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18/07/2018

As verdades sobre a Intervenção Militar no Rio de Janeiro


[Artigo para o público em geral]

De Brizola até Pezão, passando por Moreira Franco, Benedita da Silva, Casal Garotinho e Cabral, todos fizeram o mesmo discurso a respeito da criminalidade e da violência no Rio de Janeiro. A Rede Globo mostrou isso, esses dias, com propriedade, lembrando que tudo se deu em trinta anos. É o tempo exato para se ter adultos, já exercendo cargo de mando, que nunca viram o Rio de Janeiro funcionando normalmente. Uma geração inteira acostumada ao fato de que o Rio nada é senão a periferia do Grande São Paulo, uma periferia meio distante, mas nada além de um favelão. Um lugar que só funciona porque a Rede Globo ainda não saiu de lá completamente!

Até o carioca mais bairrista hoje aguenta ouvir isso. O carioca perdeu o brio!

A culpa de tudo isso começou com JK, aquele presidente megalomaníaco que deixou a cidade do Rio de Janeiro como capital do nada, do dia para a noite. Em um estado pouco industrializado, e agregado a uma geografia malévola e ao turismo sem infra estrutura, isso foi fatal. Um lugar que vivia dos empregos públicos, repentinamente se viu sem os cargos burocráticos que o alimentava econômica e socialmente. Depois, nas mãos da Ditadura Militar, as coisas só pioraram, pois os desmandos não vinham à imprensa e não eram cobrados por ninguém. Quando o Rio acordou para um discurso social, com Brizola, já era tarde. Dali para diante, nunca se conseguiu, de fato, tornar a vida honesta mais rentável que a vida desonesta. E eis que o crime organizado se tornou organizado à medida que os próprios governadores e deputados do estado, se mostraram todos eles tão ou mais candidatos à cadeia que os bandidos que eles diziam que iriam prender. A vida de Cabral é um exemplo disso.

O fato é que do Rio-Capital-do-Brasil para o Rio onde o ex-governador está preso, Zé Carioca deixou de ser malandro, deixou de existir, e a palavra “carioca” perdeu o charme. O que é um carioca “da gema”? Ninguém quer mais saber disso. Ser carioca é, para o resto do Brasil, estar metido em algum arrastão: roubando ou sendo roubado. No mundo todo o Rio de Janeiro já tem cara de lugar em que Pablo Escobar ainda vive.

Em São Paulo a repressão funciona. A vida honesta é mais compensadora que o banditismo. No Rio, a vida honesta não tem vez. Há pouco emprego que garanta uma renda melhor que a do envolvimento com o tráfico, direta ou indiretamente – inclusive para os políticos, cuja ganância, sabemos, não tem fim. Além do mais, a elite carioca é mais tacanha que a de São Paulo: viu a UERJ fechar e não ficou com um pingo de dó. Durante trinta anos nunca se preocupou efetivamente com o fato da Cidade Maravilhosa ser, de fato, um grande favelão. Até pouco tempo a elite carioca acha que deveria ficar abraçando a Lagoa para parar o crime!

O resultado disso tudo é, agora, mais uma intervenção. Digo mais uma, pois desde 1992 é que há experiências nesse sentido, periodicamente, com as diversas GLOs (ações a partir de decretos de Garantia da Lei e da Ordem). E a cada vez o discurso é o mesmo: “não faremos teatralidade, mas teremos um plano inteligente para paulatinamente tirarmos a polícia da corrupção e quebrarmos a coluna dorsal do crime por meio de serviços públicos melhorados em cada comunidade”. Todos os políticos fizeram esse mesmo discurso, de todos os principais partidos e tendências ideológicas. Ao mesmo tempo, estranhamente, mesmo dizendo isso, a oposição mais à esquerda sempre também disse a mesma coisa que os que estavam no governo: “bala não resolve, é preciso ação social”. É como se a oposição soubesse que só se ficaria na bala, na teatralidade que era negada por quem solicitava, sempre, alguma intervenção – e a executava!

O trabalho agora é “o mais do mesmo”. De um lado, implanta-se um “bolsonarismo sem Bolsonaro” (expressão de Luiz Eduardo Soares), com a ação de Temer para buscar popularidade na direita rançosa e nos setores de baixa condição intelectual, que acreditam em eugenia social. De outro, o próprio governo e setores da oposição também se repetindo: “bala não adianta sem outros elementos de apoio à sociedade”. Vozes isoladas aqui e ali, que não serão levadas a sério, fogem dessa regra dizendo: não é a bala e nem a ação social do serviço público que resolvem, mas uma política de industrialização a médio prazo junto de uma ação imediata que venha a minar as bases econômicas do banditismo. Nessa hora, ao se falar em bases econômicas, a questão toda é sobre o fluxo das contas bancárias, sobre o circuito do dinheiro que transita entre políticos e traficantes. Pois de Brizola até Cabral, passando pelo PT e outros, nunca a imprensa deixou de notar que sempre houve, por debaixo dos panos, acordos de governantes e políticos com os chefes do tráfico, ou até mesmo uma vida meio que promíscua entre ambos.

A verdadeira ação inteligente no Rio, de combate ao crime, não diz respeito às estratégias para pegar carregamento de fuzil ou para cercar chefes do tráfico, mas para entender como que o dinheiro circula no trâmite de sobrevivência do crime organizado. Não se faz crime organizado sem corrupção, sem ação de máfia, sem participação de contas bancárias de gente graúda, sem rotas de dinheiro que são menos informais do que se imagina. Mas quem vai ter coragem, de fato, de mexer nisso? Ora, bola, não nasceu ainda o Sérgio Moro dessa área. E tudo pode terminar é com um final de 2018 com mais crime, então espalhado por cidades menores e, inclusive, em outros estados, e com as Forças Armadas corrompidas no meio disso tudo. E, claro, com cadáveres onde não os tínhamos.

No limite, o que se vai fazer é tratar o pobre como bandido, o habitante do Rio como tonto, e os políticos como santos isentos da relação com o dinheiro do tráfico. E a água conjuntural para regar essa planta daninha de balbúrdia é esta: o puro desejo de Temer de, conjunturalmente, adiar por ele mesmo a votação da Reforma da Previdência no Congresso, para a qual, mesmo comprando todo mundo, não conseguiu os votos necessários. Afinal, o seu decreto de intervenção automaticamente tira do Congresso a possibilidade de qualquer votação que venha a mudar a Constituição – como é o caso da Reforma da Previdência.

Paulo Ghiraldelli Jr., 60, filósofo.

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16 Responses “As verdades sobre a Intervenção Militar no Rio de Janeiro”

  1. LMC
    21/02/2018 at 15:15

    Por falar em ACM,o neto dele
    vai ser candidato a governador
    da Bahia.Os capangas do
    Lula que mandam na Bahia,
    que se cuidem.

  2. LMC
    21/02/2018 at 11:58

    Pondé,ao contrário de
    mim,é uma besta,PG.

  3. LMC
    21/02/2018 at 11:26

    Quem gosta de Pondé é
    eleitor do Bolsonaro,sabia,PG?
    Então fique sabendo.

    • 21/02/2018 at 11:27

      Fiz referência ao modo do pensamento, eu caro. Preste atenção: Pondé pensa como você. Ele sempre cita outra coisa, que seria pior, quando o ruim lhe é apresentado.

    • LMC
      21/02/2018 at 13:57

      Mas ele é “contra um mundo
      melhor” e diz que os gurus
      dele são Paulo Francis e
      Nelson Rodrigues.Como diz
      o Lampadinha do Professor
      Pardal:Bzzzzzz…..

  4. LMC
    20/02/2018 at 11:57

    Os bolsonaristas e tucaninhos
    chamam Brizola de defensor de
    bandidos porque não fizeram
    nada pela educação,ao contrário dele.

    • 20/02/2018 at 12:01

      LMC não puxe o saco do Brizola, ele desmantelou a rede educacional do Rio ao criar uma rede paralela, os Brizolões, que, aliás, não conclui como disse que faria. Fui amigo do Darcy Ribeiro e sei muito bem, e bem de perto, como Brizola negociou com a bandidagem para governar.

    • LMC
      20/02/2018 at 14:25

      Pior foi o Moreira Franco que
      largou os Cieps só porque
      eram do Brizola.E,ainda por
      cima,como ministro do Temer
      foi ele quem teve a idéia
      desta intervenção,segundo
      a imprensa.

  5. LMC
    19/02/2018 at 12:24

    A violência em SP é igual a do RJ,mas em
    SP não é lugar de gringo passar o Carnaval,
    nem o Ano Novo.E o massacre do Carandiru
    foi aonde,mesmo?Desde os governos
    militares até os do PSDB,os governadores
    de SP compram-no bom e no mau sentido-
    a imprensa,pra dizer que SP é uma
    Disneylândia brasileira.SP virou a
    Venezuela do PSDB:está mais tempo
    no poder que a dupla Chavez-Maduro.

    • 19/02/2018 at 23:30

      LMC quando alguém não sabe contar o número da violência do Rio e de São Paulo, como você, aí é sinal que o Brasil vai mal mesmo.

  6. Hugo Lopes de Oliveira
    18/02/2018 at 19:19

    Estratégia em segurança pública não se faz com espetáculo, mas sim com inteligência. Sufocar economicamente o crime organizado, investir pesado em infraestrutura para acabar com as favelas, fazer a limpa nas polícias, e recuperar a Polícia Civil são medidas muito mais eficazes do que colocar soldado na rua pra dar ibope.

    • Guilherme Picolo
      19/02/2018 at 11:42

      Sim, isso aí, no patamar criminoso do RJ o tráfico só se resolve com um projeto de médio-longo prazo e com serviços de inteligência policial combinados com assistência social. Mas num sistema político em que os candidatos se projetam e são escolhidos como no Big Brother, o que vale é o marketing, a embalagem, o espetáculo.
      O Brasil tem mais de 50% de seus habitantes sem acesso a rede de esgoto… mas quem se importa com isso? É um negócio caro e demorado, que fica embaixo da terra e tem resultados a longo prazo. Ninguém vê nem fala… Não dá pra fazer jingle de refrão fácil nem tomadas bonitas para a TV… Vale o mesmo para o investimento com a educação.
      Então, fica essa mentalidade de prefeitinho de interior, que assume a cidade e tem como obra magna a reforma da praça central, para que todos os eleitores vejam e para que ele possa capitalizar marketing político

    • Matheus
      19/02/2018 at 12:31

      Picolo, melhor é quando (como na minha cidade) a reforma da praça central inclui o corte de inúmeras árvores centenárias…

      Absolutamente injustificável

  7. Guilherme Picolo
    18/02/2018 at 17:44

    O Exército não tem a função de fazer as vezes de polícia interna e nem possui treinamento para isso. Nesse caso, ou exagera na violência, tornando a cena urbana num palco de guerra, ou não produz eficácia nenhuma (como se constatou das últimas empreitadas do gênero).

    Mais provável de ocorrer é o jogo de cartas marcadas de sempre: a alta bandidagem se recolhe ou transfere as atividades até a saída dos militares, depois volta com a mesma intensidade de antes. Nesse meio tempo, pegam-se alguns peixes pequenos e alguns ainda ganham para fazer “vista grossa”.

    Um dos caminhos a curto prazo que talvez fosse mais interessante seria a nomeação de interventor no lugar do governador do estado (o que seria legalmente viável, já que o RJ não paga suas contas com a União), com aporte de recursos da união em primeiro lugar para criar emprego à população jovem dos morros e periferia, que é recrutada a preço de banana pelo tráfico.

    Num segundo plano, teria de haver direcionamento de investimentos federais para combate à lavagem de dinheiro do tráfico, talvez com criação de forças-tarefas dentro da polícia e do Judiciário. Só depende de dinheiro e vontade, que a União pode investir, já que a PF e o COAF, por exemplo, já possuem instrumentos e know how suficientes para investigar e rastrear esse dinheiro sujo.

    • LMC
      20/02/2018 at 17:31

      O Brizola era ruim.Bom é o João
      Doria,o Alckmin e o Tim Tones
      Crivella,Guilherme.

    • 21/02/2018 at 00:45

      Quem só sabe pensar em dicotomia, LMC, acaba pensando como você, ou seja, não pensa. Ninguém está abençoando Crivela ou outro por detectar erros no populismo de Brizola. Ah, tem dó ACM, tenta pensar de forma diferente do esquema-Pondé.

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