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23/11/2017

Um tapinha russo não dói?


Encontrei um livro que fala de como tratar fascistas, como discutir com fascistas etc. Li um pouco. Mas o texto é ruim, chato mesmo. E tem um defeito grave: parece se divertir em ser fascista contra fascistas. Deveria se chamar: carta da intolerância contra que eu acho que é intolerante. Quero conversar sobre isso, levando em conta a novidade russa sobre a flexibilização de leis que punem violência doméstica contra mulheres e crianças, que é está sendo aprovada no Congresso daquele país.

O drama de nossa época, inclusive por conta da exportação da democracia liberal de tipo ocidental como modelo antes de vida do que só de gestão política, é exatamente esse: como fazer valer o texto de Locke, a Carta da tolerância? Qual o grau de intolerância que se pode ter em relação à intolerância, para que tudo não se torne apenas um poço de intolerância?

O segredo é um só, e vem lá das Confissões de Santo Agostinho. Ele avalia que Deus colocou no coração do homem algumas leis sobre o certo e o errado, e ele chega a uma tal verdade por meio da observação de que determinadas regras, ao menos em essência, existem nos mais diversos povos. É exatamente isso que temos que aprender: o que está incrustado como lei no coração dos homens, de um modo bastante geral, e o que pode até estar no coração, mas não está incrustado. Mas um segundo passo é mais difícil: ver até que ponto a legislação social ajuda ou não ajuda o coração do homem a responder corretamente o que Deus nele colocou. É nesse segundo passo que a coisa ferve.

Posso percorrer vários povos e verificar, tanto geográfica quanto historicamente, que não há sociedade que não condene o assassinato, ou seja, que se tire a vida de um inocente. Posso dizer que o roubo, a tomada pela força do que é da posse de outro, está em todo lugar como algo condenável. São constantes que ganham um tal grau de universalidade que é como se estivessem mesmo no coração do homem, como uma inscrição de um Criador todo poderoso. Mas aquilo que não encontramos posto no coração por Deus, o que fazer? Esse é o dilema russo: será que um único tapa na cara de uma esposa durante uma vida toda, um tapa que não deixou marcas, pode levar o marido a ser punido por leis do estado? Não há até quem diga lá, como aqui, que se cortamos isso, o tapa, interrompemos o fluxo da tradição por meio da intervenção não-liberal  do estado na vida privada? Não há em todo canto do mundo um ditado chamado “em briga de marido e mulher não se mete a colher”? Não sei se os russos conhecem este, mas eles possuem alguns que dizem muito dessa situação que agora estão vivendo, com o partido de Putin querendo flexibilizar leis de combate à violência doméstica. Ei-los: “casamento é funeral com música”, “o cão é mais sensato que a mulher, porque não ladra para seu amo”, “o matrimônio é uma penitência”, “antes de partires para a guerra, reza uma vez; antes de embarcares para o mar, reza duas vezes; antes de casares, reza três vezes”. Todos eles podem ser arrematados por um dito de um escritor russo de bom humor, o fantástico Tchecov: “Um casamento feliz pode existir apenas entre um marido surdo e uma mulher cega”. Também é dele: “se tens medo da solidão, não te cases”.

Todos esses provérbios russos a respeito do casamento e vida matrimonial são mais duros que os nossos, ou melhor dizendo, mais pessimistas. Nós, claro, ocidentais, somos mais intimistas, até menos dramáticos. Veja Machado de Assis: “o casamento é a pior ou a melhor coisa do mundo; pura questão de temperamento.” Ou seja: não devemos nos espantar muito com a preocupação do partido de Putin, atuante sob protestos do feminismo mais ocidentalizado. Acreditar que diminuindo penas a respeito de violência doméstica ocorrida sem reincidência, os russos de Putin estão realmente achando que estão sendo não só mais justos, mas que também estão protegendo o casamento e até mesmo apimentando positivamente as relações amorosas. Há algo de sincero nisso, menos hipócrita do que podemos imaginar. Todavia, todos nós sabemos de onde é que vieram essas leis contra o “tapa amoroso” ou contra o “tapa pedagógico”. Vieram de uma suavização das relações que estão na base da sociedade de mercado e do avanço do capitalismo, e vieram também, no miúdo, de elementos estatísticos. Basta irmos nos hospitais no Brasil e veremos como que surgem casos, que não são poucos, de crianças e mulheres quebradas – física e psicologicamente. A Rússia tem cálculos assim também, e são assustadores. Tanto lá quanto cá, o que nós homens de classe média, escolarizados em boas universidades, imaginamos ser a violência doméstica não se resume ao “tapinha de amor” ou “tapinha pedagógico”. Além disso, o bloqueio contra o corpo do outro, não raro, é o único modo de prevenir qualquer violência. Em sociedade em que esse bloqueio não está incrustado no coração por Deus, os homens, com leis, com o estado, ficam tentados a dar uma força para que o bloqueio apareça. Os russos do partido de Putin estão nesse dilema, achando que não se trata de fazer isso como se vinha fazendo. Creio que estão errados.

A intolerância contra a intolerância, então, precisa de bom senso: posso ser vegano e tentar dizer para amigos sobre a crueldade contra animais, mas isso é diferente de condenar amigos por assassinato de humanos, ainda que, do nosso ponto de vista vegano, seja a mesma coisa. É necessário ponderar entre o que se pode trabalhar com o convencimento paulatino, sem fanatismos, e aquilo contra o qual é necessário a lei, e até uma dose de fanatismo. Agostinho trabalhou pensando no incrustado, no que Deus colocou no coração dos homens. Mas o difícil mesmo é a parte que ele colocou só no coração de alguns.

Paulo Ghiraldelli, 59, filósofo. São Paulo, 26/01/2017

 

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4 Responses “Um tapinha russo não dói?”

  1. Joao Pedro Doriga
    27/01/2017 at 00:06

    A discussão que está por baixo é a da violência. Sob tal aspecto, as elucubrações dos “teóricos” vão longe, chegando a dizer que a vida social em si só pode ser concebida com toques de violência.

    A questão e da paridade de armas. Se a violência é puramente “psicologica”, ou seja, pelas narrativas de supremacia de um sobre outro vá lá. Não dá para ficar infantilizando relações para ideais do ranço kantianos.

    Agora. O problema aqui é fisico mesmo. Homem que bate em mulher só bate porque Deus o fez mais forte. Acho que não precisamos do sujeito histórico de Agostinho para resolver o problema, basta a velha logica de Aristóteles.

    Não é essa a bandeira dos defensores dos animais? Lembremos da cabrita. Podemos até leva-la para cama, mas, se a comermos, estaremos praticando maus tratos (para uns, estupro). Por ser um ser inferior igual a mulher (desigual), não pode consentir.

    • 27/01/2017 at 00:10

      Pedro, quando eu vejo você escrever “não precisamos de Agostinho”, a “a questão é de violência”, “Deus fez o homem mais forte e por isso ele bate em mulher” e coisas parecidas, eu sei que você não é meu leitor. Meu artigo é para outro tipo de expectativa.

  2. José Gomes
    26/01/2017 at 15:54
    • LMC
      27/01/2017 at 10:43

      Eles não perderam.O Trump só
      ganhou no colégio eleitoral,que
      a direita americana gosta muito.

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