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23/10/2017

Os clichés de Ana Júlia consolam a adulto de esquerda?


O adulto de esquerda está sofrendo. Sim, ao menos aquele adulto que acha que ser de esquerda é ficar gemendo diante do estado para que este venha fazer tudo por ele. Mas, nesse gemido infinito – estranhamente calado na Era Lula, que enriqueceu ilícita e licitamente banqueiros e empresários fajutos – surge então aquilo que ele pensa ser a esperança: a menina de 16 anos que “tomou uma atitude”. Qual atitude? Ela foi à Assembléia Legislativa do Paraná para reclamar, mas no meio da reclamação, caiu a ficha de que podia estar revelando a doutrinação, e então ficou bem preocupada em dizer que não estava.

Há um bocado de coisas corretas naquilo que a menina Ana Júlia falou. Coisas óbvias: há um descaso com a educação. Sabemos disso. Mas não é um descaso do estado. Ou seja, não é um descaso só do estado. É um descaso do pai da Ana Júlia, dela própria, dos professores e de vários grupos sociais. Nossa sociedade, e até mesmo os professores (incentivadores do autodidatismo) não acreditam que educação se faça com bom salário e com estudo duro. O estado reflete isso. Ele não é uma entidade viva solitária. Ele não atua como um tipo de indivíduo livre. Os governantes apinhocados no estado vivem de voto, e o voto da população é de gente que pede antes diploma que educação. Sabemos disso. Por isso, faz tempo que essa Reforma do Ensino Médio está acenando a mãozinha por aí. O governo FHC e depois o governo Dilma prepararam essa reforma que está aí, de enxugamento curricular. Fizeram uma parte. Coube a Temer dar sequência. É uma política para tornar a escola “mais atrativa”, disse Dilma em Campanha, ou seja, esses políticos acham que o menos é mais. Não é. Nisso, Ana Júlia está correta. Mas nisso, ela apenas chove no molhado.

Agora, em determinado momento, Ana Júlia sai do mundo que ela conhece ou parece conhecer, e vai para o mundo que uma garota de 16 anos não sabe o que é. Ela pensa que ser crítico é ser contra o governo. Ela prepara a si mesma para dizer que é duro ser crítica, e nessa hora faz o discurso fácil da crítica ensinada, treinada, bolinada. O discurso então perde nervos e sangue, vira emotivo e tolo, e fica formal. Desaparece Ana Júlia, nasce aquilo que a esquerda pensa que é a Mini Rosa Luxemburgo do Paraná. Alguma palavra de ordem aqui e  ali e o monstrinho pré-universitário está pronto. Um cliché e outro vira o rosto para a plateia, que logo percebe que está diante de algo que começou bem e vai acabar mal. Quando as crianças param de reclamar da sala de aula e acham que podem reclamar da Guerra na Nicarágua ou da PEC 241, aí tudo vem abaixo. Tudo termina na acusação de que “mataram” um estudante, ou pior, que fulano de tal, por ser uma maldoso capitalista, matou um estudante. Perde-se a noção do que se pode dizer e acusar. Ana Júlia nessa hora não tem mais nome, ela é o que diz ser: “o movimento”, o “nosso movimento”. A sensação do coletivo lhe dá a força que ela própria não pode tirar de sua própria razão, dado que na “crítica” abandonou tal razão.

Por que Guerra da Nicarágua? Simples: em uma segunda graduação, fui a uma assembleia que iria discutir greve, isso lá na UFSCar do final dos anos setenta. Então, os alunos da esquerda profissional propuseram que nos posicionássemos a favor do Sandinismo na Nicarágua. Sim! Sem Internet! Uma moção perdida no interior do Brasil falando como se estivéssemos num fórum internacional. Claro que os alunos não doutrinados foram embora, e aí a tal esquerda votou tudo que queria. Já era assim, foi assim, é ainda assim. Os estudantes universitários aprendem, no ensino médio, esse comportamento alienado e alienante, fruto dessa esquerda com cara de direita, e depois exercem tal prática na Universidade. Alguns ficam agressivos, invadem sala de aula,  atacam e desrespeitam professores, portam-se como grupos paramilitares.

Mas, será que vão chegar à universidade? Será que Ana Júlia será estudante universitária? Mas ela já não é mais estudante, pois ela não estuda. Ela está parada. Ela vai perder o ano. Quando acordar terá perdido os anos de colégio por conta de uma greve, uma ocupação e uma manifestação. Terá sido a estudante que não estudou. Poderia ter feito manifestação, blog, texto, passeata em Curitiba, protesto com rosto e peito pintado etc., tudo isso sim, sendo estudante. Tudo isso é cabível e possível, sem deixar de estudar. Mas Ana Julia, na loucura coletivista em que está metida, tende a ficar o dia todo no colégio, não estudando, para depois, no final do dia, fazer uns cartazes e protestar. Protestar contra a Reforma do Ensino Médio. Correto nesse caso. Mas não é necessário deixar de ser estudante para protestar contra a falta de chance de estudos. Isso cria não o estudante crítico, mas o estudante que não estuda, o candidato a analfabeto funcional que ela diz que deve deixar de existir.

As aulas são chatas, pois os professores ganham pouco e são mal formados. Sei disso. Como sei! Então, parar as aulas para protestar parece, aos 16 anos, ser uma boa chance de ficar na escola num ambiente de socialização. Fazem a comida, limpam a escola, namoram, ficam no celular, podem até receber a imprensa. Os hormônios a mil. Parecem viver a Comuna de Paris. Ou um clubinho. Na adolescência fazemos qualquer negócio para sermos um “nós”. Fazemos qualquer coisa para sermos bem vistos num grupo. Estudantes que não estudam, se preparando para serem os militantes da esquerda da universidade, mas em cursos fracos – eis o destino dessa socialização às avessas. Pois não passarão no Enem. Não estudam. Claro que uma escola que não socializa acaba dando espaço para que o estudante crie a invasão e a ocupação e diga: “agora esse ambiente meu, que a sociedade reservou para mim, é meu”. Mas isso passa rápido. Dois anos e vem o vestibular, o emprego, ou melhor, o emprego num lugar ruim. Maldita hora, então, aquela de não ter feito a manifestação junto com o estudo, e não em detrimento dele. Ao 16 anos o tempo de fazer 18 está longe demais, mil anos luz. “Nunca seremos adultos”, dizem eles para si mesmos, quase que como Peter Pan. E num piscar de olhos, se tornam adultos muito mais despreparados do que pensavam que o Brasil, por si só, faria com eles. Pois a Ilha de Sininho não tem data.

Quando falamos da PEC 241 para dizer que ela tira dinheiro da educação e da saúde, estamos mentindo, mas aos 16 anos, ouvindo isso de gente que parece adulta, pensamos encontrar aí a tábua da crítica. Temos na mão uma meia verdade – e isso é a ideologia – que acaba nublando o que seria uma reivindicação justa, que é a de estancar a reforma que propõe o enxugamento curricular que vai ocorrer. Mas esta até pode não ocorrer, pois a manifestação contra ela será nas audiências públicas. Além disso, a própria Reforma está sofrendo emendas. É preciso acompanhar isso. Os alunos não estão acompanhando. Estão protestando. Não estudam nem mesmo a realidade imediata da qual reclamam. Tudo que imaginam é que “a mídia manipula”, e que eles próprios não estão sendo manipulados por um discurso hegemônico no ambiente em que estão, e que foi gerado no interior de partidos e grupos anti-democráticos. Todos nós sabemos que grupos de esquerda discutem muito, mas sempre no estilo Globo da Morte: alta velocidade sempre no mesmo espaço. Pensou um pouco diferente, vira “fascista”, é punido com o isolamento do grupo de socialização. Isso é a morte para um adolescente. Muitos temem falar contra as lideranças por conta disso.

O jovem simpático a teses de direita se pensa não autoritário porque confunde sua postura individual, meio que solitária, aparentemente independente, com assunção livre. Mas o que o faz pensar mesmo que é livre é porque ele vê o outro jovem, o de esquerda, preso em esquemas mais nítidos de sofreguidão ideológica, que se faz de modo explícito, por meio do discurso unificado. Aliás, a esquerda pensa em forma de jogral. Vá nas manifestações e verá isso. O pensamento crítico da direita e da esquerda é tudo, menos crítico. Confundem ser crítico com ser contra o que a “mídia” fala (ou o que eles pensam que fala). Um jovem de esquerda ou direita “contra mídia” é sempre um Trump dizendo que as eleições estão sendo manipuladas. Há algo de infantilismo nisso, de pensamento mágico.

Assim, a direita faz chacota dessas Ana Júlias da vida. E a esquerda alimenta essa chacota fazendo as Ana Júlias de bibelôs. É tudo muito triste ver a juventude nesse joguete de perdição. Nesse ambiente, um jovem aqui e outro acolá, mais preocupado com a realidade por meio de se preparar para ela, estudando, irá se safar de perder seus melhores anos. Os outros perderão. Encontraremos com eles mais tarde? Alguns sim, como políticos corruptos (lembram do Lindengerg Farias?). Outros não mais, talvez até consigam fazer o curso de Direito e serem secretários de advogados, os eternos não-aprovados na OAB. Será que Ana Júlia escapará desse destino? Ou fará ciências sociais ou pedagogia, e irá trabalhar na máquina xerox do centro da cidade?

Paulo Ghiraldelli, 59, filósofo. São Paulo 28/10/2016juventude

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19 Responses “Os clichés de Ana Júlia consolam a adulto de esquerda?”

  1. LMC
    29/10/2016 at 11:08

    Segundo a Folha de ontem,o Lula-
    ele mesmo-chegou a telefonar a
    Ana Julia elogiando o que ela fez.
    kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk

  2. Mario
    29/10/2016 at 05:41

    Não vi ninguém comentando sobre o pronome possessibo que ela usou: a palavra “nossa” no discurso. Pode parecer muito detalhismo da minha parte para uma única palavra, mas foi uma coisa que me pareceu estranha. O termo “nossa escola” como justificativa para a ocupação e etc, pode ser interpretado de duas formas:

    1-A escola de todos, com um “Nossa” geral, de toda a sociedade (interpretação que me parece improvável, já que em alguns casos decidiram por assembleia que policiais e pais, ou seja, cidadãos, não poderiam adentrar).
    2-A escola que o movimento tomou para si, com um “nossa” restritivo a algumas pessoas. Ou seja, parece perceber que o espaço público da escola virou espaço privado do coletivo (o que, de certa forma, é um comportamento capaz de ser interpretado por corrupção). Ora, se a juventude pensa assim, então quando crescerem (conforme dito no texto, a exemplo de Lindberg Farias), não se comportariam de uma forma semelhante ou intensificada?

    Alguém mais percebeu esse segundo sentido na fala dela ou eu que estou digredindo demais?

    • 29/10/2016 at 10:12

      Eu acho que escrevi, não? Sobre “nosso movimento”.

  3. Thiago
    28/10/2016 at 17:42

    Todos nós sabemos que grupos de esquerda discutem muito, mas sempre no estilo Globo da Morte: alta velocidade sempre no mesmo espaço. Pensou um pouco diferente, vira “fascista”, é punido com o isolamento do grupo de socialização. Isso é a morte para um adolescente. Muitos temem falar contra as lideranças por conta disso.

    Perfeito, quem já estudou numa UF sabe bem disso.

    • LMC
      29/10/2016 at 11:19

      A Ana Julia é a capa da Carta
      Capital desta semana,PG.
      kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk

  4. Francisco Amorim
    28/10/2016 at 15:46

    A manifestação dessa menina me lembrou o seguinte texto, sobre a filosofia de Rorty:

    http://cefa.pro.br/blog/2016/02/01/duas-utopias/

    Justamente por ter dezesseis anos (e, portanto, uma visão de mundo diferente de quem tem trinta ou sessenta anos), penso que não deveríamos ser tão críticos em relação à maturidade do seu discurso.

    Não é porque os velhotes órfãos da esquerda compartilham o vídeo nas redes sociais que o seu ato é vazio de significado político relevante. De certa forma, ela mantém viva a chama das utopias, mas não daquelas utopias que tinham data certa para se tornarem reais, como as revoluções francesa e russa; na verdade, reaviva as discussões sobre direitos formais previstos na constituição (dignidade da pessoa humana, por exemplo) e passa a bola para a assembleia legislativa. As mãos deles estão sujas — de alguma forma estão, mesmo que não do sangue do aluno que morreu; do contrário, não teria ocorrido tamanha resistência ao prosseguimento de seu discurso, sem mesmo saber como ela o concluiria. Nem o Bolsonaro tem o microfone desligado em circunstâncias parecidas.

    Enfim, a ingenuidade está impressa no seu discurso, mas só podemos afirmar isso sob a perspectiva de adulto, de aposentado, de idoso. Só podemos julgar o grau de ingenuidade tendo dezesseis anos, o que não é o meu caso — e nem do seu.

    A visão dessa menina lembra muito a do o turista, que fotografa prédios caindo aos pedaços ou paisagens supostamente desinsteressantes, mas que acabam encantando os nativos, incrédulos com tão belo recorte de algo que há muito vinha sendo encarado como descartável. Precisamos de mais gente com o olhar de turista para nos lembrar de que o belo ainda existe, talvez não exatamente da forma vislumbrada pelo forasteiro, mas certamente há algo a ser explorado que havia sido esquecido.

    • 28/10/2016 at 15:50

      TEMO PELO FUTURO de Ana Júlia. Perdendo o ano e tendo pai petista, ela pode acabar na Fundação Casa. Francisco, Rorty tinha um profundo desgosto por gente como essa garota, que não sabe pensar sozinha.

  5. vera bosco
    28/10/2016 at 14:28

    Ou vai formar banda new jerks on the block?

    • 28/10/2016 at 15:44

      Com pai petista acho que vai formar uma quadrilha.

    • alcione catarina bacheschi
      28/10/2016 at 18:53

      Perfeito!

  6. Paulo
    28/10/2016 at 12:33

    Bom texto! Como professor de História me decepcionei com o sistema educacional. Os piores alunos em todos os sentidos , sendo eleitos para representar seus colegas. Os bons omissos. Um esgoto a céu aberto. Parabéns pelo texto.

  7. Bruno Zoca
    28/10/2016 at 11:46

    Ela usou a emoção no discurso e disse muitos clichês que a esquerda adora. Nessa fusão ela se tornou viral na internet, virou matéria do El País.
    Num país em que o MC Bin Laden faz sucesso não é de se espantar que uma adolescente com coragem e discursando com vibração comova aqueles ideologizados da esquerda, mas poderia acontecer com a direita caso fosse um Kim da vida. Quem sabe ela não se torne a líder jovem da esquerda?

    • 28/10/2016 at 12:08

      É o momento Kim da esquerda! Dá um pouco de dó pois o que menos muda no mundo moderno é a juventude.

  8. Pedro
    28/10/2016 at 11:38

    Eu demorei um tempo pra assistir o vídeo, vi vários amigos compartilhando mas as descrições me pareciam exageradas e eram pessoas que eu sabia serem completamente partidárias. Ao assistir tive uma grande decepção. Ela realmente perdeu uma grande oportunidade de fazer algo ou ficar calada. O discurso dela foi tão tristemente vazio que o fato de muita gente ter visto como uma força pro movimento me lembrou daquela pesquisa realizada pela Universidade Católica de Brasília que chegou à conclusão de que metade dos universitários são analfabetos funcionais. É triste ver que não apenas ela não conseguiu manter uma linha de raciocínio, atacando para todos os lados, como também os que assistiram não conseguiram entender o que ela falava e por isso concordaram sem perceber direito o que estava escutando. Esse tipo de ação impensada é o que tem enfraquecido a imagem da educação. A maior parte da população pouco ou nada entende sobre o ensino e assiste a esforços estudantis como quem assiste TV, se a mensagem não for clara, se a intenção não for sincera desgasta os movimentos. Ao atirar sem ver, esses movimentos constantemente atrapalham as chances de acontecer alguma melhoria real.

    • 28/10/2016 at 11:45

      Pedro, também esperei, com você. E aí, quando abri, a decepção.

    • Cristiano frota
      28/10/2016 at 13:11

      Ao contrário do pedro, percebi que, no curto espaço de tempo da fala, quando houve as ameaças de cortar o microfone de Ana Júlia, ninguém mais queria ouvi-la. A fraqueza do discurso foi tão evidente e tão perceptível, que fez com que alguém tivesse que falar algo. Ela repetiu a façanha do professor que ganha mal e é mal formado do qual está acostumada. O discurso se tornou chato, e os parlamentares quiseram encerrar. Poderiam ter buscado uma ajuda maior quanto a isso e ter evitado cair no discurso rotineiro, principalmente aquele discurso que cutuca o vespeiro da política brasileira.

    • 28/10/2016 at 14:24

      Frota, foi tudo muito chato. Mais alimento para a direita deitar e rolar.

    • LMC
      29/10/2016 at 11:12

      PG,quem deita e rola é a esquerda
      que tá procurando um novo,ou uma
      nova líder pra por no lugar do Lulla.
      A estudante disse na Folha que
      vai fazer Direito.Pois é….

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