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24/04/2017

Trump disse “nunca antes nesse país…” ou algo parecido!


O populismo não tem vez! Era isso que pensávamos nos anos oitenta. O populismo era algo lá do passado, da década de trinta à década de cinquenta, mas não mais que isso. Ensinávamos aos alunos, com convicção: a melhor época para o populismo foi aquela dos chamados “grandes demagogos”: Stalin, Hitler, Franco, Mussolini, Peron e, entre nós, claro, Vargas. E garantíamos: não há mais espaço para tais tipos. Estávamos enganados.

Tão logo desapareceu a URSS, e o populismo surgiu no Leste Europeu. Veio pelo Boris Yeltsin e desembocou em Putin. No Brasil, Lula nasceu anti-populista, para combater Brizola que era então herdeiro do velho populismo varguista, mas Lula terminou se transformando também em populista. Agora, nos Estados Unidos, surge Trump. Como essas figuras arcaicas, que sobrevivem na base da demagogia, ainda podem vingar diante dos sistemas de comunicação abrangentes e rápidos de hoje, capazes de desmenti-los ao mesmo tempo que falam?

Há traços no mundo contemporâneo extremamente avançados, como ficção científica, que apenas na aparência primeira poderiam se opor ao populismo, mas que, na verdade, estão a favor do seu modo de agir. O novíssimo alimenta o velho sem jamais ter imaginado fazê-lo. A agilidade do mercado trouxe o culto do novo e institucionalizou a moda como característica social; essa agilidade contraiu o tempo, de modo que tudo é instantâneo ou tem de ser instantâneo, e isso foi favorecido pelo novo sistema de comunicações que culmina agora na Internet em todo lugar que se está; por fim, isso repõe o culto do novo também sobre nós mesmos, numa neofilia completa, ou seja, numa volta incessante à juventude. Essas três características de nossas sociedades atuais dão um caminho aberto para o populismo.

O mercado e sua lógica de consumo de massas tudo domina, e sobrevive na imposição da obsolescência programada, rápida e contínua, instituindo o culto e cultivo do novo. Desaparece o tempo enquanto aquilo que faz termos experiência. A temporalização atual é a do instantâneo. Daí para a sensação mágica de que tudo vale no momento em que se fala que vale, dá-se apenas um pulinho. E tal sensação se espraia cotidianamente para todo canto. Não à toa, o pensamento mágico contido na semântica de Trump, em plena posse, se torna plausível, em especial para o tipo que é o seu eleitor.

Ele insistiu em dizer “aqui e agora”. Aliás, ele adora essa expressão. Ao contrário de Obama, que dizia “nós podemos”, como um convite a uma jornada coletiva ao futuro, envolvendo tempo, Trump diz o “right now, right here”. O povo, disse ele, foi esquecido, isso se acabou “aqui e agora”. O que é falado acontece. Acontece na hora. Assim é o mundo atual. Aqui e agora não indicam mais uma metáfora. Trata-se de aqui e agora mesmo! Para quem está propenso a ouvir algo mágico, encontra em Trump e na sua capacidade de fazer o instantâneo valer, um prato cheio. Nessa mesma linha, ele tratou de mostrar que realmente o tempo não existe, pois zerou a história americana: 44 presidentes antes dele não fizeram nada, e só a partir dele é que se instaura a época do povo falar. Enquanto só ele fala, o povo fala. Ele é o povo. Ninguém antes dele deixou o povo falar, ninguém fez outra coisa senão só enriquecer os políticos até então. Ora, no discurso de posse, só faltou ele repetir a fórmula conhecida entre nós, “nunca antes nesse país”. Cheguei a achar que tal frase acabaria acontecendo.

Trump é mais velho que Obama, mas se apresenta como se fosse jovem, cerrando punhos, falando de mulheres, meio adolescentão etc. O passado é algo chato, ruim, que nem existe mais. O novo, a novidade, e a eterna capacidade de voltar e voltar a ser jovem, inerente ao nosso regime atual de vida, é o que ele representa. Melanie e filha se apresentam assim, como se não tivessem diferença de idade. Quando ele fala de colocar a América no topo “novamente”, ele já zerou o tempo, então só pode estar se referindo a um tempo não existente, a famosa “época áurea” sempre aludida pelos populistas, aquela época quando havia na Terra americana só os originais americanos, ou seja, gente como ele, Trump.

Sem a sociedade de mercado no regime de consumo de massa e de comunicação de massa, que nos faz viver o tempo contraído, a vigência do efêmero e a reposição de compras de novidade, o que nos faz cultivar a respeito de nós mesmos a reposição de nossa juventude, não teríamos jamais podido abrir espaço para o populismo. É como se o populismo tivesse esperado essa fase de nossas vidas, com esse tipo de organização da produção e consumo, e com esse tipo de tecnologia e noção de temporalidade, para então voltar e assenhorar-se de governos. Os dois grandes gigantes, USA e Federação Russa, estão agora sob a regra populista que combina extremamente bem com as nossas condições da modernidade atual.

Paulo Ghiraldelli 59, filósofo. São Paulo, 21/01/2017

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3 Responses “Trump disse “nunca antes nesse país…” ou algo parecido!”

  1. Guilherme Picolo
    25/01/2017 at 03:50

    Sem nenhum esforço, em apenas uma semana de governo o sujeito acabou com o Obamacare, abandonou na base da canetada um tratado histórico comercial no Pacífico, provocou muçulmanos e mexicanos, restringiu entrada de refugiados, ofendeu lideranças europeias… Ao que tudo indica, vem muito mais por aí.
    *
    Parece que o objetivo do homem é mesmo destruir todo o legado de Obama, para delírio dos caipiras semianalfabetos e fracassados que o elegeram.
    *
    Quem ri com a situação é o Putin, que sagaz como uma raposa já se vê favorecido com um novo cenário mundial, em que a América ruma para resgatar as suas piores tradições do passado: fechada, provinciana, pedante, odiosa e odiada pelo mundo inteiro…

  2. Eduardo Rocha
    21/01/2017 at 19:47

    Essa cultura de aceleração e de inovação pelas tecnologias da comunicação e informação faz com que haja algum tipo de associação entre tecnologia e niilismo?

  3. Hilquias Honório
    21/01/2017 at 14:50

    Muito bom! Não havia pensado por esse ângulo ainda. E melhor ainda que o professor fala sobre a vigência do efêmero sem se deixar levar pelos clichês!

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About Paulo Ghiraldelli

Filósofo