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18/12/2017

O que ocorrerá no Brasil do Impeachment?


Não usamos a palavra “Impedimento”, mas o termo vindo dos Estados Unidos, “Impeachment”. O termo ficou popular por causa do afastamento do presidente Nixon. Nós o utilizamos na época do afastamento de Collor. 

O uso do termo em inglês não é apenas macaquice nossa, como diriam os argentinos a respeito de nosso eterno comportamento de copista de americanos. Afinal, como eles se imaginam europeus, nos enxergam mais como colonos. O termo tem a ver com a própria dinâmica de nossa democracia. Cada vez mais miramos, queiramos ou não, na democracia americana, e menos nas nossas inspirações francesas do passado. Ainda que nossa esquerda e nossa extrema direita não gostem da “América”, o fato é que desde os anos oitenta nossa política social deixou de lado a exclusividade da pauta da social democracia europeia, voltada para a salvação dos pobres. Incorporamos valores da democracia americana. Trouxemos para nós o ingrediente conservador exacerbado das privatizações (segundo a doutrina Reagan), mas também, e com peso, a agenda liberal da proteção e promoção de minorias, vinda da doutrina do Movimento dos Direitos Civis que, enfim, deram o excelente fruto chamado Obama.

Nos Estados Unidos essa dualidade se fez presente não só pela política, mas também de modo culto, por meio do debate filosófico Nozick versus Rawls. Entre nós esse debate não ocorreu, juntamos as coisas segundo parâmetros que já possuímos: a direita com um uma colcha de retalhos e informações disparatadas, a esquerda com manuais de marxismo-leninismo na mão. Não ficou bom, confesso. Mas é o que temos.

Nesse clima de adaptações, nosso partido social democrata virou liberal-conservador, perdendo sua característica efetivamente social democrata que, segundo seu presidente de honra, Fernando Henrique Cardoso (que já foi o príncipe da sociologia brasileira), é ainda a que ele segue, ou seja, a de  Bill Clinton! No entanto, para consumo interno, FHC no governo ficou é muito mais parecido com Reagan. Por sua vez, o PT então assumiu a pauta social-democrata europeia, e incorporou dos Estados Unidos a defesa e promoção das minorias. O feminismo e os movimentos sociais étnicos e outros cresceram no partido e, hoje, são ainda o gancho que fazem muitos tolerarem as mentiras de Lula e Dilma e ainda estarem próximos às diretrizes petistas. Ou seja, muita gente não sabe ser de esquerda sem o PT. Esse partido, por sua vez, conta com a chantagem para fazer sua ex-base voltar a ser base, quando precisa ganhar eleições ou, agora, se livrar do Impeachment.

Impeachment: eis aí uma forma do clima eleitoral voltar à tona, bem antes das eleições. O que veremos daqui por diante é uma batalha de tapetão junto com gritaria de todo lado. Mas, também, uma batalha de rua e de Internet, e do que restou da “grande mídia” (sim, digo o que restou – a “grande mídia” está com os dias contados). Não haverá nada que não mentira, propaganda e apelo emocional de todos os lados. Nixon mentiu à nação, Collor enganou a nação, Dilma mentiu à nação. O Impeachment está ligado ao problema do Pinóquio. Mentir com emoção, com ideologia no meio, é a especialidade de uma pessoa no Brasil: Lula. Se o debate se ideologiza, ele cresce. Pois ele consegue fazer toda a esquerda se calar e vir comer na mão dele para poder se manter como esquerda. E nós bem sabemos o quanto o brasileiro precisa de uma esquerda.

Os ricos gostam de monopólios e não do que dizem, isto é, liberalismo. Lula gosta do monopólio de defesa dos pobres e minorias. Ele se vê não como o político moderno dos anos oitenta, como de fato foi, mas como um arremedo de Vargas-Brizola-Jânio. Caso Lula consiga transformar Dilma em vítima de um notório bandido chamado Cunha, o que não é difícil, logo a tese do Impeachment não ganhará as ruas e, não ganhando as ruas, não ganhará o Congresso.

A Folha de S. Paulo hoje (03/12), um dia após o anúncio do Impeachment, deu a deixa na sua manchete. Ao invés de falar que Cunha aceitou o pedido de Impeachment, preferiu uma expressão interpretativa: “Cunha retalia PT e acata pedido de Impeachment”. Ou seja, a Folha preferiu anunciar aos paulistas, justamente aos paulistas, como jornal liberal que é, que o Impeachment não é o do Collor ou do Nixon, é sim um problema de chantagem que um homem quer impôr para se salvar. Lula pode pegar a deixa, mesmo agora, que anda meio sem crédito.

A metafísica do Impeachment é sem dúvida mais interessante que o Impeachment. Ela nos mostra que a palavra detém uma certa substancialidade sem qualquer materialidade, e que sua materialidade pode ser conseguida depois, caso acreditemos na sua substancialidade. Lula tem agora que desfazer a substancialidade. Tem que seguir no rumo da manchete da Folha e desinflar o balão.

Paulo Ghiraldelli Jr., 58, filósofo.

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28 Responses “O que ocorrerá no Brasil do Impeachment?”

  1. Renato Burin
    05/12/2015 at 18:57

    Eu já saquei desde a Copa da FIFA aquela organização criminosa. A Dilma, assim como o Lula, se vendeu em 2014 e agora quer privatizar o país tal como FHC nos anos 90, sacou? Então é isso, espere para ver em 2016. Tudo para se manter no poder!

    • LMC
      07/12/2015 at 10:45

      Imaginem se a Vale e a Telebrás não
      fossem privatizadas….Teriam o mesmo
      destino da Petrobrás:saqueada,roubada
      e (quase)na lona.

  2. Capataz
    04/12/2015 at 15:56

    Como vc pode defender essa mulher? Eu não acredito nisso!Fanfarrão.

    • 04/12/2015 at 16:56

      Capataz, você sempre com medo de colocar seu nome e sempre não conseguindo entender artigos bem simples. Você nunca pensa em se matar? Pensa assim: “assino ‘capataz’, ou seja, pau mandado, tenho medo de falar em meu nome, e sempre leio e não entendo, vou me matar”. Pensa assim, será melhor. Sua mãe ficará feliz, aposto.

    • Capataz
      04/12/2015 at 18:06

      Se esqueceu que eu sou o Capataz?!
      Ele executa, ele é macho e diz na cara, não é um fanfarrão !

    • 04/12/2015 at 18:33

      Sim,capataz, exatamente isso: há o patrão que manda e o capataz que obedece, com o rabinho no meios das pernas: você. O pau mandado. Só que no seu caso, sem nome, sem rosto. Por quê? Vergonha de ser você mesmo. Já imaginou um cara que tem vergonha de si mesmo? Conhece um covarde maior? Não tem. Por isso, não lhe dou atenção. Só de vez em quando, quando você chora muito. Um Rodrigo? Um … ha ha ha. Um filho de mãe que foi pega pelo Zica Vírus.

  3. roberto quintas
    04/12/2015 at 12:18

    Não se usa “impedimento” porque irão confundir com a regra do futebol. No entanto, há um parâmetro entre ambos: há o uso do árbitro. Não há o domínio do fato, tal como na Inquisição, a suspeita é a evidência suficiente de culpa.
    Há uma certa contradição ao se dizer em monopólio em defesa dos pobres e minorias. Os movimentos sociais estão aí, cada setor é autor de sua luta e empoderamento. Sem o esforço pessoal dos beneficiados pelas politicas sociais, nenhum programa social [inclusive os de autoria dos setores privados] funcionaria, mas vemos o crescimento da inclusão social e a diminuição das circunstâncias que [re]produzem a pobreza.

    • 04/12/2015 at 12:26

      Roberto os movimentos sociais não estão “aí”. Nada está “aí”. As coisas estão aí quer dizer, no sentido melhor: estão no mundo e são o que são por conta do mundo. Não há movimentos sociais de um lado, isolados, sem líderes que querem monopolizá-los, se houvesse essa possibilidade de pureza, a doutrina filosófica do substancialismo seria vigente, mas já não mais acreditamos nisso.

  4. Pedro
    03/12/2015 at 23:47

    Perfeito. Só é preciso deixar mais claro quem está a favor do governo Dilma e quem está contra, neste momento.

    A favor: os grandes bancos, os empreiteiros, as elites sindicais, as igrejas evangélicas, a Rede Record, a Rede Globo, o SBT, o PMDB, o Collor, o Renan, o Jader, o Sarney, o Maluf… (sem falar das elites acadêmicas, isto é, os burocratas disfarçados de professores universitários que escrevem artigos no jornais e dão entrevistas na TV).

    Contra: 90% do povo brasileiro, segundo as pesquisas…

    • 04/12/2015 at 01:09

      Pedro, para um filósofo a ideia de contra e a favor é coisa de jornal. Não importa muito.

  5. José Silva
    03/12/2015 at 19:02

    Se a Dilma cair, vai ser pênalti pro Corinthians?

    Do jeito que o Brasil é louco, Dilma sai, e o Lula volta em 2018.

    kkkkkkk

    • 04/12/2015 at 01:14

      José Silva, as coisas não estão engraçadas. Só você está rindo. Talvez só você esteja certo em rir, embora Lula 2018 não volte se ele continuar na toada que vai, apostando que é Deus.

  6. Guilherme Picolo
    03/12/2015 at 16:20

    O quadro que vejo é o seguinte:

    1- A prisão de Delcídio, Zé Dirceu e mesmo dos empreiteiros instalou um clima de “salve-se quem puder” no PT.

    2- Lula apresenta um calcanhar-de-Aquiles fácil de atacar, que diz respeito à sua “famiglia”. Se confrontado, vai gastar o que restou de seu prestígio para preservar os filhos, como de fato tem feito…

    3- Apoiadores do impeachment poderiam utilizar a crise econômica como argumento infalível para obter apoio popular e legitimação extraordinária do processo. Ainda que seja jogo sujo, as palavras desemprego, inflação e pobreza têm forte apelo para derrubar qualquer governo, em qualquer lugar.

    4- Infelizmente, a oposição é muito tosca: metade (Caiado e cia) nunca leu Maquiavel; e a metade mais intelectualizada (PSDB) é composta de gente covarde: eles não vão pra briga, seu negócio é bater em aluno e professor desarmado.

    5- Assim, o PT e seus sindicalistas de língua-presa estão a salvo para continuar roubando à vontade…

    • 03/12/2015 at 16:22

      Picolo, Impeachment não é o caso. Não mesmo, a base legal do Hélio Bicudo, ele sabe, é frágil.

    • Print Screen
      03/12/2015 at 17:03

      Esse Clima Fla-Flu que caminha a discussão política no Brasil, atrapalha muito. Identificaram um inimigo, e argumentam seletivamente, contra. O As eleições aconteceram há menos de 6 meses, a Presidente não está impedindo as investigações policiais sobre o caso da Petrobrás, não há provas concretas de seu envolvimento com qualquer caso de corrupção e as medidas de austeridade econômica e social que estão sendo tomadas pelo governo seriam adotadas por qualquer outro político responsável que estivesse no cargo.

    • 03/12/2015 at 17:07

      Osso de galinha esse papo seu é chato, acrítico.

    • Guilherme Picolo
      03/12/2015 at 21:26

      Bicudo é perfeccionista do ponto de vista técnico; não tive acesso à peça dele, mas é improvável que um jurista desse gabarito tenha encaminhado um pedido sem fundamentação legal precisa.

      Mas eu concordo que o caso não é o impeachment. Agora que o país está quebrado (2016 será um ano pavoroso segundo os economistas), o melhor castigo para Dilma é completar o seu mandato.

    • 04/12/2015 at 01:13

      Picolo acho que você não está familiarizado com “lei”. Experimente pegar cada lei e ver as interpretações do juristas.

    • Guilherme Picolo
      04/12/2015 at 09:57

      Infelizmente, a maioria das interpretações dos juristas publicadas sobre o tema tem viés ideológico, a começar pelo Dalmo Dallari. Hoje vi o advogado-geral da União, Adams, dizendo que o pedido é um absurdo porque “veio num momento de crise, em que o país busca a estabilidade política”. Ora, isso lá é fundamento jurídico?

    • 04/12/2015 at 10:54

      Picolo você não me entendeu, eu disse qualquer lei.

    • 04/12/2015 at 10:54

      Picolo você não me entendeu, eu disse qualquer lei.

    • LMC
      04/12/2015 at 10:16

      Picolo,o Safatle e os puxa-sacos
      do Nassif e do Haddad estão
      adorando ver os estudantes e
      professores irem contra o PSDB
      em SP não porque querem
      uma Educação melhor mas
      pra ver o circo pegar fogo e o
      palhaço virar torresmo.

  7. ekos
    03/12/2015 at 15:56

    Não vai ter Golpe!

  8. ekos
    03/12/2015 at 13:45

    Lula vem aí e vai retomar aquele movimento que deu as bases populares para o PT chegar o poder.

  9. NOBEL
    03/12/2015 at 13:40

    Bom post. É engraçado que tanto a manchete da Folha e do O Globo são as mesmas.

    • 03/12/2015 at 15:58

      Nobel, claro, o Cunha consegue irritar todo mundo.

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