, João Pereira Coutinho, citou uma série de casos de deprimidos. Alguns eu nem sabia que eram deprimidos. É claro que isso manchou a própria tese do artigo (Folha, 13/09/2016), que é a de que os deprimidos possuem vergonha de serem deprimidos e escondem esse fato.

As pessoas nunca tiveram qualquer vergonha de serem deprimidos. Quando ele situa na história o tempo que não se tinha vergonha de ser deprimido, não existia a depressão. Agora existe depressão, e ela é médica. Ao entrar em nossos tempos mostrando como as pessoas demoraram para se revelar deprimidas, Coutinho se esquece que um deprimido não fica sabendo que é deprimido antes de um bom tempo. Ele só se convence de que seu estado é algo que nós modernos vemos como patologia, muito tarde. Auto-observação não é para qualquer um. Quando fica sabendo, conta. Nessa hora revela um segredo de Polichinelo.

Toda sociedade tem resistências, tem lá seus tabuzinhos. Claro que revelar doença psíquica foi algo meio tabu, e ainda tem sua marca. Mas isso tem a ver com o tempo que toda doença psíquica é sinônimo de internação por conta de loucura. Além disso, ninguém quer ser descartado no trabalho ou nas oportunidades, e isso não raro acontece quando alguém se declara doente. A batalha toda da campanha eleitoral americana é sobre isso, principalmente agora. Hilary está com pneumonia. Mas Trump, ao falar dela, já foi chamado pelos adversários para mostrar resultados de exames de saúde, afinal, ele tem 73 anos, contra os 69 de Hilary. Doença sempre é problema no mundo da competição. Mas isso é com doença em geral, não depressão mais que outras. Aliás, no caso da depressão, a situação agora é inversa.

Ao contrário do que Coutinho imagina, a depressão não é uma doença que dá vergonha. Doenças dão vergonha, mas depressão produz, não raro, por ela mesma, uma sensação de conseguir por meio dela aquilo que se tem como um núcleo do eu. A depressão parece revelar o “verdadeiro eu” que Pascal nunca conseguiu encontrar e que Hume achou que era invenção tola. Aos poucos, a depressão inviabiliza várias práticas da vida, e essas práticas preenchiam o eu, davam-lhe identidade, e então a própria depressão ocupa o lugar das práticas e surge como um núcleo ou parte importante da identidade, do próprio eu. Não é difícil os depressivos lutarem contra a depressão e, no entanto, mesmo quando encontram medicamentos que realmente podem tirá-los dessa sina, fugirem do tratamento. Apelam para tudo para não perderem aquilo que, após um tempo, já se tornou um elemento metafísico da subjetividade. Sai o pensar de Descartes e entra o sentir-se deprimido; vinga a nova “metafísica da subjetividade”, para usar a expressão de Heidegger.

Coutinho inventou um tema de artigo sem pensar muito, o que está ocorrendo com colunistas de vários jornais ultimamente. Deu no que deu: do erro lógico foi ao tropeço histórico. Na nossa história recente tivemos um boom da psicoterapia de diversas matrizes. Dizer-se não analisado é dizer-se não sofisticado. Até pobre paga análise, ou tenta. Tudo é estressante e tudo deprime. E ninguém consegue mais dizer “estou triste”. Isso sim é vergonhoso. Dizer “estou deprimido”, qualquer um diz. Nos dias atuais, é uma regra estar deprimido, estando ou não. Ser feliz é uma obrigação grande, por isso as pessoas não podem falar que são tristes, e sim deprimidas. O deprimido é o triste sem motivo. Ou seja, você se mostra alegre porque faz sucesso e, então, sua tristeza é posta para debaixo do tapete da depressão. Fácil! Afinal, a depressão lhe dá o bela soleira de mármore da porta da clínica, e a solução dá a porta da farmácia.

Centenas de americanos mudaram bem seu vocabulário: “tristeza é coisa de viadinho”, ” tristeza é frescura”, mas não depressão – esta é levada a sério, mas como status. A depressão nos últimos vinte anos se dissociou da doença psíquica que pode ser vista como loucura, ganhou elogios, tornou-se um até mesmo um charme. Às vezes, ser deprimido indica ter nascido com uma sensibilidade ao mundo que, enfim, só homens de grande valor teriam.

Ninguém aguenta viver com uma mulher deprimida. Homem deprimido também é chato. Mas atualmente é um erro crasso, falta completa de entendimento da vida social, achar que os deprimidos estão com vergonha de serem deprimidos e ficam escondendo isso. Que nada. Eles acabam tendo certeza da doenças, principalmente depois dos trinta e cinco anos, quarenta e cinco. E revelam sim. É um sinal de coragem (verdadeira ou falsa, pouco importa) e de postura ousada dizer “estou lutando contra o monstro da depressão há anos”.

Eu poderia mostrar aqui como que muitas pessoas estão se abrindo para dizer que são depressivas. Mas o artigo de Coutinho, ao se destruir por meio de uma louvável sinceridade lusitana, já fez isso.

Paulo Ghiraldelli, 59, filósofo. São Paulo, 13/09/2016

Foto: Batman deprimido chegou a virar meme.

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12 Responses “Coutinho acha mais deprimidos que sem-vergonhas”

  1. José do Carmo
    15/09/2016 at 04:29

    No terceiro mundo o deprimido sofre muito estigma, por isso muitos evitam falar no assunto. Houve quem tentasse se mobilizar para criar um movimento em defesa dos loucos, um tipo de orgulho louco ou orgulho deprimido, tal como outros movimentos de orgulhos. Mas no caso dos deprimidos e dos loucos isso é muito difícil, o estigma é muito forte, principalmente em sociedades terceiromundistas e conservadoras como a brasileira. Os deprimidos possuem na história do país um longo histórico de violações.

    • 15/09/2016 at 12:20

      José, sofre não, e virou moda falar que e´deprimido. Pode reparar. Claro que me refiro a certos meios escolarizados. Agora, se for neurose, psicose etc, aí. Mas depressão, todo mundo fala. Você tá por fora da coisa.

  2. Diego
    14/09/2016 at 11:25

    Paulo acho que a vergonha relacioanada a depressão é como você mesmo disse, está ligada mais a um tabú e falta de entendimento sobre a doença. Falo isso pois possuo depressão e estou me tratando(ainda bem), e de fato a vergonha aparece quando é necessário explicar o porquê de tomar remédios e os sintomas incapacitantes que ela provoca, não raro já associam um depressivo como preguiçoso, “frescurento” e etc…

    Não creio que a doença em si desperte vergonha por desordem cerebral, mas sim por questões sociais mesmo.

    • 14/09/2016 at 11:37

      Diego, eu não estou falando que ela causa por si vergonha, por si ela causa desvergonha. A vergonha é social, mas a desvergonha causada pela própria doença, por ser tornar uma identidade do doente, e daí ser mostrada. Não há vergonha, tanto é que você está aqui se abrindo. Se identificando publicamente.

    • Diego
      14/09/2016 at 16:50

      De fato, não há vergonha como síntoma. Acho que o termo mais correto nesse sentido que eu disse seria receio, receio de ser taxado de louco ou algo do tipo. Mas não estava discordando de você não Paulo.

  3. Orquidéia
    14/09/2016 at 08:21

    Quando mocinha [hum…ainda me considero garota…Kk…], vivi muitos momentos de tristeza,mas não ousava comentar isso,pois na época, ter uma doença psíquica era um estigma,e eu não sabia se eu tinha ou não.
    [eu podia perder o emprego…]

    Fiquei deprimida de verdade,mais tarde e ocultei bem o fato,pelos mesmos motivos.
    Na tristeza também parecemos encontrar alguma libertação perene,e isso acabou sendo para mim um tipo de prêmio.
    Mas tudo passou.
    Sou feliz por ter vivido esses momentos [que expandiram meu autoconhecimento],e mais feliz ainda por não encará-los mais.
    Fiquei estável.

    • 14/09/2016 at 08:49

      Se fosse hoje, Orquídea, iria fazer o que faz agora: contar.

  4. Tereza
    14/09/2016 at 07:54

    Que ótimo artigo. Estou passando por um difícil momento de luto porque levei minha querida cachorrinha para fazer eutanásia. Mesmo lutando a anos com uma tendência depressiva sei que sinto agora uma profunda tristeza. Seu artigo faz uma distinção bem apropriada entre as duas coisas, ainda que não seja o objetivo principal da discussão.

    • 14/09/2016 at 08:20

      Tereza, se for depressão, remédio cura. Se for tristeza, é bom, pois ninguém merece mais nosso luto que nosso cão.

    • Orquidéia
      14/09/2016 at 08:24

      Coitada!!!!…Tádinha!!!…Ô dó!!

      Judiação!

  5. Karina
    13/09/2016 at 21:14

    Nossa, nunca vi tanta coisa sem noção num artigo só. Ter depressão envergonha, sim, mesmo quem sabe muito bem que é uma doença. Envergonha porque é cercada de sentimento de culpa, baixa auto-estima e desesperança. Não é coisa para se ostentar nem se orgulhar. Dói. Entristece. E envergonha.

    • 13/09/2016 at 23:10

      Karina, do modo que você se tocou é porque é deprimida, e ao vir aqui se expor mostrou que estou certo. Não envergonha, tanto é que veio aqui chorar e gritar. Acho que a depressão sua é a do Coutinho: a de não saber lógica.

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