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19/07/2019

Qual o serviço de Bolsonaro?


Bolsonaro reclamou do cargo de presidente. Segundo ele a função é chata, trabalhosa, da dor de cabeça etc. A maior parte dos governantes que titubeiam fazem isso. Querem e não querem. Nessas horas, as pessoas acabam se perguntando: mas se não gosta, por que quis tanto, e por que fica? E elas mesmas respondem: é para roubar! Nem sempre acertam nisso!

Essa classe média que acaba sempre dizendo que política é roubo, falcatrua, que o problema do Brasil é a corrupção, em geral vai para a direita, mas até mesmo na esquerda há gente assim. Afinal, Lula se elegeu, em grande parte, com a ideia de combate à corrupção. A visão da corrupção como sendo o grande problema da nação, ou das nações, é um elemento falso e despolitizador. Em geral, encobre uma visão que pode ser melhor, mais útil, a de que, enfim, disputa-se o governo de um país porque isso é um desdobramento da luta de classes.

Mas é aí que as coisas se complicam. Se há luta de classes, e se essa questão está sob o crivo de quem se apropria da mais valia, tal apropriação se dá na disputa entre patrões e empregados, desse modo, tomar o estado significa pouco, talvez só mais trabalho e dor de cabeça. É aí que temos que notar um fenômeno moderno, que repõe a questão da necessidade de tomar o poder, o controle estatal, o governo: trata-se da mudança a respeito de como se apropriar do produto social, para além da mais-valia tradicional.

Recordo aqui um trecho de O capital improdutivo, de Ladislau Dowbor:

“A exploração dos trabalhadores e dos “99% em geral se dá por meio de três mecanismos básicos: o pagamento de salários baixos, a redução de acesso a bens e serviços públicos e a exploração por meio de juros elevados. O pagamento de baixos salários nos é familiar, gera a mais-valia para os proprietários de meios de produção. A redução de acesso aos bens e serviços públicos afeta indiretamente a renda da população: na Suécio ou no Canadá os salários podem ser mais baixos do que nos Estados Unidos, mas o salário indireto sob a forma de educação, saúde, infraestruturas públicas de lazer e outros, com acesso universal gratuito, mais que compensa a diferença, porque a educação privatizada, por exemplo, drena os salários dos trabalhadores. Os planos privados de saúde igualmente. A exploração pelas taxas de juros elevadas, drena a capacidade de consumo das famílias, a capacidade de investimento das empresas, bem como investimento em infraestruturas e fornecimento de bens e serviços públicos por parte do Estado pelos juros elevados. Se o juro é mais elevado do que o impacto produtivo gerado, está se drenando a economia real em proveito de atravessadores financeiros” (p. 303).

O mais-valia tradicional tem um limite matemático. Pode-se ampliar o tempo de trabalho, mas a jornada é finita. O dia é finito. Pode-se, então, apelar para a mais-valia relativa, que surge pela possibilidade da tecnologia: o trabalhador passa então, mais ainda, a produzir mais do que aquilo que necessita para repor a sua força de trabalho. Mas, também nesse caso, há um limite. Aliás, um limite estranho: a robotização pode ser introduzida para substituir de vez o trabalhador. Assim, ressurge a luta política no sentido de querer tomar o poder de estado. Controlar as diretrizes políticas do estado é tentar controlar as atividades dos “atravessadores financeiros”, que em geral ficam, cada vez mais, com o produto social.

Nesse sentido, as classes dominantes se engalfinham na luta pelo controle do estado. Se se dividem, podem apresentar contradições no interior de projetos políticos da direita. Mas, de qualquer forma, se não conseguem suprimir a democracia, ou restringi-la, devem disputar o controle estatal também com os partidos da esquerdas, que visam ser os porta vozes dos setores que, enfim, sentiriam a exploração.

Desse modo, a política nada tem a ver, em princípio, com corrupção. Ela é a administração da cidade, da polis, mas uma administração que deve conter ou avantajar a exploração do produto social, compensando os limites de exploração que se faz para além dos mecanismos tradicionais da mais-valia.

Bolsonaro pode reclamar do cargo. Pode não entender o que faz ali. Mas o capital financeiro sabe bem o que ele deve fazer ali, e vai tentando trazê-lo para uma tal função, a de colaborar com os setores dominantes no sentido da apropriação do produto social. Nessa hora, um agente mais consciente de sua representatividade, como Maia, puxa-lhe as orelhas.

Paulo Ghiraldelli, 62, filósofo.

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9 Responses “Qual o serviço de Bolsonaro?”

  1. 26/06/2019 at 16:45

    Professor, me desulpa, mas apenas concordo em partes!

  2. Helena Maria Rodrigues Gonçalves
    25/06/2019 at 19:38

    Olá! Dizem aqui em casa que há uma Helena antes das aulas de Ghiraldelli é outra depois. Obrigada, mais uma vez, pelos ensinamentos. Tenho usado seus textos nas aulas de redação (sou professora de português e revisora). Continuemos rompendo com deficiência cognitiva programada!

    • 26/06/2019 at 00:19

      Helenas são conhecidas por antes e depois. Você sabe o que eu falo, falo de Troia

  3. Rita de Cassia dos Santos
    21/06/2019 at 01:53

    Professor eu me emociono pq estou adquirindo conhecimento e entendimento pelo seu despojamento de disseminar conhecimento, ensinamentos de forma didática sem sombra de duvidas. Algumas vezes o alarme da ñ concordância ocorre. Ai vou buscar informações. Algumas vezes em livros sugeridos ou na internet. Pq me emociono ? Gostaria q muito mais pessoas tivessem acesso a este crescimento critico de pensamento. Principalmente os jovens.
    Obrigada por tanta dedicação !!!

  4. Joab fernandes
    20/06/2019 at 20:09

    Obrigado por nos fazer pensar e nos prepararmos para reconquistar o poder perdido para está direita. Somente através de conhecimento e informação inteligente nos deixará prontos para já nas eleições municipais do ano que vem eleger os candidatos progressistas e camimharemos firmes em 2022. Um forte abraço ao digníssimo professor. Já pensou em candidatar a algum cargo eletivo?

  5. Mario Ângelo Gazos Lopes
    20/06/2019 at 19:57

    Boa Noite.

    O conjunto das intervenções do Bolso prestigia o CApital e logo a Classe Dominante quando diz que quem delimita as terras indígenas, quilombolas é ele, e tranferindo para o Ministério da Agricultura e tantas outras.

  6. Fernando Pinheiro Guimar?es
    20/06/2019 at 17:41

    Professor, obrigado pela disseminação de tanto conhecimento altamente pertinente.
    Um abraço e obrigado,
    Fernando

  7. Eduardo Henrique
    20/06/2019 at 15:16

    O surgimento no mundo de uma aristocracia financeira parasitária está tornando a economia mundial numa espécie de “feudalismo capitalista” onde grupos ganham sem trabalhar e sem produzir.

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