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19/08/2017

Tercerize-lo-ei!


A “terceirização” aprovada no Congresso sem sombra de dúvidas enfraquece o trabalhador diante do empregador. Ninguém tem dúvida disso. O modo de dizer isso pode variar, mas o fato é sem dúvida este. Agora, se isso é bom ou ruim para o país nesse momento, então aí estão as dúvidas.

Para as posições tradicionalmente à esquerda, se o trabalhador fica enfraquecido diante do empresariado nas relações de trabalho e emprego, o país todo está de mal a pior. Os trabalhadores são maioria e, se estão em desvantagem, como o país pode ir melhor? As posições tradicionalmente conhecidas no Brasil como conservadoras, e até chamadas de liberais (num sentido bem diverso do liberal americano), não acreditam que aquilo que possa enfraquecer o trabalhador possa piorar o Brasil, e isso não por achar que o trabalhador não representa o país ou não é maioria. Governam no âmbito de uma crise que, enfim, foi capitaneada pela esquerda, além de ter entre estes vários dos que estão hoje querendo defender os empresários.  Esses que agora governam ou apoiam querem se eleger no ano seguinte e, para tal, precisam mostrar que tiraram o país da crise. Para que isso ocorra é necessário oferecer para o investidor lá fora um quadro interno favorável. Sanear contas públicas é algo que sinaliza bem. Mas só isso não basta, é necessário sinalizar com uma legislação trabalhista convidativa para o investidor-empresário.

Assim, do ponto de vista da filosofia, que deve olhar de sobrevoo, e não da ciência econômica ou das paixões políticas, a ideia dos liberais ou conservadores não é de toda ruim se notarmos a situação de modo estrito, ainda que seja péssima em termos históricos. Na ideia de sobrevoo, da filosofia, o correto era a esquerda não ter se corrompido, para não perder moral, e não ter colocado o país na crise. Agora, na situação que estamos, todos ficam em dúvida se não vale a pena até passar por “retrocessos” trabalhistas para ver a crise diminuir. A consciência do trabalhador, nessa hora, chega a titubear. Ele pensa: será que não é melhor ceder agora e, passada a crise, tentar voltar a inserir na legislação as seguranças trabalhistas novamente? Acreditar que o trabalhador sindicalizado e com certa politização não chega a pensar assim é engano. Ele pode não ter coragem de defender isso de público, caso não esteja bem atrelado no governo, mas que chega a ponderar uma tal coisa, creio que chega sim.

Em todos os lugares do mundo, em situações como essa que o Brasil vive, manter condições trabalhistas vantajosas se torna muito difícil. A correlação de forças no Congresso não permite. Aliás, é um engodo das esquerdas vir dizer que se fosse Dilma não estaria ocorrendo isso. Mentira, Dilma faria isso sim, até pior. Essa agenda de terceirização está aí na pauta desde a crise de FHC, em 1998. Alguém iria ressuscitá-la em uma nova crise. Finalmente chegou a hora. Infelizmente chegou. Uma esquerda corrupta, porém sem ter jogado o país na crise, barraria tal coisa no Congresso. Mas uma esquerda que fez a crise e perdeu a moral por conta da corrupção, ou seja, uma esquerda com duplo pecado, não tem como rechaçar um Presidente do Congresso que chega à barbárie máxima de dizer que nem deveria haver justiça do trabalho.

Rodrigo Maia pode hoje falar o que quiser. A verdade é que nunca a esquerda esteve em tal baixa, e por culpa própria.

Paulo Ghiraldelli, 59, filósofo. São Paulo, 22/03/2017.

12 Responses “Tercerize-lo-ei!”

  1. Paulo Altino
    01/04/2017 at 10:02

    Ótimo texto. Bastante elucidativo e imparcial. Traduz tudo o que eu penso a respeito dessa crise total que o país atravessa. Mas, que ainda não sou capaz de expor e analisar de forma lúcida e transparente como tal. Parabéns e obrigado professor Paulo…!!

  2. LMC
    24/03/2017 at 10:59

    Não é a toa que o Michel Satâmer é
    comparado por aí a um vampiro.
    kkkkkkkkk

  3. Francisco Sulo
    24/03/2017 at 10:56

    Essa ideia da “esquerda que se corrompeu”, do “duplo pecado” e coisa e tal…

    Ela se elegeu onde? Pra governar pra quem e com quem? Com quem constituiu o tal presidencialismo de coalisão?

    Falta situar os governos, independente da cor partidária, no solo árido da existência real, histórica.

    • 24/03/2017 at 12:40

      Sulo! Se falta tanto, boa oportunidade para você fazer seu artigo, ou tratado.

  4. Rafaello
    23/03/2017 at 21:12

    Num país onde rico não gosta de pagar imposto e o lobby empresarial manda nos políticos DUVIDO que o trabalhador vai reaver os direitos perdidos.

  5. João Pedro Dorigam
    23/03/2017 at 13:54

    Bom texto, Paulo. Azar é que o ambiente ainda não está propício para a ave de rapina, ainda não anoiteceu.

    Sobre o comentário do colega dizendo que você desconhece, dá para perceber o quanto há de ideologia em nas palavras dele.

    Há um erro de lógica: se vai se colocar mais um para ganhar na cadeira (o atravessador de mão de obra), como pode melhorar?

    Mas, entre mortos e feridos, acredito que o tiro sairá pela culatra. Há empresas que seguiram nisso em setores que já haviam permissão legal e perceberam que é um erro.

    O problema do Brasil não é a CLT e sim a ignorância do povo. O que muda um burro ser ou não terceirizado? Vai produzir mais com chicotadas? Vai conseguir compreender melhores os textos?

    Só se os burros também terceirizarem seus trabalhos (consultores aqui tanto debatido), ai teremos uma cadeira de terceiro e cada um será um colegiado. A torre de babel estará instalada.

    Aguardemos o anoitecer.

    • 23/03/2017 at 14:01

      Dorigan as pessoas querem textos dogmáticos, que digam a “verdade”, mas a filosofia da maneira que faço é sempre um busca de captar os vários sentimentos diferentes sobre situações. É difícil para alguns esse tipo de texto.

  6. Ulisses
    23/03/2017 at 08:08

    Você não faz a mínima ideia do que é a terceirização. Procure se informar. O trabalhador que trabalha para uma terceirizada tem todos os direitos normais dos outros na CLT. A terceirização oferece um serviço miais profissional, pois a empresa se especializa naquela função. Reduz custo para o empresário e riscos com direitos trabalhistas, que passam a ser de responsabilidade da terceirizadora. Abaixar custo para empresas significa possibilidade de mais empregos

    • 23/03/2017 at 12:36

      Ulisses, eu sei que não consegue entender nada do que lê e já vi que é burro. Não precisa vir aqui dizer isso.

    • Tony Bocão
      23/03/2017 at 14:01

      Recomendo Ulisses, a terceirizar a leitura, peça para alguém ler para você. Seu comentário sobre terceirizadas é de quem não conhece a vida. Um exemplo extremo: Leia sobre empresas que fazem limpeza e abate de frango em Brasília (caso mais grave), usando mão de obra muçulmana, por conta da preparação da carne, é de uma escravidão clássica, permitida justamente por suportes como este. Em tempos de crise, entendo que os direitos são os primeiros a irem pelo ralo, mas por favor, não vamos adotar essa ingenuidade…

    • 23/03/2017 at 15:08

      Tony quando a pessoa não entende a terceirização como enfraquecimento do lado do trabalho é porque ela nunca trabalhou.

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