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20/11/2017

Os impotentes saem dos bueiros (*)


O que faz com que a direita, quando não ameaça chegar ao poder, pareça engraçada e foclórica, é o fato dela vir do âmbito da semi-escolarização. Não é raro conservadores virem desse campo. Um indivíduo assim pode criar algo que ele pensa que possui o estatuto de teoria, mas que nada é senão uma série de enunciados que desrespeitam o bom senso. Entra aí o restolho de uma astrologia e sai a astronomia, entra a alquimia barbárica e sai a química, entra a teoria da conspiração em que o mundo está sob a manipulação de “incas venusianos” (vilões do Nacional Kid), ou seja “comunistas” e “pedófilos”, e cai por terra a filosofia política. Esse tipo de liderança de direita, mutatis mutandis, repete Hitler.

Hitler escreveu o Mein Kampf, um livro chato e de uma tremenda confusão mental. Hitler pintava segundo as técnicas de um realismo medíocre, e odiava a arte que não entendia. Era um inadaptado à modernidade. Como a turba que ele arrebanhou, foi um loser diante da sociedade liberal. O neofascismo de hoje guarda muito disso tudo.

Os líderes ultranacionalistas do mundo todo são anti-intelectualistas: são contra a imprensa liberal, contra os museus e teatros e, enfim, contra a universidade. Tudo que é feito nesses ambientes lhes é estranho, e eles querem que tais coisas desapareçam do mundo, pois todas as vezes que quiseram estar nesses lugares, foram ridicularizados e se sentiram impotentes.

Mas se é a inveja como fruto da impotência que move tais pessoas, como explicá-la?

A interpretação clássica da inveja social moderna é de Tocqueville, exposta em A democracia na América (1835). Ele diz que as sociedades mais igualitárias criam a possibilidade de cada um olhar ao lado, considerar-se igual aos que em regimes aristocráticos não seriam iguais, e então poder universalizar o modo de percepção comparativo.

Analiando os dias atuais, Gilles Lipovetsky, em A felicidade paradoxal (2006) diz que vivemos no âmbito do hiperconsumo e do hiperindividualismo, em que vinga uma sociedade que deixou de lado a inveja vinda da aquisição de bens. As pessoas consomem bens, hoje em dia, para o uso individual, quase que solitariamente, e buscam um tipo de satisfação de uso de produtos que tem a ver com corpo, conforto solitário, single style.  A inveja acabou se transformando. Deslocou-se dos bens materiais para as posições de visibilidade social, um certo tipo de fama e “famosidade”, própria de um hiperindividualismo recoberto pela ampliação das mídias que anunciam a felicidade centrada na vida particular.

Nesse caso, para entendermos a nova fonte de impotência, ressentimento e inveja, devemos recorrer à noção de “sociedade da visibilidade máxima”. O filósofo germano coreano Byung-Chul Han, em seu livro A Sociedade da transparência, lembra o excesso de positividade de nossa vida atual, nossa ênfase na perspectiva de Rousseau de secundarizar uma “sociedade de máscaras”. Assim, no âmbito da mercadorização atual o nosso destino elege a vitrine como a arquitetura de todos os lugares. Se assim é, o ressentimento e a inveja, no que restam, são produzidos à medida que se faz necessário ser mostrado mais amado e “querido” que outros.

A inveja atual, então, é alimentada pela impotência e pelo ódio contra quem pode apresentar-se como visível, querido à medida que aprovado pela grande TV e pela Universidade, pela comunidade intelectual. O guru raivoso lança seus exércitos de Brancaleone contra tais instituições. Ele tem como lema o “fracassados do mundo, uní-vos”, e quer que o espectro do neofascismo paire sobre a Terra. Ele lidera impotentes invejosos exatamente na medida em que é o maior entre eles.

Paulo Ghiraldelli, 60, filósofo. Autor entre outros de Para ler Peter Sloterdijk (Via Vérita).

* Artigo publicado na Folha de S. Paulo em 15/10/2017

 

 

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