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16/07/2018

O que é ser marxista e o que é ser liberal? Qual a utilidade disso hoje?


[Artigo destinado ao público em geral]

O título aí peca pela não simetria. Uma construção de equivalências semânticas deveria contrapor “liberalismo” a “socialismo”. Ou então por Marx contra Smith ou Marx contra Nozick, ou até mesmo contra Rawls ou Dewey. Mas as coisas historicamente não deixaram tudo correr como na geometria. A crítica de Marx ao liberalismo foi tão forte, bem estruturada e mordaz que o “marxismo” acabou ficando ele próprio como sinônimo de contraponto às doutrinas liberais. Uma antonomásia histórica!

O liberalismo atualmente não precisa mais ser construído. Não precisa mais ser propagandeado. Os que se dizem liberais, atualmente, não tem nenhum valor intelectual e, de certo modo, são pessoas que perderam o pé e a noção de onde vivem. Não se diz “sou um ser humano vivo”. Como não seria? Afinal, zumbis não ficam falando “sou um ser humano morto”. A democracia liberal é o ideal, o real e o racional do Ocidente. Discordar dela é menos que pecado e mais que loucura. É uma inocuidade. Quem chegaria em um local qualquer hoje e diria “não quero viver numa sociedade de mercado”? Ninguém daria atenção a uma tal pessoa. Aliás, fora da Universidade, ninguém de fato dá atenção a uma tal pessoa. Por isso mesmo, se alguém diz que “ser revolucionário hoje é ser liberal”, está falando alguma coisa que revela ou incultura ou debiloidismo ou pagamento.

Por sua vez, o marxismo é ainda a grande fonte de contraponto do liberalismo. Mas, por conta de que a sociedade de mercado é símbolo de Deus, pois o demônio fracassou com o socialismo, é difícil não ter que levar em consideração que pensar para além do liberalismo é pensar em sua variantes, não na sua antítese. Assim é que, num livro como Filosofia política para educadores (Editora Manole), falei antes de Nozick, Dewey, Rorty e Rawls do que de outros autores. Em um manual “de ocasião” o correto é falar sobre o que se está falando na praça. É mais importante o debate hoje entre liberais e comunitaristas que qualquer outro debate no âmbito da política americana. E isso tem uma influência enorme, ainda que não decisiva, na política europeia. Por isso, logo depois, escrevi sobre Sloterdijk (Dez lições sobre Sloterdijk, Vozes), um alemão que ama a França e que sabe receber ares dos Estados Unidos. Um crítico do estatismo que não cede à direita dita neoliberal.

Mas, se é assim, no que Marx ainda nos é útil? De tudo que Marx falou em termos de política, nada há mais nele que precise dele. Os seus dizeres estão difusos e incorporados nas ciências sociais e na filosofia social tanto quanto o freudismo se fez presente na psicanálise e até em certo tipo de senso comum. Mas há algo em Marx que é só dele. Rorty diz que se trata, nesse quesito, de uma particularidade que só professores de filosofia levam em consideração. É que a crítica legítima ao liberalismo, propondo várias formas de atenuação do caráter predatório que, todos sabemos, em parte é propriedade do capitalismo, são todas elas variantes do próprio liberalismo. Mas há uma visão crítica da sociedade liberal que pertence ao marxismo, amada pelos radicais do pensamento universitário. Trata-se da ideia filosófica de que podemos viver fora da Caverna, ou que temos condições de encontrar Deus e então “tudo se esclarecerá”. Ou se vai por Platão ou se vai por Santo Agostinho, o destino é encontrar a Verdade. Na conta de Marx, trata-se de se livrar do mundo do mercado, da mercadorização, que gera o “fetichismo da mercadoria” e a “reificação dos homens”, a base de dois pilares de algo chamado “alienação” – a capa de ideologia dominante que é a ideologia da classe dominante, e que domina a todos, inclusive os dominantes.

Marx é o único a postular uma tal tese. Todos os outros pensadores exclusivamente políticos, críticos do liberalismo, não pensaram nisso. Marx assim pensou porque veio do âmbito da filosofia clássica, com a promessa platônico-agostiniana de redenção, ao encontro com a clarividência que é a derrota de toda a ideologia. O marxismo nunca foi outra coisa que síntese de romantismo e iluminismo: iluminismo radical em busca de condições possíveis, os limites românticos. Um mundo sem mercado é o mundo filosófico par excellence. A revolução filosófica é, então, uma revolução real, econômica e política. Nessa perspectiva, a realização da filosofia não é um ato de escrita ou pensamento, mas um ato de instauração do comunismo. Lênin se achou ele próprio filósofo, exatamente nesse sentido. Há uma sabedoria nisso, e é nisso que Hegel foi criticado por Marx e Engels, pois ele acreditava na revolução do Espírito, sendo os filósofos, claro, dos arautos deste.

Exceto professores de filosofia que reclamam do mercado, ninguém toma o marxismo por essa via. Ninguém mais o leva a sério senão como … filosofia. Tomam o marxismo no que ele tem de prático cotidiano, na sua luta por se inserir entre as várias vozes que não querem o afastamento do mercado, mas o afastamento da desigualdade que as impede de entrar no mercado. Ou seja: somos todos social-democratas. Só professores de filosofia marxistas são marxistas – ao menos dizem. Na prática, claro, também eles estão adoidados nos shoppings da vida, tentando de toda maneira deixar que a alienação os consuma. E haja salário para tal!

Precisamos de filosofia marxista? Sim! A ideia de que podemos criticar a sociedade de mercado é uma boa ideia. Sem ela, não podemos pensar segundo o que é o Pensamento: a ousadia de imaginar o que não se pode imaginar. Mas precisamos de política marxista? Ora, se for feita por professores de filosofia, duvido. E se estes se viram políticos, menos ainda. Essa gente, sabemos bem, adora uma guilhotina solta por aí, tanto quanto os anti-marxistas colunistas de jornais.

Paulo Ghiraldelli Jr., 60, filósofo.

 

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5 Responses “O que é ser marxista e o que é ser liberal? Qual a utilidade disso hoje?”

  1. W.Klaiton
    09/05/2018 at 14:57

    Professor Paulo, como tenho aprendido neste blog lendo seus textos. Estou no doutorado em Geografia, sei que o espaço aqui não é para perguntas pessoais, mas preciso de sua orientação filosófica, o que você sugere, no que se refere a referências e autores para compreender o cooperativismo em Goiás nos dias de hoje?

    • 09/05/2018 at 19:09

      Klaiton preciso saber do que se trata o “cooperativismo em Goiás”. Pode me escrever.

  2. Ivan Lima
    05/05/2018 at 20:51

    Parabéns Paulo, gostei e me identifiquei com seu texto.

  3. Ariel Lázaro
    04/05/2018 at 20:19

    Poucos conseguem abordar um tema tão espinhoso sem recair em reducionismos e ideologia barata. Excelente artigo

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