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17/12/2017

Conversa sobre a “cura gay” e correlatos


PERGUNTA do Ricardo Mantovani: até que ponto a operação de mudança de sexo não é uma cura-gay às avessas?

Paulo Ghiraldelli Quando alguém vai pedir para que o corpo possa mudar para que ele se aproxime do que pede uma identidade moral e psicológica, já formada e que semanticamente aponta para um gênero que, por sua vez, não se vê representado no corpo, isso é uma coisa regularmente aceita. Ou seja, a lei aceita. Em geral, entende-se aí que a mudança é possível. Não se está discutindo aí o desejo, o amor por pessoas. A menina da novela da Globo, Ivana, vai ser tornar corporalmente o Ivan e vai agir como um menino. “Agir com menino” no sentido de agir do ponto de vista do gênero masculino. Todavia, do ponto de vista do desejo, ela não vai mudar. Não quer mudar. Ela gosta do namorado. Inclusive ela vai engravidar do namorado. Vai engravidar do namorado não mais como “ela”, e sim como “ele”, Ivan. O que parece absurdo para os estudiosos, hoje, é querer considerar que alguém que deseja mulheres SE ACHE DOENTE PELA LEI, e então tenha que passar a desejar homens para ser sadio (a análogos). Essa mudança de desejos é interpretada como uma coação. Ou seja, se alguém promete a outro que vai curá-lo do desejo que sente por alguém, tudo bem, mas se alguém promete a outro que vai curá-lo por gostar de homens e que irá então gostar de mulheres (ou gostar só de um gênero qualquer), eis aí uma promessa falsa ou simplesmente um convite para a lavagem cerebral etc. OK? Espero que tenha ficado claro. Aliás, a novela A força do querer está fazendo uma excelente conversa sobre o assunto.

Ricardo Mantovani Concordo plenamente, Paulo Ghiraldelli! Acho que a lei não pode se imiscuir nesses assuntos (nem para proibir nem para tornar obrigatório)… são coisas que não se resolvem com uma canetada.

Paulo Ghiraldelli Até 1990 você podia fazer a promessa de mudar o desejo. Hoje essa promessa é prática charlatã.

Ricardo Mantovani Isso sim! Só não acho que pode se demonizar (que, definitivamente, não é o que você faz – mas não falta quem o faça!) os psicólogos que, a pedido do cliente, os ajudem a entender (e, quiça, mudar) sua orientação sexual… Não que se entenda esta, necessariamente, como doença…

Paulo Ghiraldelli Mas eles estão fora da lei, estão cometendo um delito, estão praticando a charlatanice se prometem “reversão sexual”, e isso dentro do saber que eles próprios estabeleceram, o saber aceito pela área da psicologia. Um psicólogo pode conversar com o paciente por conta do drama deste de estar oprimido por ser gay, ou infeliz, agora, o que o psicólogo não pode é vender a ideia de que ele tem uma terapia que vai mudar o desejo da pessoa. Isso é considerado pela OMS uma prática charlatã. A liminar do juiz de Brasília, no caso veiculado, acoberta a prática charlatã. E essa liminar não pode dizer que está protegente a ciência de avançar, pois ciência não se faz na clínica, ciência se faz em laboratório, segundo regras éticas. Clínica não é laboratório. Fazer da clínica um laboratório é crime.

Ricardo Mantovani Entendo o que você quer dizer, Paulo Ghiraldelli… Não pode haver qualquer promessa de mudança… Isso seria ridículo. Tipo uma receita para ser macho! hahahahaha

Paulo Ghiraldelli Mas a liminar do juiz autoriza a fazer isso. Indiretamente, mas autoriza.

Ricardo Mantovani Aí está errada…. Quer dizer, meu post não é sobre a decisão do juiz (sobre a qual nada sei)… é apenas uma reflexão a partir da polêmica… só para pôr uma última colher nessa sopa antes de ir dormir, digo o seguinte: o índice de suicídio entre transsexuais é muito grande… Assim, será que a promessa de mudança de sexo como promotora de felicidade não é, também ela, charlatanismo?

Paulo Ghiraldelli Claro que não. A promessa da mudança de gênero é plenamente realizável como mudança de gênero, não há aí nenhuma promessa de felicidade. E na mudança de sexo, menos ainda. Você enfiou aí o fator felicidade, que não aparece em nenhum dos dois casos. Aliás, médicos e psicólogos demoraram bem mais do que o paciente para concordar com as mudanças. Daí a novela também explica: a Ivana compra os hormônios no mercado negro.

Ricardo Mantovani Entendo… no entanto, não consigo me livrar do seguinte pensamento: por que há mais preocupação das autoridades em proteger os cidadãos de práticas charlatãs do que protegê-los de cirurgias que podem levá-los ao suicídio…. Não sei. Não consigo me livrar da sensação de que há algo de desproporcional nisto tudo… mas pode ser ignorância minha, confesso!

Paulo Ghiraldelli Você está enganado, a cirurgia é difícil de ser concedida. O ritual para a permissão da cirurgia não é simples assim não. Aliás, a própria mudança de nome por conta da mudança de gênero não é tão simples. A novela da Globo também instruí corretamente nesse sentido.

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4 Responses “Conversa sobre a “cura gay” e correlatos”

  1. Matheus
    20/09/2017 at 09:59

    Muito boa essa breve discussão acerca da polêmica do juiz. Eu não sei se chega a ser o caso, mas há quem defenda na internet que o juiz estaria garantindo terapia para pessoas que foram sexualmente abusados, sendo que em alguns desses casos uma mulher traumatizada se afastaria de relacionamentos héteros; e por outro lado alguns homens passam a reeditar esse momento (com muito sofrimento) ao longo – de forma quase psicótica.

    Mas vejamos aí o que tem que ser tratado: o trauma!

    Não a orientação sexual, e nada pode garantir que uma mulher abusada na infância e que agora se apresenta lésbica o deixará de ser ao cuidar do trauma; nem o homem, só talvez ele possa continuar se relacionando sem o medo e a culpa que a rememoração do trauma lhe causa.

    Agora, por quê raios a justiça está entrando nisso? O conteúdo do consulente e do psicoterapeuta/psiquiatra é sagrado, inviolável e restrito.

    A justiça só poderia entrar caso algum “profissional” desses anunciasse: reorientação sexual ou “cura gay”- que deve ter sido mesmo o que aconteceu.

    Toda psicoterapia em algum momento acaba passando pela vida afetiva ou sexual do consulente (até pela influência freudiana, discutível, mas difundida) nunca houve proibição em tocar nesses pontos, cada caso é um caso, cada trauma é um trauma, acho ruim essa judicialização de tudo.

    Daqui a pouco vai ter juiz determinando como os médicos devem agir, indepentemente da faculdade ter-lhe ensinado de outro modo e coisas assim.

    Muitos juízes estão se sentindo os deusesinhos do brasil

    • 20/09/2017 at 10:10

      Não, Matheus, não concordo. Os juízes não se sentiram deuses, eles estão comandados pelo deus que você ou eles mesmos imaginam dominar: a psicologia. É isso que quis mostrar no artigo sobre o assunto, antes deste que você comentou, e que quis mostrar também no vídeo “cura gay”.

    • Matheus
      20/09/2017 at 11:24

      Pode ser Paulo, vou fazer um ritual para Apolo iluminar as nossas cabeças brilhantes do brasil com poesia, artes, e filosofia, pq o deus psicologia está se mostrando perigoso

      quando utilizado indiscriminadamente

  2. 20/09/2017 at 08:23

    Ora aí é que está; uma coisa é identidade ou expressão de género, e a outra é a preferência/atracção sexual (que pode ser homo, hetero, bi ou mesmo pansexual). Folgo em ver que há quem saiba fazer a distinção dos conceitos.

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