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19/11/2017

Reinaldo de Azevedo quase acerta contra Boulos, Safatle e Duduvier


Reinaldo de Azevedo é um jornalista de direita, mas, diferente do Pondé, sabe que Olavo de Carvalho é um maluco desescolarizado. Ele publicou na Folha de São Paulo um artigo contra Duduvier, Safatle e Boulos. Os dois últimos eu recebi no programa Hora da Coruja. Conheço bem ambos. Do primeiro eu li um ou dois textos e, certamente, não lerei mais. Também não sou leitor assíduo do Reinaldo de Azevedo. Ele é bom jornalista, mas sua obsessão contra a esquerda, até mesmo contra a social democracia, prejudica demais a sua escrita, sua profissão. Ou seja, quase sempre já sabemos de antemão o que ele vai falar. Gente assim tem leitor que quer antes realimentar ideologias que ser informado. Todavia, nesse artigo contra os três esquerdistas aí citados, ele disse algo interessante, que vale um comentário crítico.

Ele pega uma avaliação de Pasolini sobre o Maio de 1968, em que este mete o pau nos estudantes que, naquele tempo, entraram em confronto com a polícia. Põe na mesa a condenação de Pasolini aos estudantes, e assim faz para atingir Duduvier, Safatle e Boulos, chamando-os então de “burguesotes mimados que odeiam na Polícia não o seu suposto papel, digamos, contrarrevolucionário”. Termina dizendo que o ódio desse tipo de gente contra a polícia é “ódio de classe”. E propositalmente irônico conclui que isso é “luta de classes”. Faz com o trio brasileiro de esquerda o que Pasolini fez com os estudantes de Maio de 68 na Itália. O ódio de classe seria o ódio de “burguesotes” contra “filhos de pobres”, que são os policiais.

Azevedo usa “luta de classes” ironicamente, eu sei. Todavia, ele próprio parece acreditar nessa conversa da esquerda de ver em tudo o tal “ódio de classe”. Ele acusa esses meninos da esquerda de terem ódio de classe, mas isso é justamente uma coisa que, do modo que nossa esquerda também usa, é inflado demais, e por isso não explica nada. Azevedo parece acabar acreditando demais nisso que, enfim, seria melhor empregado se ficasse só mesmo como ironia. Ódio racista a gente vê, mas o tal “ódio de classe”, em geral, nós imputamos. Há algo de teórico demais, no uso que as esquerdas fazem, nessa conversa de “ódio de classe”.

Pasolini e muitos outros da esquerda condenaram o Maio de 68. Theodor Adorno condenou, e não pertencia a nenhum Partido Comunista. Pasolini condenou, e era sim simpatizante do Partido Comunista Italiano. Ora, os partidos comunistas estavam atrelados todos, direta ou indiretamente, a Moscou. A URSS não queria nenhuma “primavera”. Também ela enfrentava o mesmo tipo de revolta estudantil naquela época, que ficou conhecido como A Primavera de Praga. A URSS estava muito bem acomodada na sua geopolítica com o Ocidente. Maio de 68 não foi um quebra-quebra feito por gente como Safatle, Boulos e Duduvier. Maio de 68 mobilizou forças de todos os tipos, em todos os lugares do mundo, num desejo de reformas profundas na cultura, no próprio ethos de cada local. Foi um grito que dizia “o mundo do Pós Guerra não é a perfeição que nossos pais querem acreditar!”. Os confrontos com as polícias, então, não foram por ódio de classe ou coisa parecida. Pasolini falou isso simplesmente porque, como bom comunista, repetiu a cantilena do Partido. Azevedo deve saber de tudo isso. Mas a sua necessidade de dar textos esquerdistas para que seu leitor, claramente de direita, use contra a esquerda, vence o seu jornalismo. Seu desejo de manter cativo seu leitor ganha de seu jornalismo.

O confronto entre população e policiais é inerente às revoltas, claro. Caso a polícia ou as forças militares (e o empresariado) estivessem contra o “Fora Dilma”, as manifestações pró-Impeachment teriam abrigado confronto. Ninguém é ingênuo de pensar o contrário. O problema de Duduvier, Boulos e Safatle nada tem a ver com simples “ódio de classe”, esse invento de certa esquerda e que Azevedo acabou engolindo. Tem a ver, sim, com uma defasagem entre o que se imagina estar vivendo e a vida atual. Boulos, Duduvier e Safafle leram livrinhos de revoluções, se acham comandantes de barricadas, escrevem nesse tom, pensam serem líderes políticos e “formadores de opinião”. São dogmáticos religiosos. Sonham com histórias vindas de livros de movimentos revolucionários ocorridos no século XIX e realimentados por notícias de jornal sobre “primaveras” mais recentes. Há nisso não um romantismo de esquerda, como em Maio de 68, mas um pastiche de algo que já é um pastiche, uma caricatura de movimento revolucionário. Fazem de seus alunos e seguidores pessoas que precisam da Verdade, de modo muito semelhante ao que o militante político Pondé faz também. Essa gente vive da política-de-direita-e-esquerda. Não pensam noutra coisa. Com isso, enodoam o humor, a filosofia e as reivindicações justas.

O pior buraco de um intelectual é a política moderna de direita e esquerda. Ela transforma homens em pessoas que perdem o gosto em admirar seios. Ficam incapazes de amar de paixão um cachorro. Ela transforma as mulheres naquilo que o Lula falou, “mulheres de grelo duro”. Chega a fazer de certas mulheres seres que não ligam para sapatos. Estraga a natureza do homem e da mulher.

A politização dos intelectuais é talvez a maior perdição do Ocidente.

Paulo Ghiraldelli, 59, filósofo. São Paulo, 09/09/2016

 

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16 Responses “Reinaldo de Azevedo quase acerta contra Boulos, Safatle e Duduvier”

  1. 27/07/2017 at 14:57

    e no organicismo social de Spencer que, por sua ves, desembocaram no totalitarismo nazi-fascista das décadas de 20 e 30 do século passado, com todo seu rastro de sofrimento e morte. E contradição das contradiçoes: a mesma nação que tanto combateu os totalitarismos na SSegunda Guerra Mundial, foi a mesma nação que, poucas décadas antes recebeu e desenvolveu entuseneentusiasticamente uma doutrinprofundamente desumana e reacionária: a EuggEugenia, derivada do darwinismo social e, por tabela, do positivismo e do evoluevolucionismo social, citados acima. Tudo ddevidamente justificado pelo racismo “científico”., mmumuito em voga na Europa dos finais do século XIX e inícios do XX, depois transladados para os EUA, antes de serem levados de volta para a Europa, mais precisamente, para a Alemanha nazista., com mais virulência e potencial assassino. O que o mstmestre Ghiraldelli acha de tudtudo isso? E sem flafalar, ainda, que essa mesma Eugenia veio parar aqui nas terras tupiniquins, com REnato Khell, Belisário,Pena, Monteiro Lobato e Nina Rodrigues, entre outros.

    • 27/07/2017 at 15:40

      Não vejo o que se faz hoje em clínicas que lidam com engenharia genética e coisas do tipo nenhum problema. Minha opinião é a de Mary Rorty, no texto que ele fez comentando o livro de Sloterdijk, Regras para o parque humano. Existe traduzido na Revista Redescrições, na Internet.

  2. Bruno Farias
    08/04/2017 at 05:17

    Olá! Simplesmente não dá para ler seus artigos. Fica com Deus…

    • 08/04/2017 at 09:05

      Bruno claro que não dá, meu leitor é acadêmico, inteligente, não é para você o blog.

  3. Celso
    10/09/2016 at 21:07

    Pessoalmente, acho que esses sujeitos de opnião extremada tem certa falta de consistência ideológica. Reinaldo de Azevedo, quando jovem, era da militância trotskista. Passou de um extremo para o outro, conservando só o fanatismo e a falta de escrúpulos na defesa da sua bandeira. Lobão e Roger são outras figuras do mesmo quadro, só que mais ignorantes e energúmenos.

    Pode ser só impressão, mas as falas e ações que pude observar de outras pessoas durante a vida só corroboram essa ideia. Geralmente, quanto mais exaltado o sujeito, mais ignorante e desonesto.

    • 11/09/2016 at 08:32

      Celso, tudo bem, mas meu problema é menos com a ideologia e mais com o erro na escrita, com os clichés, com o modo de fazer a redação que ela faz, que acaba deturpando as coisas. Recorrer ao esquema de usar um cara de esquerda para falar contra outros é velho, ruim, e leva a deturpações.

    • LMC
      12/09/2016 at 09:57

      Celsinho,se o Lobão,o Roger e o
      Reinaldo puxassem o saco do Lula,
      você chamaria de gênios da raça,
      com certeza.kkkkk

  4. 10/09/2016 at 14:24

    Não sabia que o Reinaldo Azevedo era tão perverso. Gosto disso!

  5. Marcos H. Vieira
    09/09/2016 at 12:10

    A política que antes era feita por uma razão crítica, foi-se instrumentalizando com o passar do tempo. Hoje em dia não se vai mais à televisão para a reflexão, mas para cada qual vomitar a ideologia já esperada pelo seu público. Criou-se uma liturgia. A razão não é aquela de quem pensa nos prejuízos que o plástico pode causar à natureza, mas aquela de quem só examina quando tem de empacotar ovos ou produtos mais resistentes. Cada um escolhe o grupo a que quer pertencer e os respectivos discursos, não comprados cuidadosamente por unidade, mas por atacado, pelo conforto da economia do trabalho da análise, os quais passam a reproduzir irrefletidamente. E é nesse binarismo político alérgico à reflexão e à autenticidade que não se comportam textos como o seu, que contrariam o senso comum.
    Não sou filósofo, sociólogo, historiador ou intelectual de qualquer área do conhecimento. Porém, pela observação desse movimento de discursos ao longo dos anos, que acabou por se estagnar em algum momento, e também pela minha vivência na divisão aparentemente reguada do pensamento político na universidade, tenho essas impressões.

    • 09/09/2016 at 12:13

      Marcos é preciso ter muita fé em manuais para acreditar que a política era feita de modo não instrumental e sem a mídia,adaptada ao tempo. A política é espetáculo do poder. Por isso Maquiavel não foi escrito agora, mas na abertura dos tempos modernos.

    • Marcos H. Vieira
      09/09/2016 at 12:29

      Pois é verdade! Excelente referência.
      Eui presenciei há um ano um jovem militante, de grande potencial de influência aqui no Rio de Janeiro, falando descaradamente em dar formas às suas convicções políticas (a saber, o comunismo) por meio de “massa de manobra”. Não sabe a tristeza que sinto ao ouvir coisas assim.

    • 09/09/2016 at 13:23

      Militante de direita e esquerda raramente consegue ser inteligente.

  6. LMC
    09/09/2016 at 11:06

    Lula é tosco mesmo,pra falar em
    mulheres de grelo duro(parece aquelas
    frases que o Brizola usava pra aparecer
    na mídia).A Telma,a Marta,a Maria
    Luiza de Fortaleza e a Erundina que
    o digam.kkkkk

  7. Henrique
    09/09/2016 at 11:05

    Theodor Adorno condenou o maio de 68 porque os alunos invadiram a sua aula e o provocaram de alguma forma.

    O Lula usou a expressão mulheres do grelo duro num sentido positivo, seria mulheres que não são alienadas, mas mulheres com opinião e atitude para transformação do mundo para melhor. Por mais mulheres do grelo duro. Elas não necessariamente são feias.

    • 09/09/2016 at 11:22

      Henrique sobre a primeira parte, de Adorno, você está TOTALMENTE ERRADO. Sobre a segunda, você não entendeu.

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