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27/03/2017

Qual a verdadeira visão política de Janaína Paschoal? Entrevista inédita


Pedi para a minha amiga, professora Janaína Paschoal, para perder algum tempo com uma pequena entrevista. Creio que só assim vamos parar de rótulos aqui e ali e entendermos melhor o que ocorre no Brasil atual. O que pensa a mulher que deu o tiro certeiro no mandato de Dilma?

1) Paulo Ghiraldelli: Como você vê o sistema de cotas étnicas no Brasil?
– Janaína Paschoal: Creio que o sistema de cotas foi mal organizado, como tudo feito pelo PT; entretanto, sou favorável a cotas para negros, não para compensar o passado; mas para mudar o futuro. Cada negro na universidade eh uma família inteira de negros que abre novas perspectivas. Em menos tempo, será mais comum ver negros em cargos de destaque, isso vai abrandar os preconceitos.
2) Sobre a maioridade aos 18 anos, você revisaria? Pensa numa política diferente para o menor infrator?
– Sou contra a diminuição da idade penal; se houver a redução, criaremos mão de obra mais barata para o crime organizado. Faz-se necessário olhar para os jovens dependentes de drogas e para os que tem problemas mentais e não recebem tratamento adequado, nas instituições destinadas aos infratores. Eu conceberia elevar o prazo de internação para os crimes mais graves.
3) Você gosta da Lei Maria da Penha? Ela funciona. Você pensaria em outros instrumentos jurídicos paralelos ou não? Você criminalizaria de modo especial a homofobia ou não?
– A lei Maria da Penha foi uma conquista, mas só saiu do papel a parte penal; a parte de assistência, sobretudo o abrigamento, ainda eh precária e deficiente. Não sou favorável a criminalização da homofobia, penso que, no que tange aos preconceitos, o Direito Penal tem um papel secundário. Não gosto da criação de grupos dentro do Direito Penal. Eh uma tendência mundial, reconheço, mas essa particularização não terá fim. O que vira depois? Os crimes contra os ciclistas?
4) “Feminismo” virou uma palavra controversa, você a adota para si? Você se vê como feminista? Ou isso, para uma mulher, já não importa mais?
– Se feminismo significar odiar os homens e tudo que seja feminino, eu não sou feminista. Se feminismo significar o empoderamento das mulheres, a ocupação de espaços, eu sou feminista
5) Na sua noção de democracia, você deixaria todos os partidos livres, sem restrições, ou preferiria algumas restrições? Há quem não quer partidos assim ou assado, ou mesmo partidos ditos nanicos. O que acha?
–  Esse tema é bem difícil, tenho refletido sobre ele. Tendo a defender a plena liberdade. Mas ainda não tenho uma resposta fechada.
6) Sobre a assalariamento das câmaras municipais e assembleias legislativas, o que você acha? Deveria haver um teto salarial, e menor?
– Não acho que a remuneração seja o ponto central. O ponto central eh perceber que o político deve servir e não se servir do poder.
7) Podemos conseguir dinheiro via impostos, via mecenato particular e de instituições (inclusive trabalho voluntário), ou simplesmente podemos achar que o mercado resolve o que o tem que resolver e o estado pode ser bem menor que o que temos. Nesse quadro, qual via você preferiria seguir, ao menos em tese?
– Sou simpática ao estado mínimo, na economia e na repressão. Com isso, desagrado direitistas e esquerdistas.
8) A liberdade de imprensa que temos e o sistema pelo qual rádio e TV podem ser entregues ao privado satisfaz você?
–  Qual seria a alternativa? O estado controlar? Se o privado é ruim, o controle estatal tende a ser pior.
9) Sabemos que o estado laico nada tem a ver com estado ateu. Mas você veria algum problema de aula de religião nas escolas públicas?
– Eu me considero uma amiga das religiões; se fosse uma orientação ecumênica, penso que não haveria grandes problemas; entretanto, dadas as dificuldades práticas para implementar, talvez seja melhor não ter. Minha disciplina Direito Penal e Religião, na USP, não ensina Religião, mas sim Direito Penal, diante das religiões.
10) Você vê a nossa polícia como violenta?
– Não gosto de generalizar. Os crimes devem ser punidos, não importa quem os pratique. Quando um policial executa alguém, ou tortura, passa a ser um criminoso e deve ser investigado, processado e punido. Só não acho justo estigmatizar carreiras ou instituições.
11) Acredita que o poder econômico no Brasil tem uma influência eleitoral para além do que é o razoável? Tem alguma ideia sobre possibilidades de restrição disso? A ideia atual das próximas eleições, da proibição de dinheiro de empresas ajuda ou não muda nada?
– O sistema eleitoral brasileiro está mais pautado em interesses do que na discussão de ideias. Vamos analisar esse novo modelo. Quem sabe …
12) Nos Estados Unidos, você votaria em Trump ou Hilary? Ou você gostaria de ter tido Sanders no Partido Democrata?
–  Não sei, só vivendo lá
13) Na política atual brasileira, você está contente com o quadro atual? Veja, essa pergunta é significativa no seu caso, uma vez que você, mais que muita gente, é bem responsável pelo que estamos vivendo.
– Acho que mostramos maturidade em todo este processo. Mas faltam líderes, pessoas dispostas a falar a verdade e perder votos; pessoas dispostas a fazer o que eh necessário. Os políticos ficam muito presos as pesquisas de aprovação e rejeição, isso eh uma pobreza.
14) A Lava Jato continua? Ou você acredita que as coisas, daqui para a frente, tendem a serem mais duras para os investigadores?
– A Lava Jato continua.
15) Você volta definitivamente para a sala de aula? (bem, você nunca saiu dela!). Ou tomou gosto pelos holofotes da política?
–  Se sair da sala de aula, morro. Tenho os pés no chão. Só entrei nessa história porque ninguém estava disposto a enfrentar as dificuldades em prol do país.
16) Você tem tempo integral na USP? Está orientando na pós? Ou você divide o tempo com outras atividades na advocacia? Como você vê as condições de trabalho do professor no Brasil, tanto na universidade quanto na escola de ensino básico?
– Eu não tenho dedicação integral. Acredito que o professor precisa da prática para não tirar o pé da realidade; oriento mestrandos e doutorandos, além das teses de laurea. O conhecimento é pouco valorizado no Brasil. A originalidade também. A vaidade faz com que as pessoas não queiram que seus alunos cresçam, floresçam. Vivemos, ainda, um tempo de vassalagem.
17) O que acha de candidatura avulsa, sem partido, como nos Estados Unidos?
– Entendo que candidaturas avulsas deveriam ser autorizadas; os partidos funcionam muito em torno de caciques, quase donos. Mas não eh um tema pelo qual lutaria.
Entrevista de 04/09/2016

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16 Responses “Qual a verdadeira visão política de Janaína Paschoal? Entrevista inédita”

  1. João Paulo
    06/09/2016 at 12:47

    Paulo Ghiraldelli,

    É curioso ver as declarações da Janaína (a opinião dela a repeito das cotas étnicas, redução da maioridade penal) e verificar que ela foi chamado de fascista pelo Safatle. Fico pensando se ele, que é professor de filosofia, saberia defender o porquê de ele considerar ela assim. Acho que ele perdeu uma boa oportunidade, não é mesmo?

    • 06/09/2016 at 13:29

      João Paulo o Safatle é como o Pondé ou o Karnal. Midiagogo, não professor. Um professor é um intérprete da ação humana, do comportamento humano. E sabendo da riqueza da vida humana, busca essa riqueza. Eles, como são humanos pobres, querem que as pessoas sejam pobres como eles. O Safatle por exemplo tem uma ideia única (cobrar imposto do rico), como então ela poderia entender que as pessoas possuem ideias de todo tipo?

  2. MARIA BEATRIZ LOUREIRO DE OLIVEIRA
    05/09/2016 at 15:41

    Querido Paulo.Que Saudades. Sempre combativo.Parabéns à Janaina.

  3. Eduardo
    04/09/2016 at 15:21

    Paulo, a entrevista ficou ótima. Gostaria de levantar uma questão: vi algumas pessoas compartilharem esses dias uma nota da Folha em que Janaína elogia Olavo de Carvalho. Ela elogia um texto que Olavo escreveu para a Folha justificando as mortes de pessoas que lutavam contra a ditadura. O texto e a nota dela são de 2014. O link é esse: http://www1.folha.uol.com.br/paineldoleitor/2014/06/1472194-leitores-divergem-sobre-artigo-de-olavo-de-carvalho.shtml

    Fiquei triste quando vi isso. Como você tem uma amizade com ela, vim te perguntar se já tinham conversado sobre isso.

    • 04/09/2016 at 18:31

      Eduardo! Quando voltei do exterior, depois de um tempo, deram-me um texto do Olavo. Fiz uma correções. Ele ficou louco. Não sabia quem era e levei a sério. Depois vi quem era. Larguei de lado. Tenho vários alunos que pegam textos dele. Depois de algum tempo ficam sabendo que é um maluco. É assim que funciona. Para todo mundo e´assim. Veja o Chomsky! Quem endossa as coisas dele, para mim, não sabe o que está falando. Ele fala coisa de um marxismo infantil que parece as teorias da conspiração do Olavo. Mas as pessoas pegam trechos aqui e ali, não vão adiante, e repetem. Assim é em todo lugar. Veja esse manifesto de intelectuais estrangeiros contra o “golpe”. Ora, nem sabem nada de Brasil, pegam lá um texto de um colega falando que há um golpe numa Banana Republic e, então, assinam um manifesto que, afinal, tem Chomsky. Até Habermas assina uma coisa assim. É por isso que eu falo e dou nomes. Muita gente na academia é contra o que faço. Acho que não deveria dar nomes. Mas dou. É importante dizer que é fulano de tal que é uma besta. Pois a opinião minha conta. Sei que conta. Muita gente foi checar a interpretação de Marilena Chauí sobre Sócrates (Elenkhós), e então, estupefato, me disse: puxa, não acreditei nisso, mas depois que você falou, fiquei esperando uma resposta dela e não veio, e agora vejo que ela está errada eetc etc. É assim. Uma pessoa como eu não pode trabalhar como demiurgo. Mas a maioria das pessoas trabbalham assim, olham uma informação e trabalham com ela, se apetece, não vão saber o resto da coisa.

    • Luciano
      05/09/2016 at 18:27

      Parabenizou a Folha por trazer as lições do guru maluco e pediu pro jornal admiti-lo como colunista. Segundo ela, poucas pessoas escrevem com tanta clareza como ele sobre o presente e o futuro Brasil. E para arrematar, acrescentou que tê-lo semanalmente seria enriquecedor pro pensamento nacional!

      Essa mulher é uma coitada.

    • 05/09/2016 at 20:00

      Luciano, fiquei com um pouco de dó de você. Tão curtinho de cabeça! Será que você é assim por conta de fanatismo partidário do tipo daquele do Olavo de Carvalho? Cuidado. Isso é uma doença.

    • Luciano
      06/09/2016 at 00:05

      Paulo não tenha dó de mim. Sou uma pessoa equilibrada. Tenha dó de quem é fã do Olavo, o pensador nacional hahaha

    • 06/09/2016 at 03:14

      É o seu caso, pelo que você entendeu da Janaina, vi que lê Olavo, pois você raciocina igual ao Olavo. A maneira como vocÊ avalia o comportamento das pessoas é igual ao dele. Aí, deu dó.

  4. Petrônio Gonçalves
    04/09/2016 at 14:54

    Não foi o Deputado Cunha que acertou o coração do PT? Para mim foi o rompimento do PMDB com o PT, o que os petistas chamam de traição, que levou a ruína e o posterior desmoronamento do pacto da burguesia com o PT. Mas claro que teve todo um contexto, incluindo as ruas que foram jogadas contra o PT, a corrupção, o isolamento político de Dilma, o pedido de impeachment aceito pelo presidente Eduardo Cunha, etc.

    • 04/09/2016 at 18:33

      Petrônio pensei que você soubesse que em história a trama é uma trama, não um arco com uma flecha que atinge o alvo solitariamente. Você pode contar a trama de vários modos, mas em nenhum modo vai conseguir excluir o tiro de Janaina e a mão de Deus, tramando para que ela viesse a conhecer Helio Bicudo etc.

  5. 04/09/2016 at 11:00

    Professor , li cuidadosamente a entrevista acima, e, e se suas declarações foram repassadas na íntegra , penso q a entrevistada é uma pessoa inteligente, estudiosa, lutadora em sua ambição de alcançar o q almeja. Talvez por isso, e por ser advogada, faz um discurso pessoal, na medida em q ñ comprometa a mídia. q, sem dúvida, lhe é útil. Acredito q seja politizada, ao menos a ponto de entender q o afastamento da Presidenta eleita democraticamente, se deu devido à briga pelo Poder, entre as facções Políticas adversárias, e ñ porquê ela “levantou a voz”, estando no lugar e hora certos.

    • 04/09/2016 at 11:19

      Rachel, Janaína não é boba. Quando ela deu o parecer para o PSDB e este ficou desanimado com o Impachment, ela resolveu entrar sozinha com o processo. A avaliação dela, na época (que não era a minha), tinha três conselhos favoráveis. Um deles, decisivo: Collor. Ele deu uma entrevista dizendo: isso vai vingar. E explicou como. Dilma não ouviu. Helio Bicudo disse: vamos entrar, temo de entrar. Entraram. Podia não dar em nada, claro. Mas aí, Deus, sendo brasileiro, jogou sua teia. A história funciona assim.

  6. Magda Melo
    04/09/2016 at 10:33

    Maravilhosa!!! Ela tem razão…não tem pessoas dispostas a agirem em prol do Brasil…os políticos só pensam neles mesmos…em como se perpetuarem e em como levar mais vantagens.

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About Paulo Ghiraldelli

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