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27/03/2017

A sociedade da apatia gerada pelo socialismo


A ideia básica do socialismo é a diminuição da disparidade econômica e social entre os indivíduos. A ideia básica do comunismo é da redução da jornada de trabalho e a eliminação do mercado e, no limite, do estado, liberando o homem para afazeres artísticos, culturais e de lazer. Não são coisas impossíveis de ocorrer, mas, quando começam a ocorrer, dependendo do modo que andam, a ideia da diminuição da jornada de trabalho não vem e o florescimento artístico e cultural não aparece.

É que quando eliminamos o mercado e os partidos políticos pela força, estranhamente as iniciativas em outras diferentes facetas da atividade humana decai ao invés de progredir. As pessoas deixam de fazer política democrática, deixam de criar partidos, não mais criam empresas, mas então deveriam ter a alma liberada para serem escritores, pintores, diretores de teatro, artista do teatro, etc. Não é isso que ocorre. A iniciativa política e empresarial parece não poder ser extinta pela força pois, se assim ocorre, toda a iniciativa social parece sofrer, mesmo se não for atingida diretamente. Todos os países socialistas sentiram isso. Sua ciência andou, mas em determinados momentos empacou. Sua tecnologia se tornou piada. Sua arte se tornou repetitiva. Sua criatividade filosófica ficou zerada e, enfim, sua literatura, se não fosse pelos dissidentes, nunca teria sido levada em conta. Assim foi com a URSS e satélites. Assim foi com Cuba. O século XX viu isso, a ponto de intelectuais comunistas do lado do comunismo serem ridículos e medíocres perto de intelectuais comunistas do mundo livre.

Na verdade, o que os socialistas nunca entenderam é que não houve algo como a “revolução burguesa” que, então, poderia ser imitada segundo um outro tipo de revolução. Ver a “revolução burguesa” com uma etapa para então começar a articulação da “revolução socialista” foi algo como que fruto de um erro crasso de entendimento. A “revolução burguesa” foi apenas um modo de falar sobre eventos de tipos variados, que surgiram na Europa em um grande e longo período chamado a modernidade. Esse longo período criou um novo espírito, gerou uma alma capaz de iniciativas, e depois disso nunca mais essa iniciativa — junto do gosto pela aventura, da capacidade para o risco e da interpretação diferente da sorte — teve como ficar como algo à parte. Essas mudanças todas e o capitalismo vieram juntos. Isso e o liberalismo também se casaram. E para tal houve, antes, a preparação dada pelo Renascimento. Os socialistas se esqueceram disso tudo, olharam a história de modo pobre, reduzindo tudo à política, e acharam que podiam reeditar revoltas políticas, então chamadas erradamente por “revolução burguesa”, segundo um novo tipo, a “revolução proletária”. Fizeram a simetria entre o que imaginaram para o futuro, a “revolução socialista”, com o que descreveram errado do passado, a “revolução burguesa”. Marx não fez isso. Mas outros fizeram. Lênin e outros, como também Fidel, caíram nessa esparrela. Foram intelectuais fracos, e deu no que deu.

O grande erro desses intelectuais é de não levarem a sério algo com que o filósofo Peter Sloterdijk se preocupa muito: a animação e a reanimação. Eles jamais entenderam o quanto o Renascimento foi uma época de “sabotagem da resignação”, e como que sem isso não iríamos a lugar algum.

O longo processo de alteração do espírito chamado modernidade deveria ter sido estudado como um tal longo processo. Mas não foi isso que ocorreu. Tudo foi reduzido por uma historiografia simplória, e deu origem a desejos simplórios. Os desejos de fazer parir utopias à força deu no que deu: ao se eliminar iniciativas para a política e para o mercado, o resultado foi que toda forma de inciativa também esmoreceu. Todos os países socialistas tiveram juventudes apáticas, ingênuas, vítimas de excesso de consumo de álcool e, enfim, logo que tais regimes ruíram, pariram um completo desrespeito ético jamais visto no mundo capitalista. A Rússia e a China são exemplos de lugares onde o barbarismo é bem maior do que o que temos (há dois filmes bárbaros sobre isso, respectivamente: O Leviatã, de Andrey Zvyagintsev, e Um toque de pecado, de Jia Zhang-Ke). A Ilha de Fidel vai passar por uma transição. Muitos temem que se dê o mesmo. Que um povo apático não consiga mais fazer outro caminho que não o de indigentes diante da volta do capitalismo e da democracia liberal.

Cuba talvez tenha mais sorte, por conta de ser retardatária. Talvez não. Mas tudo isso já é coisa do passado. Comunistas não existem mais e ninguém no nosso século XXI, fora de Cursos de Ciências Sociais perdidos por aí, conversa a sério o tema “capitalismo versus socialismo”. Isso acabou, para falar a verdade, em 1989 e foi enterrado em 1991.

Paulo Ghiraldelli, 59, filósofo. São Paulo, 26/11/2016

Quadro: A nona onda, do pintor dissidente Vasily Kolotev,1979

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3 Responses “A sociedade da apatia gerada pelo socialismo”

  1. Eduardo Rocha
    27/11/2016 at 23:29

    Excelente texto.

  2. denis
    27/11/2016 at 21:30

    Ow Profi, NOS JA NAO PRATICAMOS SOCIALISMO NO NOSSO BAIRRO? PQ TEM QUE TER PARTIDO SOCIALISTA? NÃO É ALGO NATURAL?

  3. 27/11/2016 at 09:02

    M. Ponty dizia que as revoluções são verdadeiras enquanto movimento, mas falsas enquanto instituições.

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About Paulo Ghiraldelli

Filósofo