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27/04/2017

Sentimento anti-político não é o problema, caro cientista político


A entrevista do cientista político da UFMG, Fábio Reis, na Folha de S. Paulo (12/04/2017), diz tudo que Lula assinaria em baixo. Ele fala que o impacto da Lava Jato na sociedade é negativo, pois cria um clima antipolítico. Essa é a tese do Lula. É a tese da ditadura da democracia corrupta. Ou seja, temos de conviver com a corrupção, temos de suportar a democracia com corrupção, qualquer medida drástica contra ela já é assimilada ao discurso de Castelo Branco contra os políticos, em 1964. Esse tipo de pensamento não está correto.

O pior dessa tese, na conversa do cientista político, é que ela vem acoplada a outros elementos que visam passar a mão na cabeça dos líderes do PT. Em determinado momento da entrevista, o professor de Minas Gerais chega a dizer que o PT se tornou corrupto ao fazer acordo com o PMDB e PSDB. Ora, qualquer historiador sério pode mostrar que a prática do PT em termos de fraqueza ético-moral sempre existiu, e já havia se manifestado em algumas prefeituras administradas pelo partido, antes de Lula virar presidente. Isso sem contar a atividade do próprio Lula, no ambito sindical. Também é óbvio que o esquema de corrupção do mensalão e petrolão jamais foram pensados antes, ao menos não com o sentido que o PT lhes deu, o de criar uma base governista capaz tornar toda a atividade do Congresso, em todas as votações, um animal dócil. Sabe-se muito bem que essa é uma visão leninista do parlamento: congresso é algo burocrático para funcionar como corpo técnico do executivo. Lênin dizia que o congresso tinha que ser como qualquer outra burocracia eficaz, e citava os correios estatais como exemplo. Ora, certa esquerda acha que isso pode ser feito mesmo fora do socialismo ditatorial, e que deve se feito à despeito da “lei burguesa” que, enfim, não vale nada mesmo. Trata-se de uma corrupção diferente da corrução liberal.

Mas, para além dessas questões de ciência política, há também algumas coisas necessárias de serem observadas que vão além do campo do professor mineiro. Trata-se da filosofia política. Nessa área, não podemos ter medo de criticar a democracia. E isso de modo radical.

Não se trata aqui de promover aquela narrativa medíocre que diz que “podemos criticar a democracia, mas só para aperfeiçoá-la”. Já ouvi isso de um midiagogo da moda. Não cola. Platão criou a filosofia e seu passo fundamental foi de uma crítica radical da democracia, e não de uma crítica didática, fraca, falsa. Eu gosto de viver na democracia liberal. Mas meu cérebro não fica vazio por conta de meus gostos. Sei muito bem que a democracia liberal dá margem para o funcionamento de uma vida insuportável. Quando digo isso, não cabe vir outro e dizer: quer viver na ditadura? Ora, não é essa a questão. Quando digo isso que disse, posso apontar claramente para situações que não ajudam ninguém, que são cancros por si mesmos. Por exemplo: não podemos desconsiderar que na democracia os partidos rapidamente caminham para a aceitação da plutocracia e que esta, dificilmente, deixa de se dizer democracia. Aliás, quem diria que não é assim no Brasil? Faz muito tempo que as campanhas são caras e seus candidatos são determinados pelos caciques políticos. Quando não, a coisa sai até pior, pois o elemento exterior, fora do grupelho partidário, se nele entra é a contragosto dos caciques, e o faz pelo poder do dinheiro. Trump e Dória não nos mostram bem isso? A despeito da diferença gritante entre ideários de um e outro, ambos “forçaram” seus partidos a aceitá-los. Quem disse que não fizeram isso por conta de dinheiro pessoal? A imprensa noticiou isso. Devo desacreditar dela nesse caso?

Há duas medidas a serem tomadas hoje no Brasil pelos intelectuais que querem ser sérios. Primeiro, no campo teorético, devemos conseguir criar um clima de entendimento da contemporaneidade que não tenha medo de analisar democracia, mercado, consumismo e modo de pensar tecnológico pela via dos filósofos sociais. Segundo, no campo prático, ou seja, ético moral, devemos conseguir não ter medo da justiça, mesmo quando ela parece que não vai deixar pedra sobre pedra. De resto, perdão velado para o PT é coisa que não cabe mais.

Paulo Ghiraldelli Jr. 60, filósofo. Autor entre outros de Para ler Sloterdijk (Via Vérita, 2017)

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4 Responses “Sentimento anti-político não é o problema, caro cientista político”

  1. 14/04/2017 at 03:59

    O Bresser escreveu há algumas horas:

    ” O acordo necessário

    O indiciamento de mais 120 políticos, inclusive Fernando Henrique e Lula, mostra que a Operação Laja Jato tende a destruir toda a classe política brasileira. Muitos dirão que isto é “ótimo”, porque os políticos brasileiros são “todos”, ou “praticamente todos”, corruptos. E porque não há dificuldade em substituí-los. Mas estas duas crenças são falsas.

    Primeiro, não é verdade que os políticos possam ser facilmente substituídos. Seria bom que muitos o fossem, mas será péssimo que os melhores políticos brasileiros, independentemente de sua cor ideológica, sejam desmoralizados e excluídos da vida pública. A profissão política é a mais importante das profissões, porque são os políticos que fazem as leis e conduzem o Estado; porque são eles que governam. Não se fazem políticos de um dia para outro. Um dia destes vi a entrevista de uma página inteira na Folha de um homem de televisão muito bem-sucedido, sr. Huck, que dizia que estava na hora de pessoas de sua geração assumirem o poder. Concordei com a afirmação, que estava no título, e decidi ler a entrevista. Uma coisa patética. Não havia uma ideia sobre o Brasil; uma ideia sobre o mundo. Apenas autoelogios e considerações vazias sobre a hora de sua geração.

    Segundo, não é verdade que todos os políticos são corruptos. Pelo contrário, estou convencido que a grande maioria é honesta, inclusive alguns políticos já condenados pelo Mensalão, como José Genoíno (que conheço bem e admiro) e João Paulo Silva (que não conheço). Agora, no quadro do Lava Jato, é ridículo afirmar que políticos como Fernando Henrique, Lula, e Alckmin são corruptos. E, no entanto, o Judiciário, aplicando a lei, tende a também condená-los.

    Por que condenar inocentes? Porque, segundo a lei, o ato receber doações para campanha ou como presente, sem oferecer em troca obra ou emenda – não sendo, portanto, propina –, é, não obstante, ilegal e pode ser entendido como corrupção. Mas não é, não é crime, porque a prática de se receberam doações e presentes sem que o político e a empresa fizessem o devido registro do fato fazia parte dos usos e costumes do país. A partir do Lava Jato e do susto que está causando nos políticos, não fará mais. E será preciso definir um limite para o valor dos presentes, como acontece em outros países. Mas não faz sentido agir retroativamente, considerar políticos eminentes como corruptos, e condená-los.

    A imprensa hoje informou que os principais políticos dos principais partidos brasileiros estão se organizando para enfrentar o problema. Isto é mais do que necessário. A solução é a anistia do caixa 2 e regulamentar os presentes. É dar ao Judiciário uma lei que lhe permita não causar uma violência contra o Brasil.”

    Eis mais um caso que cai bem no seu texto, Paulo.

    • 14/04/2017 at 08:01

      Bresser foi alguém que eu respeitei. Ele até citava textos meus. Mas isso que ele fez, meu Deus! Que autodesqualificação.

  2. Robson A. Silva
    13/04/2017 at 17:52

    está critica é tão necessária, as verdadeiras questões para o amadurecimento política estão sendo veladas em prol desse pudor democrático demagogo. A política se blinda, torna-se classe social e maneja-se de forma a continuar seus descaminhos. A classe intelectual é tosca nas atitudes e não promove um só pensamento ousado e crítico e com potência para necessárias renovações. Há o desgastado discurso socialista pós moderno e a tentativa de uma direita ainda mais vaia…Paulo Ghiraldelli, parabéns pelos apontamentos…

    • 13/04/2017 at 18:18

      Obrigado Robson! Aos poucos, um grupo menos afeito ao oba oba está pensando aqui e ali seriamente.

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About Paulo Ghiraldelli

Filósofo