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22/10/2017

Só vale quando eu ganho! A esquerda e a democracia


A democracia tem um problema: eu voto certo, mas meu vizinho não. Essa é uma observação americana, jocosa e verdadeira.

Ou seja, a democracia é um regime completa e desesperadoramente laico. Nela não vale nenhum pouco a frase do pré-socrático Tales de Mileto: “tudo está cheio de deuses”. A democracia é um lugar sem deuses. Por isso mesmo, Janaína, mesmo sendo mulher de fé religiosa, colocou a presença de Deus como fazendo conluio como uma meia ironia. Em outras palavras: a democracia não tem “um terceiro”. Enganam-se os que pensam no STF ou na TV como um terceiro poder. Nem o dinheiro é um terceiro. A democracia é um embate em que nós nos colocamos contra nós mesmos, em forças que, em determinado momento, se fazem em conflito dual. A democracia não é um aval para o plebiscito, mas é um território para o confronto dual em vários momentos pontuais. Não há nisso uma mão do céu ou da terra para nos salvar. Nós decidimos tudo. Só nós.

Por isso mesmo, acusamos uns aos outros, especialmente na democracia. Voto certo, mas, infelizmente, eu digo sempre, quando perco, que meu vizinho não votou certo. “O povo não sabe votar”, e me excluo da condição de elemento do povo. “O Congresso não sabe escolher”, e me excluo da condição de eleitor do Congresso. Tudo ocorre a contragosto meu. Mas, se as coisas saem como quero, então “o povo está abrindo os olhos” ou “o povo não se deixou enganar” ou “Esse Congresso fez justiça” etc. Temos uma enorme dificuldade de entender que a democracia é terra do mundo sem demiurgos e que tudo nela somos nós mesmos. Nossa dificuldade é a de aceitar que cada decisão da democracia é contingente e vai durar muito menos do que apregoamos. Na democracia um Collor pode ser cassado e, então, voltar adulado pelo PT para, enfim, morder o PT. A democracia é um regime de espertos e inteligentes, não de espertalhões de primeira viagem e de ideólogos burros. O PT, sendo uma quadrilha de segundo tipo, até que durou bastante nisso.

O PT vai voltar? Vai do mesmo modo que o populismo de Vargas voltou pelas mãos de Brizola e, depois, abocanhou Lula para a missão de bandido. Talvez o nome PT não volte. Mas o neopopulismo associado ao gangsterismo político não foi derrotado por Janaína Paschoal. Levou um tiro. Mas vive. É a maior força atual que impede a esquerda de cumprir um papel diferente na política brasileira e, de certo modo, latino americana. Trabalha em um nível emocional perigoso. Quando não alimentado por empresários em associação desonesta com o estado, então retrocede. Mas é uma maneira de governar que não desaparece fácil. Pode vir pela direita, como com  Jânio ou Trump, mas seu leito na América Latina é a esquerda.

Não pensem que Jango e Vargas não tinham governos corruptos. Tinham sim. Muito da crítica da UDN era válida. Muito do que Carlos Lacerda dizia de errado, como a Veja faz hoje, acertava em cheio. O populismo se agarra ao estado e o oferece aos mais ricos, dizendo publicamente que está é dando-o aos mais pobres. Afronta pseudos núcleos de poder – TV ou algum jornal ou algum grupo empresarial de oposição – e com isso posa de vingador para uma camada grande da classe média, dos mais pobres e, não raro, dos mais incultos ou só mais burros mesmo. Às vezes deixa sobrar uns incultos para a direita, para o populismo de direita, ou seja, faz algum Frota da vida procurar um macho alfa em algum Bolsonaro da vida. Mas, no geral, o neopopulismo de esquerda sabe morder até mesmo nos setores sindicais organizados, que nem precisam dele.

O que Janaína derrubou foi um pilar do neopopulismo. O outro, exatamente o que está comemorando agora, está de pé. PT-PMDB são uma chapa. O PSDB se alia ao PMDB agora, e se agrupando ao DEM, o ex-PFL. A aliança muda de rumo. Nem Lula e nem FHC a prepararam, ela veio por um destino diferente. Janaína foi a mulher que soube intuitivamente perceber isso e, então, inventou de colocar o instrumento do Impeachment na agenda do Brasil no momento dessa reorganização de poder. Deu certo. Não refez o país, mas tonteou o neopopulismo. Janaína está já na história. Não seus netos, mas seus filhos já a verão nos livros didáticos como quem lutou contra o neopopulismo, isso se a historiografia de uma esquerda emburrecida não prevalecer.

A esquerda pode renascer disso tudo? Pode! Mas duvido que será diferente. Tenho visto gente da esquerda na REDE, PSOL, PDT etc. e todos ainda fazem o mesmo discurso. Uns teimam na social-democracia que quer só cobrar impostos. Outros ainda geme segundo anti-americanismo. Há os que repetem a organização de partidos em estilo bolchevique ou estalinista. Todos eles falam em justiça social e igualdade, mas abandonam rápido a bandeira da liberdade e desconhecem a da fraternidade. Uma esquerda melhor não poderia abandonar a revolução burguesa, ou seja, os ideais da Revolução Americana e Francesa. Deveria pensar na ampliação de direitos e sonhos dessas revoluções. Mas a nossa esquerda ainda quer é a luta contra tais revoluções. Vê o socialismo como a negação dessas revoluções. Por isso, não raro, cede ao neopopulismo que é um regime que  tem a ver com a deterioração da vida, não com o melhor dessas revoluções. A prova disso é que a maneira de escolha de candidatos dentro de partidos, na nossa democracia, é perfeitamente antidemocrático. Somos feitos para obedecer chefetes, oligarquias, gente imbecilizada e até professor universitário marxóide. O neopopulismo é um polvo com ventosas pegajosas e expansivas.

Pode ser que daqui uns tempos venhamos a bater na porta de novas Janaínas, para novos Impeachments. Não sabemos. Por enquanto, temos o direito de uma cerveja. Uma única, mas temos. Faz de conta que o neopopulismo tomou um tiro maior do que realmente tomou. Cheers!

Paulo Ghiraldelli, 59, filósofo. São Paulo, 31/08/2016.

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8 Responses “Só vale quando eu ganho! A esquerda e a democracia”

  1. Petrônio Gonçalves
    01/09/2016 at 12:43

    Lula vai voltar em 2018, voltará nos braços do povo como Getúlio em 1950.

    “Eu volto, e volto nos braços do povo”.

    Lula é ainda um grande ídolo da classe trabalhadora e dos menos favorecidos.

  2. Orquidéia
    01/09/2016 at 08:05

    Prof.Ghiraldelli,publiquei seu artigo no meu perfil do facebook, veja.

    https://www.facebook.com/orquideia.goncalves/posts/1976217305938266

    • 01/09/2016 at 09:13

      Não deu acesso!

    • Neguinha da Silva
      01/09/2016 at 21:57

      Mas o sr.está em meu profile.[é meu amigo lá]
      Bom, vou mudar a exibição para “público”,quem sabe o sr.vê.

    • Orquidéia
      01/09/2016 at 22:00

      Que terrível!
      Esqueci de trocar o apelido que usei para replicar ao sr.naquele outro texto,para nenhum daqueles opinadores me localizar no facebook… [sou mesmo desatenta]

  3. Alexandre
    01/09/2016 at 00:36

    Você ainda grava o Hora da Coruja? Onde encontro os novos vídeos?

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