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20/11/2017

Você quer a ração do Dória?


Foi no tempo do começo do boom da soja! A soja havia entrado na vida, e estava para conquistar todos nós. Começava-se a dar soja aos humanos como já se dava aos outros animais. E eis então que o cambaleante governo da Ditadura Militar, precisando de alguma ideia simpática para apresentar na TV, recebeu uma notícia lá do interior, que parecia alvissareira: leite de soja para todos! Era o advento da quase célebre vaca mecânica.

Chefiado por aquele que seria o último general – e o único espontâneo deles -, o governo comemorou a ideia. E o general Figueiredo foi levado para conhecer a tal vaca mecânica. Ela produziria o leite de soja para todos os brasileirinhos pobres, dado que seria instalada em creches e escolas das periferias, talvez até em esquinas das cracolândias que estavam por vir. E lá foi o governante máximo experimentar o tal leite. O general Figueiredo entornou o copo, como bom gaúcho na pele de presidente não eleito. Fez uma cara horrível, de quem havia mastigado um besouro lambuzado de fezes, e cuspiu tudo diante dos fotógrafos e, claro, também molhando os pés do inventor da geringonça. Como de praxe, proferiu uma frase lapidar: “nós vamos dar essa b* para o povo?” Figueiredo, na sua doçura de ex-chefe do SNI e de homem que adorava a frase “eu prendo e arrebento”, fez seu último ato de violência: arrebentou a ideia da vaca mecânica. Os generais militares não conseguiam ser populistas, mas isso por índole e falta de educação, não por virtude e falta de vontade.

Hoje estamos em democracia. O que mudou?

Claro, há muitos brasileiros infantilizados, de certo modo parecidos com Figueiredo em seus momentos de ditador, que querem um regime de força. Essas pessoas acreditam que um regime de força, protegido pela censura (que é a primeira coisa que ocorre num regime de força) será menos corrupto. Elas associam a força de um ditador à força de um pai, aquele que bate nos filhos “porque eles mereceram”. Um pai nunca é corrupto, aos olhos de filhos pequenos. Essa visão da ditadura pega muita criança grande, em geral os desescolarizados ou semi-escolarizados. É para os filhos dessa gente que João Dória, o prefeito “gestor”, quer oferecer os produtos de sua nova vaca mecânica.

A vaca de Dória é uma fábrica que não existe. Mas já tem empresário que, claro, é amigo de Dória. É um futuro empacotador de ração (bonzo, seria seu apelido no passado, aposto). E essa ração é feita de comida “no limite do vencimento” que os supermercados tendem a descartar. O grande gestor imagina então erradicar o desperdício, e com isso cumprir um objetivo do Papa Francisco, e erradicar a fome, um objetivo que foi de Lênin e, dizem por aí, até de Lula – o homem mais honesto do mundo.

Dória reabriu o picadeiro.

Um secretário de Dória, garoto ainda, experimentou a ração em frente às câmeras. Mastigou, mastigou, mastigou e … nada, a coisa não evoluía em direção à garganta. Venceu a luta contra a bagaça, dentro da boca, por força do cargo: como num ato de filme pornô gonzo, engoliu. Não regurgitou, mas isso por conta de sua incapacidade de ser espontâneo como o general trapalhão, e acabou dando a seguinte apreciação: “é, o gosto sempre é uma coisa que depende de cada um”. Bobagem: todos gostam de uma boa pizza. Mas nem todos aguentam ver, numa ração, Nossa Senhora Aparecida, estranhamente transformada em rótulo! O que é aquilo? Dória está transmitindo fé por meio de ração feita de comida quase-vencida? Ou é só mau-gosto de quem prefere Romero Brito por conta de nunca ter entendido o que ocorre num museu verdadeiro?

Dória ofende. É só isso que se pode tirar de todo esse caso que, enfim, não vai superar nunca Figueiredo. Afinal, naquele tempo ser autoritário e ser uma tentativa de populista nos fazia rir. Estávamos no final de um regime de força, e esperávamos que a democracia trouxesse tempos melhores. De fato trouxe, mas estamos rindo menos. Dória faria algo engraçado se passasse ao menos uma semana, junto com sua loira mulher-artista, comendo a sua ração ao invés dos seus cereais matinais. Poderia ser um quadro da Ana Maria Braga. Ideia eu dou.

Paulo Ghiraldelli Jr., 60, filósofo. São Paulo, 17/10/2017

Paulo Ghiraldelli Jr. é doutor e mestre em Filosofia pela USP, doutor e mestre em Filosofia da Educação pela PUC-SP. É bacharel em Filosofia pelo Mackenzie e Licenciado em Ed. Física pela UFSCar. Pós-doutor em Medicina Social na UERJ. Titular pela Unesp. Pesquisador nos Estados Unidos e Nova Zelândia. Autor de mais de 40 livros e referência nacional e internacional em sua área, com colaboração na Folha de S. Paulo e Estadão. Professor ativo no exterior e no Brasil. Seu mais recente livro é Para ler Sloterdijk (Via Vérita, 2017)

Foto: reparem a cara da mulher de Dória para a ração.

 

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8 Responses “Você quer a ração do Dória?”

  1. Gustavo Silva
    21/10/2017 at 21:25

    Talvez a “ração doriana” não seja tão suculenta quanto aos outros alimentos. Porém gosto de ver que ao menos, o alimento que estaria fadado ao lixo (a ser revirado e devorado pelos pobres, de qualquer forma) agora está tendo um uso prático e benéfico.
    Certamente para aqueles que sentem fome, uma ração insípida é ainda bem melhor do que um estômago roncante.

    • 21/10/2017 at 23:22

      É por existir gente como Gustavo Silva que há gente como Lula e Dória e outros que se sustentam na ideia de que para a pobreza basta a comida dos porcos.

  2. Guilherme Picolo
    19/10/2017 at 16:21

    Como caricatura, já entrou para os anais da História da política nacional, provavelmente ao lado do Fusca do Itamar ou do “Fura-Fila” do prefeito Pitta

  3. bony
    18/10/2017 at 13:11

    Quando leio esses textos seus, penso: que talento para historiador! Nao posso imaginar como seria boa uma Historia do Brasil saida do seu teclado.

  4. LMC
    17/10/2017 at 12:28

    Sabiam que o Lulla disse que
    a ração do Doria não serve
    nem pra cachorro?Pois é….

  5. Matheus
    17/10/2017 at 12:19

    Uma anedota sobre o leite de soja da vaca mecânica de Figueiredo é que minha mãe quando era criança queria muito tomar esse leite de soja na escola (na dela chegou a ter) mas minha vó não deixava pq eles viviam no sítio e tinham muito leite de vaca de verdade – “o leite de soja é pras crianças que não tem leite em casa filha, deixe pra elas” – era o lema da minha avó.

    De tanto ser repreeendida diz minha mãe que no dia que ela provou ela adorou. Mas pode bem ser que se não fosse um ato de “subversão” talvez ela tivesse cuspido tal qual o presidente

    • 17/10/2017 at 12:59

      Felizmente eu já era adulto!

    • Orquidéia
      18/10/2017 at 08:40

      Hahaha!
      A merenda era mesmo agradável,mas eu não tomava,sempre fui intolerante à soja.

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