Go to ...

Paulo Ghiraldelli on YouTubeRSS Feed

22/09/2017

O Sul é o seu país é?


Será que teremos um novo Duque de Caxias pacificando o Brasil? Um chefe militar vindo de Brasília dando lambadas em bundas gaúchas completamente brancas? 24 horas depois, abandonados por paranaenses e catarinenses, os gaúchos então se entregariam como “forças rebeldes” pacificadas e reintegradas ao território nacional. Como punição, o Palácio do Planalto imporia uma pena extremamente pesada: todo gaúcho teria de admitir que Pelotas é de fato a capital cultural do Rio Grande, o que implicaria na troca da bombacha preta pela pink. Os gaúchos comemorariam, ao invés de se sentirem penalizados.

Esse é o cenário pintado por um gaúcho amigo meu a respeito do movimento “O Sul é meu país”, caso ele se radicalizasse e quisesse mesmo a separação.

Para além da piada pronta que, enfim, é o tal movimento, há algo que precisa ser notado: quem está fomentando isso e qual a razão mesma de uma tal peripécia? Bairrismo tolo ligado a grupos de extrema direita desorganizados? De certo modo, sim. Mas é mesmo algo realmente desorganizado, só festividade e sonho de quem não tem o que fazer? Aí é que está o problema: seja o que for, o fato é que essa coisas de disputas que se encaminham depois para soluções relativamente bélicas, nunca surgem abruptamente. Elas são fomentadas aqui e ali e, um belo dia, acordamos no interior de rixas e agressões desnecessárias.

Não, não estou falando em guerra civil. Não creio nisso. Ninguém crê. Mas creio em certo aproveitamento, por setores reacionários, da mentalidade do “eu sou melhor”. Nesse caso, algo do tipo: “sou branco, sou da fronteira, sou mais parecido com os europeus, tenho valores perenes, como carne, ponho a mulher na linha etc.” A capa do bairrismo guarda o lixo básico de um conservadorismo de cara típica. Cria-se aí falsas hierarquias em um Brasil que já tem uma enorme dificuldade em se convencer de que precisa de mais igualdade social, se quiser ser mais livre.

Deveríamos olhar com mais cuidado para essas aparentemente inocentes e esdrúxulas tendências separatistas. Deveríamos olhar a história de outros e a nossa própria. Essa conversa, certamente correta, de dizer “ah, nunca o Brasil vai se desmembrar”, faz de nós todos vítimas de nós mesmos. Há coisas demais nos germes do separatismo, algo que alimenta a fonte de jactâncias que guardam monstros, bichos enormes enrolados em bandeiras e marchas. O tal jeitinho brasileiro é tão mitológico quanto o mito do brasileiro cordial, não podemos nos esquecer disso.

Devemos começar a pensar seriamente em não termos de acordar com um vizinho armado dizendo para você “volte para sua terra”.

Paulo Ghiraldelli, 59, filósofo. São Paulo, 05/10/2010

Tags: , , , ,

12 Responses “O Sul é o seu país é?”

  1. Tony Bocão
    05/10/2016 at 14:33

    Estava lendo uma matéria interessantíssima no economist, sobre a prática da mentira absurda, bobageira falada a esmo, para confundir e gerar cizania de todo tipo, prática que Trump usa e abusa, na matéria eles tratam como um fenômeno novo como arma política, percebo que essa prática, tornou típica a movimentos caricatos incluindo o “sul é o meu país” e outros balaios intolerantes pelo mundo, escutar as abobrinhas desse povo é um festival de conceitos tolos e infantis, que a vergonha alheia estende até ao receptor crédulo

    • 05/10/2016 at 14:44

      Tony acho que voCê não entendeu a força das ideias, inclusive as tolas.

    • LMC
      06/10/2016 at 11:40

      E vem o Contardo Calligaris hoje
      na Folha escrevendo que Hillary e
      Trump são a mesma coisa.
      Graças ao Berlusconi,a Itália
      emburreceu,mesmo.Rarará!!!!

  2. LMC
    05/10/2016 at 11:07

    Lembra do que houve na Escócia,
    PG?Achavam que a maioria queria
    independência,mas a maioria
    quis ficar com a Grã-Bretanha.

    • 05/10/2016 at 11:11

      Maioria não conta nada para um filósofo. O que conta para um filósofo são as consequências das ideias.

  3. Erik Kierski
    05/10/2016 at 10:38

    Esses dias li o manifesto do movimento, e o pior é que passa a impressão de seriedade, com boas causas e sem prerrogativas preconceituosas, até mesmo com um embasamento historiográfico razoável. Depois de ler, pensei que mesmo se os idealizadores fossem sérios (não sei se são), atraem muitos grupos de extrema direita que aderem por causas próprias e mesquinhas, como o preconceito e o ódio. Nesse caso, seria necessária uma atenção maior dos idealizadores a esses pontos de ódio, porém, será que o movimento existiria sem eles? E mesmo que houvesse maior adesão devido a problemas econômicos e políticos, economistas e cientistas políticos apontam muitos problemas, tanto para o Brasil quanto para o Sul. Assim, fica a questão: se, apesar desses problemas, o movimento continua crescendo, qual seria o motivo? Esperança ou ódio?

    Enfim, é um assunto complicado, e obrigado por fornecer mais elementos para pensá-lo!

    Abraço!

  4. Afonso
    05/10/2016 at 10:29
  5. Maximiliano Paim
    05/10/2016 at 08:09

    Já fui a favor deste movimento, mas hoje sei que ele não tem nada que me atraia. Só fazendo uma correção, a mente brilhante que pensou esta aberração é de um deputado estadual de Santa Catarina.

    • Robson de Moura
      06/10/2016 at 11:20

      Maximiliano, o catarinense do interior (assim como o paranaense do interior, o matogrossense do interior e etc) vive a cultura gaúcha. Tomam mate, vão a CTG’s, falam ‘tchê’, torcem pro Inter ou oro Grêmio, ouvem música tradicionalista… são muitos os signos gaúchos que eles vivem. O fato de o sujeito que você citou ser catarinense nao inviabiliza a leitura gaúcha do movimento.

  6. Adelicio Pezenti Colodel
    05/10/2016 at 08:08

    bravos …. Sucessos ……

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *