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22/09/2017

O Golpe de 1964 ou a Revolução de 1964? O golpe contra Dilma ou o Impeachment de Dilma?


Logo após a instauração do novo regime, a partir de 31 de março de 1964, a Seleções do Reader’s Digest, anti-comunista até o último fio de cabelo, publicou uma interessante matéria com boa cobertura jornalística sobre o assunto: “o país que se salvou a si mesmo”. Esse era o título. Durante anos esse material serviu para os alunos de nossas escolas se informarem sobre o assunto. Afinal, toda família de classe média lia a Seleções.  Era uma leitura obrigatória para tempos de Guerra Fria. 

A referida matéria dizia uma verdade que a esquerda nunca quis aceitar: a revolução brasileira havia sido feita pelos próprios brasileiros. Os americanos não interviram, nem deram dinheiro significativo e, enfim, não acreditavam em comunismo no Brasil. De fato, houve participação popular contra o governo de Jango. As esquerdas classificaram tal mobilização não como “participação popular”, nome que guardou para o público dos comícios do governo federal, mas de “mobilização da classe média anti-comunista”. Mas a revista dizia uma mentira que as esquerdas, por conta de ação posterior de reação ao regime, e também por conta da deturpação histórica de ambos os lados, acabou por vingar: a revolução de 1964 teria salvado o Brasil do comunismo, ou seja, tirado o Brasil de um suposto início da versão cubana de guerrilha que estaria já em curso, ajudada pelo próprio governo de Jango que incitava a população com suas “reformas de base”.

Ora, não havia em 1964 nenhuma revolução ou golpe comunista em curso. Não havia guerrilha ou cubanos por aqui. Jango era um fazendeirão gaúcho, não pretendia instaurar nenhum comunismo, claro! A verdade quase veio à tona, logo no Dia da Mentira. Mas o dia da mentira, Primeiro de Abril, venceu. Instaurado o novo regime, com Jango deposto e já fora do país, era necessário mostrar às população os comunistas presos, todos organizados e armados até os dentes. Mas não havia nada disso. Nenhum sindicato estava armado e sequer nas mãos de comunistas, mas de pelegos do PTB. Menos ainda estava o governo querendo dar um golpe, aliás por isso mesmo foi pego de surpresa. Foi necessário então montar uma farsa. A TV e os jornais mostraram feixes de armas deslocadas de contexto, “apreendidas no covil dos comunistas”. A prova de que era tudo forjado está no simples fato de que em nenhum lugar do Brasil houve alguma resistência efetiva ao Exército em 1964. Nada que valha a pena chamar de resistência.

Todavia, após a instauração do regime militar, ainda assim, a política fervilhava, pois muitos líderes civis estavam junto do novo governo, e acreditavam que logo haveria eleições e eles, então sem a competição das forças mais a esquerda – o PTB – poderiam disputar o governo do país só entre eles mesmos, e isso lhes parecia um jogo mais justo. Quando viram que as coisas não eram bem assim, foram procurar os exilados e formaram a Frente Ampla, para combater o governo militar e pedir redemocratização. E junto disso, começaram a surgir alguns grupo de esquerda organizados no estilo de partidos armados. Esses dois movimentos trouxeram os militares para a cena de uma vez por todas; eles então se livraram de mais civis, os da Frente Ampla que até pouco tempo eram aliados, e concomitantemente passaram a combater de modo duro os focos de grupos de esquerda armados, que foram chamados de “terroristas”. Após o AI-5, o governo obteve manto legal para ações de incursão contra tais grupos. Só então a mentira do Primeiro de Abril de 1964 deixou de ser uma grande mentira para ser uma quase verdade. O governo, de fato, então, estava combatendo comunistas armados reais. Não eram muitos e nem teriam força para fazer coisa alguma, mas, enfim, era verdade a luta contra comunistas. Esses grupos não eram do tamanho que o governo queria fazer crer internamente ao Exército, mas era difícil explicar isso, pois externamente não podia propagandear para a nação muito do que ocorria, pois a censura comia viva por toda parte.

O resultado disso tudo é que, quando o Movimento de 1964 encerrou de vez seu ciclo, em 1985, todos que haviam sido de qualquer tipo de oposição a ele, puderam apresentar suas fichas corridas como sendo currículos valorosos para a vida política. Então, até gente favorável ao regime passou logo a dizer que havia sido também “terrorista” ou “perseguido”! O diploma de “subversivo” havia virado um documento de aval para ser visto como uma pessoa honrada. Os militares tiveram de engolir isso. E mereceram.

O nosso Regime Militar (1964-1985) não teve as características da violência dos de outros lugares, em especial o da Argentina. Mas foi tão criminoso quanto. Não é pelo número de mortos que um assassinato se transforma em assassinato. Houve então a construção de uma historiografia, já iniciada durante o próprio regime, de contestação de tudo que os militares fizeram. Essa historiografia nunca foi corrigida, ela apenas foi contestada mais recentemente por uma nova mentira, agora vinda de forças saudosas do regime de 1964, que resolveram reiterar a conversa de que havia combate aos comunistas desde o início. Mais recentemente, com o governo do PT metido em 14 anos de corrupção e tendo se tornado completamente desacreditado, então, a versão conservadora da história, acabou voltando com força. Mesmo não existindo mais comunistas em lugar nenhum do mundo, só na cabeça de meninas da UNE que (financiadas pelo governo atual, imaginam ter ressuscitado uma entidade verdadeiramente morta) existem comunistas. Esse tipo de gente que se diz progressista fala em coro com os reacionários, que reinventaram a tese de “1964” ter combatido comunistas logo no seu início.

A história é reescrita pelo presente cotidianamente. E a partir daí, nasce sempre uma nova historiografia. No caso nosso, temos oscilado entre uma mentira e outra, sobre 1964. Talvez porque tudo tenha ganho a marca do Primeiro de Abril. E talvez, principalmente, por conta de que tantos os militares do governo de 1964 e as forças de esquerda no Brasil nunca foram amantes da liberdade de pensamento e expressão. Ambas adoram a censura. Aliás, é visível isso hoje novamente: professores de esquerda querem prender quem fale a favor da “ditadura militar”! Ou seja, que ninguém emita opiniões, pensa essa esquerda carregada de diplomas, mas que tem a cabeça quase igual a do General Médici. Não à toa, hoje, Delfim Neto está junto delas, na aliança comandada pelo PT.

Agora, que estamos em outra fase, vamos nos preparar para ler daqui uns anos o que ocorrerá nesse domingo, dia da votação do Impeachment de Dilma, curiosamente uma das primeiras presas políticas do regime de 1964. Uns dirão que foi golpe, outros dirão que foi Impeachment “como o de Collor” e outros, ainda, poderão inventar novas versões. A história não tem como não ser, sempre, uma realidade com capacidade imensa de ficção.

O evento de domingo é um evento político. Haverá um julgamento de Dilma, sim, mas pelo contexto, e não exclusivamente pelas “pedaladas fiscais”. Todo processo de Impeachment é assim. E, se olharmos as falas oficiais de defesa e acusação, mais tarde, entenderemos que houve boas razões dos dois lados. Todavia, uma coisa é certa: ninguém poderá escrever que foi a oposição que destruiu o governo do PT. A oposição está desprestigiada, a população está contra o governo na sua maioria, mas, se houver eleições, não vota no PSDB. E o governo, se for terminado agora, terá sido derrubado por si mesmo, ou seja, pela sua base aliada formada pelo PMDB e PP. Brigaram porque todos roubaram muito a Petrobrás a ponto de quebrarem a empresa, e serem todos descobertos em meio a uma “guerra de todos contra todos”. Então, chegaram ao final da jornada porque a ambição os levou a comer a galinha dos ovos de ouro. Só os ovos não bastavam! Moro foi uma contingência histórica terrível na vida dessa gente, mas eles haviam já, antes, exagerado. Alguém os pegaria.

Que não venha nenhum historiador do futuro falar em comunistas e não-comunistas, nesse episódio, mas apenas na incompetência e desonestidade da última sigla a invocar representatividade classista,  a representatividade política “trabalhadores”, que individualmente ninguém mais quer para si. Não quer, aliás, porque não existe mais ninguém que se identifique por ser “trabalhador”, e não há no horizonte nenhum proletário querendo se unir com outro proletário. Aliás, ninguém quer ser unir a nada, só os gays querem algo assim hoje em dia – união, a do casamento.

As pessoas hoje querem se unir é com seus avatares, no Facebook, durante alguns dias, ou só horas.

Paulo Ghiraldelli, 58, filósofo.

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23 Responses “O Golpe de 1964 ou a Revolução de 1964? O golpe contra Dilma ou o Impeachment de Dilma?”

  1. 12/08/2016 at 03:25

    Your article was exleeclnt and erudite.

  2. Diego
    14/04/2016 at 18:14

    Parabéns pelo texto Paulo, sempre bom ler o seu blog.

  3. Juliana
    14/04/2016 at 11:51

    Naquele documentário “O dia que durou 21 anos” eles apresentam documentos secretos e gravações da Casa Branca, liberados mais recentemente, que mostram como os EUA influenciaram no Golpe de 64. Fico em dúvida se essa influência foi realmente insignificante.

    • 14/04/2016 at 12:39

      Juliana, deram um tombo no Carlos Lacerda, prometeram algum dinheiro, nem isso!

  4. Erik
    14/04/2016 at 10:09

    “A história não tem como não ser, sempre, uma realidade com capacidade imensa de ficção.” Era justamente o que eu pensava enquanto lia o texto: a questão historiográfica. Como é possível se inferir tanto a partir de alguns documentos e de relatos, tanto subjetivos quanto objetivos? E se algum documento ficou de fora? E se algum relato mudaria todo o sentido da história? Parece que apenas os combinamos para “criar” a verdade dentro de todo um contexto, para ter um norte a seguir, ou uma direção a mostrar. E isso pode ser perigoso. Podemos olhar para o passado e ver como Hitler lidou com um contexto, “criando” uma história que convenceu alemães ressentidos com a Primeira Guerra.

    Hoje, no Brasil, temos uma história parecida. Da mesma forma como fez Aécio nas eleições, aproveitando-se do ressentimento da direita, temos Dilma e Lula como novos contadores de história para a esquerda. E o que se vê é apenas uma esquerda ressentida pela injustiça de quererem tirar seus “ídolos” do poder, eleitos “democraticamente”. Assim, pode-se apoiar um governo que “criou” uma linha histórica de defesa dos trabalhadores, dos pobres e das minorias, mesmo quando as evidências mostram o quanto esse governo escondeu desse povo. Mesmo assim, alguns preferem não abrir os olhos, enquanto outros dão até mesmo o aval para a corrupção contanto que o governo continue seu “bom trabalho”.

    Para mim, fica a questão: qual a função de um texto historiográfico escrito por um filósofo? Mostrar que há outras possibilidades de interpretação da história? Ser como a coruja de Minerva, que levanta voo ao crepúsculo?

    Enfim, achei um ótimo texto, e espero que tenha entendido. Se não entendi, aguardo as correções. Obrigado!

    • 14/04/2016 at 12:41

      Erik, é um texto de blog, jornalístico. Serve mesmo para que se pondere sobre verdades já aceitas acriticamente, de modo simples.

    • LMC
      14/04/2016 at 15:21

      Não teve “ressentimento da direita” como
      fez o Aécio.Até porque-vejam quem são
      ou quem eram-os aliados dos governos
      do PT até esta semana,pelo menos.

  5. Orquideia
    13/04/2016 at 23:00

    Prof.Ghiraldelli,compartilhei esse texto no meu perfil do facebook.

    https://www.facebook.com/orquideia.goncalves/posts/1901304460096218

  6. Cristine
    13/04/2016 at 22:02

    Mais uma vez estou encantada com seu texto professor, gradativamente tenho expandido meus conhecimentos e em grande parte tenho que agradecer ao senhor. Obrigada pelos textos mais que maravilhosos, pela disposição em esclarecer diversas questões que nos rodeiam, obrigada por tudo, gostaria que mais estudantes seguissem sua genialidade, contudo, enquanto nos buscarem o conhecimento por si mesmos, por mais que eles assistam as aulas massacrantes eles continuaram com a cabeça fechada. Agradeço de verdade pelos seus textos, tenha uma ótima vida professor.

    • 13/04/2016 at 23:15

      A tentativa Cristine, é fazer pensar. Obrigado.

  7. Bruno
    13/04/2016 at 21:17

    Afirmar que o impeachment de Dilma é um golpe pode ser um absurdo parecido coam a afirmação de que o Golpe de 64 nos livrou da “ameaça comunista”.

    Basta se lembrar de que Eduardo Cunha, até meados de 2014, era um dos principais articuladores da “coalizão” PT-PMDB no Rio de Janeiro.

    O PT e o PMDB, juntos, roubaram até matarem a “galinha dos ovos de ouro”, e o PMDB, junto com o PP, vendo que a coisa não ia ficar por isso mesmo, tiraram o deles da reta e agora estão posando de “santinhos combatentes da corrupção”, deixando o PT com o grosso da culpa.

    Até porque PMDB, PTB, PP e quetais “roubam, mas não quebram”.

    Ou seja, não é golpe. Não pode ser. Esse é o meu ponto, pelo menos.

  8. Armando
    13/04/2016 at 17:12

    A presidenta Dilma representa um governo popular, um governo que afrontou interesses do grande capital e de setores burgueses. Agora está num impasse diante das forças atrasadas que querem governar o país sem a vitória nas urnas.

    • 13/04/2016 at 20:15

      Armando, e aí sua mãe trouxe o todinho da manhã e você acordou? Não né?

  9. 13/04/2016 at 15:19

    O Brasil é uma tamanha fonte de riquezas que não interessa aos donos do mundo (no nosso caso os EUA) que o Brasil vire um país soberano e rico. O Brasil não pode ser nem um Japão tamanho gigante (caso siga o caminho capitalista) nem uma Cuba tamanho gigante (caso enverede pelo socialismo). Isso foi dito por uma autoridade americana não lembro qual. Então o golpe “americano-civil-militar” de 1964 foi de fato contra o projeto petebista. O trabalhismo desde Vargas tinha um projeto de tornar o Brasil um país economicamente independente. Vargas trocou a participação do Brasil na II Guerra Mundial por uma usina siderúrgica. Jango queria controlar a remessa de lucros das multinacionais. Pouco antes de Jango cair o Congresso fez CPI da indústria farmacêutica e colocou como objetivos a criação de espécie de Petrobras dos fármacos. Os laboratórios estrangeiros foram reclamar com quem? Lincoln Gordon. Poucos meses depois Jango foi derrubado. O caso dos comunistas, e até da corrupção (64 foi contra a corrupção e a subversão) teve a função de chantily do bolo.

    • 13/04/2016 at 16:24

      Fernando, seu antiamericanismo dos anos 50 e 60 tá demodé e atávico. Não dá.

  10. Rústico
    13/04/2016 at 13:31

    Ótimo texto, professor!

    Sucessão de factos, acompanhe:

    Temer assume. TSE não julga o processo que deve julgar, pois Gilmar é parceiro de Temer e Aécim. O brasil afunda na crise e corrupção até a próxima eleição presidencial. O povo coloca no poder outro comunista – Marina Silva. Os banqueiros continuam sugando até a última gota. A corrupção das estatais continuam financiando a festa. E o povo tomando na nuca, sem dó nem piedade! Enquanto isso, nossos “briosos” generais nos envergonham, sentados em seus carguinhos esperando a aposentadoria, dando aval para parasitas usarem a FAB como agência de turismo.

    • 13/04/2016 at 14:35

      Rústico, só pelo fato de falar de “Marina comunista” você já está desqualificado para leitor desse blog.

  11. LMC
    13/04/2016 at 11:23

    Este texto magistral deu de mil
    a zero na do Marcelo Coelho na
    edição de hoje da Folha.Ele
    é mais um petista 2.0.

  12. rust
    13/04/2016 at 11:15

    Quando vc escreve que nao existe proletario querendo se unir com outro, vc escreve isso com algum pesar? ou o contrario? ou nao faz juizo de valor?

    • 13/04/2016 at 11:25

      Rust, nem cabe juízo de valor, afinal isso é uma verdade já do século XX.

  13. NOBEL
    13/04/2016 at 10:56

    Hoje ninguém mais chama a destituição do Jango de golpe militar e sim golpe civil-militar, pois a sociedade civil teve papel fundamental nesse processo. Documentos recentes divulgados mostra que os Estados Unidos olhava sim com muita atenção a situação do Brasil, porém, o próprio embaixador da época rechaçava a possibilidade de um possível golpe comunista. Concordo que Dilma vai cair por uma questão política, e os apoiadores de Dilma se utiliza de um argumento também político para deslegitimar o processo de impeachment.

    • 13/04/2016 at 11:26

      Nobel, a historiografia não é como você pensa, do tipo “ninguém mais chama”. Ah, se fosse assim, não falaríamos de historiografia.

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