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23/10/2017

O senhor Lula da Silva, quem é ele?


Lula, nossa mãe, nossa Geni e nossa camisa de força manicomial

Quem é o novo Lula? Há um novo Lula na praça? Mais ou menos. A tática é a mesma de após 2005, depois do “mensalão”, mas o discurso se tornou agora quase uma pastiche do que era apenas uma meia falsidade.

A ideia petista que funciona azeitada na cabeça de Lula e de boa parte da cúpula da campanha “Lula 2018” é a seguinte. Por um lado o governo, com a frente sisuda de Dilma, afirma que a limpeza na Petrobrás é obra do próprio governo e que ninguém fez isso antes. Mentira? Não, meia verdade ou até mais que isso. Por outro lado, Lula (e a cúpula do PT), detentor de um rosto de homem de esquerda bem votado, afirma que há no ar uma “criminalização da política” nas entrelinhas das investigações da Petrobrás. Forças conservadoras quase que como “forças ocultas” de Jânio (o “poder da Globo”?, a “revista Veja”?, o “Capital internacional” que não deixa Safatle e Luciana Genro fazerem sexo?, “as elites”?) estariam enfraquecendo a Petrobrás para privatizá-la! (ué, o governo não é do PT?) e ao mesmo tempo fazendo uma acusação a todo tipo de político (Lula generoso: mostra-se altruísta e protegeria agora até Aécio, que está na mira das denúncias!). Desse modo, se a Polícia Federal faz uma devassa, por ordem de Dilma, deve haver também a percepção, por parte do partido e dos militantes, de quanto isso pode ser “instrumento” de uma criminalização geral que, na fala de Lula, seria como a que ocorreu na Itália: ele chega a dizer, sem ficar vermelho de vergonha (mas apenas vermelho mesmo, como de costume, por obra líquida e não ideológica), que depois da Operação Mãos Limpas na Itália “tudo terminou em Berlusconi”. É como se avisasse a militância: “Lava Jato” pode continuar, mas se tivermos de parar para que não tenhamos “golpe” de direita, gente de direita no governo, estaremos prontos. Ou ainda, no pé de ouvido: se a coisa levar mais gente para o fosso de Zé Dirceu de modo que um Barbosa possa enrabar mais ladrões nossos, já estamos preparados.

Todos devem estar alertas, até a beleza da silenciosa mulher do Temer pode a qualquer momento ter de se sacrificada!

Esse discurso pode parecer esquizofrênico. Mas justamente por isso, ele tem força. Não se conquista a cabeça de militante político extremado, que é o que faz campanha e por isso tem de estar no cabresto, se não se age com ele igual a direita faz com e por um Reinaldo de Azevedo, um Lobão e coisas do tipo, soltas por aí babando de modo nojento. O cérebro desse tipo de gente funciona por palavras de ordem desconexas e pela amarração de tudo segundo uma teoria da conspiração. Lula sabe fazer isso. Brizola e Jânio sabiam fazer isso. Aliás, foi com eles que Lula aprendeu a fazer da Rede Globo uma “inimiga do povo” por conta de ser uma suposta inimiga dele, Lula. O militante petista nunca percebe o jornalismo do jornalista, mesmo quando este desvenda as falcatruas do adversário dele. Age igualzinho a direita. A direita também faz isso, chama a Rede Globo de imoral e de manipuladora também! Lula conquista o eleitor do Jânio, do Brizola, e por isso se aliou a Maluf. O populismo de esquerda pode abrir leques à direita. Claro! A personalidade de Lula dá para todos os gostos. Até para o liberal que irá dizer que Lula  venceu “mesmo sendo operário”. Ou para o fracassado que irá dizer que Lula não tem escola. Ou para o ladrão que vai dizer que Lula faz e, portanto, pode roubar. Ou para intelectual universitário que diz que Lula “segura a direita” (ora, segura para que?). Lula é pau para toda obra. Mas a única obra que traça, desde 2005, é a sua própria.

Esse novo Lula é a síntese que vai de Ulisses Guimarães até Brizola passando por Jânio e deixando o cheiro de enxofre da batalha entre Lacerda e Vargas. No escuro lembra até de Quércia! Lula é a maldita reedição dos anos cinquenta em um país que ele prometeu que iria fazer política acima daquela feita por aquele tempo triste. O “novo movimento operário” dos anos 80 do Grande São Paulo produziu um pum, algo saído, dizem alguns, da bunda do Delfin Neto. Gente como Weffort e Hélio Bicudo há muito desistiram desse cheiro. Gente como Plínio Sampaio também. As opções deles não foram boas, eu acho. Mas a minha é melhor? A minha é a de não conseguir votar desde 1989.

Lula é um gênio da política. Vai durar enquanto tiver gente esfregando a lâmpada. Vai durar mais enquanto a cabeça do militante de esquerda foi igualzinha a do leitor da Veja, invertida.

Paulo Ghiraldelli, 57, filósofo.

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17 Responses “O senhor Lula da Silva, quem é ele?”

  1. Ex neoquibe
    24/03/2015 at 23:57

    Querido Paulo, gostei do texto.
    Estou até ficando ideologicamente mais crítico. Também estou evoluindo: não vou precisar ler o texto 10×10 vezes para entendê-lo.
    Abraços

  2. Carlos Bengio Neto
    28/02/2015 at 19:25

    Ótimo artigo: Uma instigante descrição do cinismo politico nessas terras.

  3. marcos vasconcelos de lima
    28/02/2015 at 17:37

    Caro Paulo, gostaria que vc publicasse um artigo sobre a delação premiada. O sujeito comete crime, e para reduzir sua pena, receber benesses da justiça, dedura os “amigos”. Eu fico então com uma interrogação: o sujeito está do lado da justiça? Ele, então é “justo” para com seus pares

  4. Idália
    27/02/2015 at 12:24

    Parabéns Mestre! É por isso que sou sua fã!

  5. alexandre
    27/02/2015 at 11:50

    Antes de ler o seu texto eu estava pensando o motivo pelo qual o Lula é o filho da puta, ladrão, pai do dono da friboi e ao mesmo tempo pai dos pobres, estadista e bla bla bla, ou seja o Lula é para o bem e para o mal uma pessoa essencial e atende a diversos publicos.
    Eu não entendo pq não temos no nosso pais novas lideranças, com ideias novas, sem agremiações que possam trazer um frescor a nossa politica e também trazer novas ideias, sera que o Brasil é apenas feito do PT x PSDB e o PMDB como o partido bipolar?

    Gostaria de acrescentar a sua lista de cachorro doido composta pelo Lobão e Reinaldo Azevedo (esse é uma figura), um outro bem engraçado, o Marco Antônio Villa, ele espuma quando fala do Lula e do PT é bem engraçado.

    • 27/02/2015 at 13:05

      Alexandre como que não temos algo novo na política? Lula foi o novo. Sua imagem velha, populista, é nova também. Para ele.

    • LMC
      28/02/2015 at 15:32

      Alexandre,o Villa não é como
      o Reinaldo.É um “mariocovista”
      assumido.

  6. RAFAEL MARQUES
    27/02/2015 at 00:10

    Seus textos estão devolvendo minha sanidade teórica depois de um 2014 sedutoramente ideológico.

    Material muito bacana para refletir Paulo!

    • 27/02/2015 at 07:44

      Rafael o trabalho do filósofo é o de não ter medo de não dourar pílulas.

  7. José
    26/02/2015 at 21:19

    Se sente decepcionado pelo que poderia ser o Lula? Infelizmente parece que a cooptação foi levada a um nível não desejável, ou seja, perdeu aquela identidade de transformação e caiu no vazio de mudanças que é o Brasil de hoje.

    • 26/02/2015 at 23:13

      José a política é isso. Tonto quem tem esperança com política.

    • Afrânio
      26/02/2015 at 23:51

      Então, não há saída?

    • 27/02/2015 at 07:43

      Afrânio, não sou político, não sou militante, e meu artigo é uma peça descritiva feita por um filósofo que não precisa dourar pílula. Agora, saída? Saída de onde?

    • João Pedro
      02/03/2015 at 10:53

      Afrânio, o Paulo não disse que não há esperanças, só falou que não devemos idealizar a política.

    • 02/03/2015 at 15:47

      João Pedro, filósofos deixam as esperanças para cada um. Tenho medo um pouco de enfiar minhas esperanças de modo que outros fiquem com elas,não com as suas próprias.

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