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25/07/2017

Qual o grau de anormalidade do militante político?


A senhora entra no Congresso cercada de um bando de gente, alguns de cabelos brancos, e aponta para o vermelho da Bandeira do Japão junto da do Brasil, e então descobre ali “o comunismo”. A menina invade a escola e vai a uma Assembléia Legislativa dizer que está lutando contra a PEC 241, mas ela não leu o documento!

Aparentemente a menina de esquerda está em um grau menor de estupidez que a senhora de direita. Desconhecer a PEC 241 é permitido, desconhecer a bandeira do Japão, nas condições apontadas, não é. Poderíamos falar mais. Ser jovem e reivindicar melhoria da educação é louvável, embora não ler o documento e invadir o patrimônio público não seja lá algo legítimo. Ser velho e pedir intervenção militar, gritando dentro do Congresso, não pode angariar nenhum apreço de alguém sadio. Jovens talvez possam errar, velhos não deveriam errar.

Nos dois casos há um distúrbio de percepção bastante estranho. Mas Bacon, na entrada da Modernidade, ao falar do “Ídolos”, trouxe uma nova concepção de homem: aquele que erra, que já está no erro. Então, assim fazendo, o filósofo nos deu essa nova consciência que nos deixa um tanto atarantados. Vivendo no interior dessa nova Era, ainda que possamos acreditar na não razoabilidade da menina contra a PEC 241 e da senhora a favor da Intervenção Militar, desconfiamos não ter parâmetros para dizer em que momento estamos de fato diante da perda da sanidade perceptiva. O homem atual, moderno, se entende como vivendo no erro, mas em que medida? Afinal, não é esse o caso? Temos medida? A menina usa o estranho palavreado coletivista: “o nosso movimento”, a senhora faz o mesmo. A menina passa a acusar os parlamentares de serem responsáveis, de estar “com as mãos sujas de sangue”, pela morte de um garoto na escola, que não foi por violência do estado e muito menos por ato vindo dos deputados. A senhora passa a acreditar que seria tranquilo, sem consequências drásticas para sua vida (processo que pode dar dois anos de reclusão no mínimo), entrar no Congresso para dizer que os deputados deveriam ser arrancados dali. Não estão ambas em estado de perturbação mental? Felizmente temos a lei, ela dá os parâmetros, se perdermos a nossa razoabilidade de julgar.

A invasão da escola, pelos motivos alegados, é uma infração. A invasão do Congresso, pelos motivos alegados, é crime. A ação da menina não visa derrubar o governo, a ação da senhora (ainda que cômica) visa derrubar o governo. Nesse caso último, não se trata de proselitismo, mas organização de golpe. A Constituição não tolera isso. Todavia, nos dois casos, se nos afastamos da lei e consideramos as pessoas envolvidas, veremos que os graus de confusão perceptiva e mental variam, mas não temos como colocar uma linha divisória entre eles. Ambos diferem por graus, não por espécie. Ambos são frutos de um misto de deficiência intelectual regada por ideologias toscas. Não digo aqui “esquerda” e “direita”, mas algo um tanto desparafusado no âmbito dessas doutrinas. Não estou patologizando a política radical. Estou é mostrando que há algo de esquisito nessas atitudes citadas.

Faz parte da obrigação cívica das pessoas que percebem essas distorções mentais nos militantes, a tarefa de ficarem atentas. Eles, os militantes do caso, não são radicais ou revolucionários, eles são pessoas cujos atos mostram incongruência interna, auto-exposição ao ridículo, e isso deveria ser um parâmetro para entendermos o quanto ideologias podem tornar os tolos ainda mais tolos. Tolos que são mais tolos, em determinados momentos, podem se tornar tolos perigosos. O remédio contra isso é ter lares estruturados, boas escolas, uma imprensa livre e que saiba que ela própria não pode perder a cabeça. Depois que todos nós estivermos no caos mental desses militantes, aí não adianta mais reclamar.

Intelectuais que não respondem críticas, que se fecham, que falam do alto de lugares protegidos, são os principais autistas dessa nossa Era, que alimentam os militantes que perdem o chão, como os que apontei. Dentre esses intelectuais, não devemos esquecer de alguns professores, alguns gurus, são eles que, por se recusarem à conversação, transferem essa onipotência à menina que invadiu a escola e à senhora que invadiu o Congresso.

Paulo Ghiraldelli Jr., 59, filósofo. São Paulo, 18/11/2016

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9 Responses “Qual o grau de anormalidade do militante político?”

  1. denis
    27/11/2016 at 21:08

    VIROU ZUMBI!!

  2. JJ Hoffmann
    18/11/2016 at 22:06

    Ghiraldelli, o seu discurso é o da anti-política; denegrir a política e seus atores, para utilizar o termo do filósofo Vladimir Safatle, é espancar a própria democracia.

    Sei bem a quem essa discurso da anti-política serve. É o discurso que elegeu um Trump, um não-político, ou um Doria.

    Os militares também demonizavam a política e os pensadores políticos que fugiam àquele positivismo de quinta.

    Bem, eu não poderia esperar outra coisa de alguém que vê em Sloterdijk, o homem do “parque humano” (já pensaram nisso antes, em meados dos anos 30-40), grandes qualidades enquanto pensador.

    • 19/11/2016 at 07:19

      JJ quando alguém cita Safatle, eu desconsidero. E quando alguém não entende Sloterdijk, eu sei que é fraquinho.

    • 19/11/2016 at 07:28

      Ah, Hoffman, você seria o primeiro ou não a usar de engenharia genética para tirar uma doença de um filho seu, antes de nascer? E você, para casar, não faz exame? Já percebeu como vem fazendo um tipo de eugenia faz tempo? Ah, já sei, não casou, nunca foi no médico, não sabe da existência da medicina e de como agimos em clínicas legais, né? Eu sabia. Dá para perceber. Quando alguém confunde acusar militante louco de estar demonizando a política, é sinal mesmo que não sabe nada.

    • Epidemia
      19/11/2016 at 08:42

      Concordo com vc, Hoffman.
      Vamos incendiar a Paulista,parar as escolas,e deixar o país ingovernável por motivos solenemente ignorados por nós.
      Vamos prejudicar os inocentes que trabalham para pagar suas contas, por causa de questões de destempero ideológico.
      E carregaremos de boa vontade parte da culpa por tudo o que de ruim acontecer.

      [humpf…]

    • 19/11/2016 at 08:54

      Epidemia, quando um cara tem como ídolo Safatle, é difícil conversar. É o caso do Hoffman, ele não entendeu o Sloterdijk, e olha que foi em 1999!

  3. JV
    18/11/2016 at 14:55

    Sugiro apenas a correção dessas frases no texto:

    “autistas desse nossa Era”

    “transferência essa onipotência à menina”

    Muito bom texto!

  4. LMC
    18/11/2016 at 13:01

    E o Reinaldo Azevedo que escreveu
    na Folha que a vitória de Trump nos
    EUA foi uma resposta ao lesbianismo
    nas escolas públicas no RJ?PUTA
    QUE PARIU………..

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