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20/11/2017

A ração de Dória. A nutrição para além do nutricionismo


O prefeito João Dória quer dar ração para os pobres de São Paulo. A coisa vem “em formato granulado, doado pela empresa Plataforma Sinergia, que o fabrica a partir de alimentos que estão perto da data de vencimento e fora do padrão de venda em supermercados” (reportagem do G1). É claro que uma notícia desse tipo colocou os nutricionistas em alerta.

Vários nutricionistas acham que essa conversa sobre “perto da data de vencimento” nada garante em termos de qualidade. Muito ao contrário, trata-se de uma frase capciosa que, por si só, tenta se livrar do crime pelo seu anúncio antecipado. Outros lembram que esse tipo de ração, sem gosto ou cheiro, é um desvirtuamento do próprio ato de comer. As pessoas comem socialmente, em reunião, para degustar sabor e, por conta desse prazer, trazer outros para um convívio.

Concordo com ambas as objeções vindas dos nutricionistas e, cá entre nós, por tudo que já vivi não deveria me espantar com essa atitude vinda de um prefeito que acredita na “gestão” de São Paulo e não na administração política de São Paulo. Gestão é um verbo empresarial que visa lidar com peças, engrenagens, fluxo de caixa, disposição espacial e temporal de mão de obra etc. Política é um trabalho de fazer a polis ser uma polis. Isso inclui entender a polis como reunião de demos, ou seja, de pessoas. Todavia, há algo mais a se notar nessa atitude de Dória.

Se Dória viesse de outra orientação política, mais à esquerda, faria ele algo totalmente diferente? Talvez, mas o fato é que sua atitude é guiada por algo maior, que engole tanto a direita quanto a esquerda. Devemos lembrar que ao lidar com os pobres, toda e qualquer política sempre os pensa como “os muitos” e que, portanto, precisam ser tratados por soluções “de massa”, o que sempre quer dizer: que se perca em qualidade de atendimento e se ganhe em quantidade. Política social, mesmo da esquerda, faz casas populares não dignas se serem chamadas de habitação, o mesmo valendo para a educação e a saúde fornecidas pelo estado – e isso, no Brasil, ganha aspectos tétricos. Mas, o que quero dizer, é que talvez só o filósofo italiano Giorgio Agamben tenha atentado para certas transformações modernas que nos permitem ter, entre nós, gente como o Dória, que acredita que está fazendo algo estupendamente bom ao dar ração para os pobres.

Agamben desenvolveu Foucault. O filósofo francês havia dito que a modernidade se caracteriza como a época da “biopolítica”, a entrada da vida biológica na política; o italiano, por sua vez, destacou na modernidade a transformação do conceito de vida, que deixou de ser bios para ser zoé. A vida como zoé  é a “vida nua”, ou seja, a vida que se faz presente ao respirar, o estar vivo como o ato de quem está sobrevivendo. A vida bios diz respeito à vida como a vida humana par excellence, aquela que só faz sentido quando pensada sob imersão de uma atmosfera ética. Se a vida que adentra a política, na modernidade, como um elemento a ser considerado e pesado em todas as balanças administrativas da pólis, é a vida como zoé, o que temos é a verificação da batida do coração como critério de “estar vivo”, e tudo que conhecemos pelo conceito de dignidade daí se afasta. Reduzir a vida à vida como zoé foi um ganho, se pensarmos que a vida passou a ser considerada pela política como necessária de ser preservada, mas se lembrarmos que, para tal, essa vida deixou de ser vida social e ética para ser mera “vida nua”, mera sobrevivência, então a modernidade se fez valer, também, como uma espécie de época em que o “campo de concentração” é sua melhor foto.

A vida no interior da política, marca de nossos tempos, cuida para que as pessoas possam não morrer. Ração nelas! Mas a vida no interior da política, nesses termos, cuida também para que as pessoas não precisem viver – ou seja, não precisem cobrar dignidade na vida. Ração nelas! A ração salva, mas com um preço, a degradação. Dória pensa assim. E não só ele. Todos nós já fizemos essa passagem da vida bios para a vida zoé. Se não para nós, ao menos para os outros, pensamos segundo essa modificação do conceito de vida. A mentalidade nossa é sempre essa: para o pobre que nunca teve nada, o melhor é a ração, para mante-lo vivo, ainda que seu ato de comer seja mais uma peça da indignidade. Para o pobre que não ia mesmo ter tal coisa, o melhor é a tal coisa, mas apodrecida. Nossa política de saúde e nossa política educacional são inteiramente pensadas sob  a regra da entrada da “vida nua” como conceito de vida, substituindo a noção de vida como vida digna.

Talvez, assim pensando, não sejamos melhores que Dória. Ele apenas, por grosseria de sua condição de semi-escolarizado, revela mais que nós estar sob a regra do conceito de vida que é o de “vida nua”. Nós fingimos melhor que ele.

Paulo Ghiraldelli Jr., 60, filósofo. São Paulo, 16/10/2017

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7 Responses “A ração de Dória. A nutrição para além do nutricionismo”

  1. Thiago
    17/10/2017 at 02:34

    Entendo, compreendo e concordo com essa vista sobre a alteração crescente quase majoritária da bios para zoé, assim como o pobre não ter opção e o Doria ser um bundão. Comida não falta e existem sabotagens de mercado e de governo. De mercado, por motivos óbvios de precificação pela oferta e demanda, e pelo governo também, porque cansei de ver comida ainda boa ser jogada nos lixos do Ceasa e de Supermercados porque existem leis que proíbem essa venda ou doação por questão de saúde pública, quem contrariar será multado. Têm lixeiras, daquelas grandes tipo guarda entulho na rua, fechadas com cadeado porque se a fiscalização bater e vir alguém catando comida, o estabelecimento será multado.

    Ração vem de Razão, que remete claramente ao zoé. O desperdício de comida no mundo inteiro é um absurdo. Repito, não falta comida no mundo. A logística e as regras são problemas.

    É indigno alguém comer essa ração, mas também já vi gente passar fome e não conseguir dormir por isso, assim como não achei dignidade alguma numa sopa de cactus e calango.

    Eu, sinceramente, tendencio a dar o braço a torcer pra tal da ração. E não sei se isso seria de minha parte uma manutenção das regras pelo acomodamento, ou restrições de conhecimento de saúde pública, ou ineficiência de logística, ou apenas alguém que não passa por esse problema e tem tempo e estômago saciado para raciocinar sobre isso.

    • 17/10/2017 at 10:39

      Thiago. Já que há os que passam fome, que comam merda. A própria, se conseguirem produzir. E com a foto da Nossa Senhora Aparecida – sabia?

  2. Eduardo Rocha
    16/10/2017 at 20:17

    Paulo, é possível ver a “vivência” de Freire no âmbito da Biopolítica? O feto no “simplesmente estar vivo” e aí tendo uma vivência como também a vida do indivíduo na política?
    E também no aspecto filogenético (espécie) e ontogenético (indivíduo) de Sloterdijk? Vivência histórica e vivência psíquica. A constituição de esferas, os hominídeos e o nascimento não seria “vivência” sobre um aspecto de uma situação que se vive e que não se repete. Algo singular e único? Ou a “vivência” diz respeito mais ao homem com ma cidade, um comunitarismo para a educação?

  3. 16/10/2017 at 17:28

    Um fato que ocorre freqüentemente com grande parte da pessoas, ( nem todas) que adotam um cachorro, gato ou algum animal de estimação é, que quando o animal ainda é pequeno, fofinho, inofensivo o alimento, os mimos são os melhores possíveis. Passado algum tempo em que esses vão crescendo, já não é mais tão interessante assim Para aquele que o adotou, o alimento já não é mais o melhor passando ser o mais barato a atenção ao bichinho vai diminuindo tornando quase que um estorvo para o dono.

    Assim também pensa ser o ser humano, para dória. Pois ele já conquistou, cativou muitos e conseguiu o que queria, o poder. Agora, trata as pessoas como bem entende nesse caso, pisando e humilhando, comida sem sabor? Tá de brincadeira.

    Sem dúvida terá aqueles que vão dizer: nossa, que atitude nobre e inteligente essa do dória que até alimento de graça oferece aos mais pobres, evitando o desperdício de alimentos antes do prazo de validade. Como faz também o governo no geral distribuindo casas, bolsa família e outros benefícios para enganar ingênuos. Com certeza é mais ” fácil” engolir essa ração, do que um ser como dória, e, a corja que o ajuda a pensar se é que seja necessário, pensar uma ação nojenta dessas.

  4. LMC
    16/10/2017 at 16:47

    Se o PG soubesse que tem gente
    que acha João Doria “socialista”….
    São aquelas bolsonaretes velhas
    de guerra.kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk

  5. Bruno
    16/10/2017 at 14:42

    Comida, dos Titãs.

  6. 16/10/2017 at 14:32

    professor, o mesmo também pode ser dito do programa minha casa minha vida?

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