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25/03/2017

Otávio Frias: ainda precisamos de um partido social democrata. Será mesmo?


No artigo “Miséria e glória do PT” (Folha, 09/10/2016), Otávio Frias Filho termina dizendo que “é óbvio que o Brasil não pode nem deve prescindir de um amplo partido democrático de centro-esquerda”. Além disso, comenta que “é cedo para dizer se o partido [o PT] será substituído por um PSOL, por exemplo, que parece repetir seus passos iniciais rumo à moderação, ou se voltará recuperado após gramar longo ostracismo: a distância do poder exerce incomparável efeito desinfetante”.

Há poucos meses eu concordaria com a primeira afirmação. Hoje, tenho lá minhas dúvidas sobre a necessidade de um partido democrático de centro-esquerda, dito assim, genericamente. Agora, com a segunda conjectura, eis aí algo que eu não quero que ocorra: não engulo o PSOL, moderado ou não, muito menos o PT, ainda que desinfetado. Não dá mais!

Se é para termos um partido democrático de esquerda, já que “é óbvio” que precisamos disso, e se é “tempo de semear”, como também diz Frias no texto citado, espero que a semente jogada seja nova e que não venha produzir árvores com a mesma disposição doutrinária. E enfim, apesar de Lula já há muito tempo não ser mais casto e não ter cometido “erros” e sim roubos que cometeria mesmo, penso que também o ideário do tipo de esquerda que fez o PT (e que está PSOL), não é algo que escape do destino cumprido pelo PT. Um partido de esquerda capaz de manter a retórica do anti-americanismo, da oposição pela oposição, do cliché, da prática interna não democrática, da confiança em um estatismo arcaica, e do resquício de um vício epistemológico nocivo do marxismo-leninismo, não tem mais nada o que fazer em nosso cenário. Bernie Sanders não é o futuro. E Chomsky, por sua vez, menos ainda.

A ideia do marxismo leninismo de que a classe trabalhadora enxerga mais longe porque é a “última” classe na sequência histórica, a que pode pensar melhor porque “vem depois” e tem menos a perder, é uma bobagem epistemológica que já deveria ter caído a muito. Mas, na verdade, ainda que não mais mencionada, ele funciona impregnada nos intelectuais de esquerda no Brasil. Por causa disso, eles confiam em gente como Lula, confiam demais neles mesmo e no partido, se acham sacrossantos e se olham como vanguarda e direção histórica da revolução. Sim! Tudo isso que já nos anos vinte e trinta a Escola de Frankfurt jogou fora, foi recuperado até por frankfurtianos nos anos pós-Queda do Muro de Berlim. A esquerda ficou com quadros mais tacanhos, e seu pensamento retrocedeu. Pessoas que não pensavam de modo torto, professores que já haviam abandonado de vez os termos do marxismo-leninismo, se tornaram o protótipo do militante de esquerda atual, um tipo ridicularizado por essas mesmas pessoas nos anos 80. Por exemplo: Marilena Chauí dos anos oitenta riria muito da atual Marilena Chauí.

Não precisamos de mais nada disso. Um conjunto de forças de esquerda que tenha por objetivo fazer vingar não só a liberdade e a igualdade, mas também a fraternidade no mundo, não tem que confiar no Estado Demiurgo e no Santo Partido. Menos ainda tem que achar que Lula ou qualquer outro do tipo semelhante seja aquele que “escreve certo por linhas tortas”, ou seja, tenha a prerrogativa de Deus. Não poder ter. Coronel populista de esquerda é um lixo igual aos crápulas donos de partido na direita. “Secretário Geral” era uma piada vinda dos Partidos Comunistas, contra os quais o PT foi criado, e depois o próprio PT gerou algo parecido, com chefetes tipo Lula, Zé Dirceu, Palocci e coisas do tipo. O pastelão foi repetido.

Uma esquerda precisa começar a pensar numa transformação cultural no sentido da generosidade. Como? Buscando ver se as pessoas, por elas mesmas, se tornem mecenas daquilo que gostam, do que querem ver vingar. Toda instituição ou façanha humana precisa ser algo feito, mantido e cuidado por quem realmente gosta da instituição e da façanha em questão. Sloterdijk diria: temos de mobilizar forças timóticas, que tenham fúria e orgulho de cuidar de suas criações, e não mais forças eróticas, em geral despertadoras de domínio e de ciúmes. É preciso que o mundo seja povoado pela ideia de que os impostos vão cair, dependendo das eleições, em mãos erradas, e que muita coisa precisa estar sob a administração e cuidado dos próprios usuários que se orgulham de serem usuários de tais coisas. Os soldados da cidade ideal platônica tinham a fúria timótica voltada para guardar a cidade e se sentiam orgulhosos disso, de serem os protetores da instituição da qual eram usuários, ou seja, cidadãos. Isso é algo a ser fomentado na esquerda, numa nova esquerda, não mais o esbravejamento retórico que conhecemos hoje. A retórica e a prática de hoje da esquerda brasileira (e aqui não falo da corrupção não) nos dá vergonha.

Paulo Ghiraldelli Jr., 59, filósofo. São Paulo, 09/10/2016

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3 Responses “Otávio Frias: ainda precisamos de um partido social democrata. Será mesmo?”

  1. Romario
    11/10/2016 at 14:40
  2. Orquidéia
    11/10/2016 at 08:42

    A Esquerda precisa incentivar a prática do mecenato?
    Eu entendi?!…
    Hã…acho que sim.
    Começar campanhas de todo tipo,não…de cuidado com a natureza, de respeito à cidadania,etc.

    • 11/10/2016 at 09:00

      Mecenato é o que mais a esquerda faz na América. Mecenato não é campanha. Meceneto é cuidado, manutenção. Quando você cuida de algo que gosta, que você criou, você faz mecenato. Há mais disso do que você pensa. Veja meu artigo na Folha de S. Paulo do dia 3 de outubro. Há outros no blog.

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About Paulo Ghiraldelli

Filósofo