Go to ...

on YouTubeRSS Feed

23/06/2018

Que tiro foi esse?


[Artigo indicado para o público em geral]

Marielle era defensora dos Direitos Humanos. E Direitos Humanos, para ela, incluía formar grupos de apoio para policiais. Marielle morreu em assassinato premeditado e planejado exatamente porque estava fazendo política para além dos esteriótipos. Estava criando um ponto comum entre setores sociais diferentes a respeito dos problemas do preconceito contra minorias. Falava de negros, pobres, mulheres e membros da comunidade LGBT, e fazia isso se dirigindo a todos, não só em preleções para as próprias minorias. Pois minorias sem direitos não é um problema de minorias somente, mas é uma desgraça da sociedade toda. Uma sociedade liberal-democrática é, antes de tudo, uma sociedade que toma decisões a partir de maiorias, desde que essas decisões não sufoquem a existência e os direitos básicos (humanos) de minorias. E isto é da nossa Constituição.

Lula recebeu tiro em seus ônibus em caravana pelo Sul do país. Os petistas querem misturar esse fato com a morte de Marielle. Mas as coisas não tem similaridade. São completamente distintas.

Lula é um condenado da Justiça brasileira. Ele se acha acima da Lei. E algumas pessoas que devem fazer cumprir a Lei, no Brasil, também acham que Lula está acima da Lei. Então o ex-presidente, ao invés de estar numa cela, inclusive para a própria proteção, está o aí zanzando pelo país. Se ele fosse um líder político como Marielle, livre, sem máculas, tudo bem. Mas não é o caso. Sua andança ofende – inclusive porque não tem programa nenhum, sua campanha se resume, agora, em dizer “não tenho Tiplessi”. E aí, essa ofensa logo incendeia a mente de um justiceiro tresloucado que pode mesmo ter dado uns tiros em um ônibus da caravana do PT. O resultado poderia ter sido uma desgraça. Poderia ceifar a vida do motorista do ônibus ou de um jornalista ou de um guarda etc. Uma vida humana inocente se perderia. Poderia acertar o próprio Lula, criando para a política uma poça de sangue jamais possível de ser limpa.

A culpa pela morte que felizmente não houve seria de quem? Primeiro, de quem tivesse puxado o gatilho. Segundo, do STF que, enfim, está permitindo que um condenado pela Justiça fique solto e se mantenha provocativo. Terceiro, do próprio Lula, que teima em se achar melhor que todo mundo, e quer participar da política como se ele fosse de fato um homem livre. Não é. Lula é um condenado. Se tivesse bom senso, ele mesmo arrumaria as malas e apareceria lá na cadeia para dizer ao Palloci e outros: “companheiros, criei juízo, vamos jogar um carteado aqui”.

Mas não vamos criticar a Justiça, assim, genericamente. Em parte, a Justiça brasileira conseguiu pegar Lula, e corre agora para pegar o vice que ele colocou para a Dilma, e que está aí na berlinda desde o dia em que vimos o seu amigo saindo da pizzaria correndo, com mala de dinheiro.

Esse pessoal aí, que faz o “Mecanismo” funcionar, não quer sair do poder. Aliás, todos sofrem do mesmo problema do Lula: não percebem que devem sair, que não estão agradando, e que ofendem todos, pois provocam a sociedade brasileira única e exclusivamente com suas presenças. Em festa que exige ao menos blazer, eles querem entrar sem serem sócios do clube e ainda por cima com camiseta regatas. Não dá.  Eles perderam a carteirinha de cidadania. Precisam aceitar o recolhimento. Uns deveriam renunciar ir para casa, outros deveriam saber que foram chamados para a prisão, e teriam de lá comparecer, raspar a cabeça e se pacientarem.

Paulo Ghiraldelli Jr., 60, filósofo. Autor entre outros de Dez Lições sobre Sloterdijk (Vozes, 2018)

Tags: , , , ,

One Response “Que tiro foi esse?”

  1. Valdinei
    01/04/2018 at 15:19

    No país da impunidade, ele deve sentir-se injustiçado pela condenação. Lula não se considera um cidadão comum, como não considerava Sarney também. Está acima da lei. Como uma alma penada, a alma mais honesta do Brasil continuará a vagar pelo país, sem descanso. Nem preso dará descanso a nação com suas declarações de vítima do sistema. Como ele mesmo disse: o brasileiro não desiste nunca. Só esqueceu de trocar “brasileiro” por “Lula”.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *