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18/11/2017

O que é em política direita e esquerda?


Direita e esquerda são posições políticas originárias do lugar ocupado nas cadeiras da Assembleia Nacional Constituinte francesa, no tempo de Luís 16, os anos finais do século XVIII. Os representantes dos nobres, burgueses ricos e elementos do clero ficavam à direita. Eram os que não queriam grandes alterações na ordem social e política, que os beneficiava por meio de um sistema de privilégios institucionalizados pelo estado.

Os representantes da pequena e média burguesia e de pessoas simpáticas a tais setores ficavam à esquerda. Eram os que desejavam o fim dos privilégios e uma reforma política e social que, segundo eles, tiraria a França da crise em que se encontrava, e em função da qual o rei havia convocado a Assembleia Nacional Constituinte.

Com o tempo e por influência cultural e política da França, essa terminologia tipicamente francesa ganhou o mundo, sendo adotada inicialmente pelos jornais e, depois, pela mídia em geral. Desse modo, historicamente a expressão “direita política” passou a identificar o partido dos economicamente privilegiados, enquanto que a expressão “esquerda política” ficou como o partido dos menos privilegiados. Na base disso fixou-se a questão da hierarquia. A direita sempre acreditou no mérito do sangue (nobres, decadentes ou não) e no mérito do dinheiro (alta burguesia), a esquerda sempre achou que as hierarquias, se deveriam permanecer, teriam de ser meramente intelectuais – daí a esquerda sempre defender sociedades mais igualitárias economicamente para que até os mais pobres pudessem estudar e ter as mesmas chances dos mais ricos ou mais poderosos de ocupar cargos públicos e privados de realce etc.

Assim, em termos históricos, direita e esquerda não se definiram inicialmente pelas relações entre indivíduo, sociedade e estado, como em geral tendemos a pensar hoje em dia, mas segundo uma divisão entre a “política dos ricos” e a “política dos pobres”, ou de modo mais básico: a política de respeito às hierarquias e a política de diminuições de hierarquias de origem não intelectual. No entanto, na política europeia (os Estados Unidos são um caso que deve ser analisado separadamente), os ricos diziam preferir um estado que viesse a garantir certos serviços essenciais, mas sem interferir muito diretamente nas forças econômicas e principalmente no mercado. Por sua vez, os pobres queriam auxílio compensatório, tirados de todos por meio de impostos e administrados pelo estado, para a amenização dá má sorte na loteria do nascimento e, assim, diminuir hierarquias de sangue ou dinheiro.

Desse modo, a direita ficou sendo uma posição alheia ao crescimento do estado diante da sociedade, enquanto que a esquerda se tornou uma posição de endosso da maior participação do estado na vida social. A democracia liberal ficou sendo a direita, enquanto que as posições ligadas à social-democracia se mostraram como sendo a esquerda.

No decorrer do século XX, fenômenos ligados ao imperialismo alteraram um pouco esse quadro. Alemanha, Japão e Itália desenvolveram um desejo de participar do comércio internacional de forma imperialista, mas esse tipo de posição já tinha dono. Inglaterra, França e, de certo modo, os Estados Unidos já haviam repartido o mundo em três, exercendo toda forma de neocolonialismo. A ideia que Alemanha, Japão e Itália tiveram, então, foi uma só: quebrariam a ordem liberal interna de seus estados e os colocariam em função de algumas empresas de alguns grupos de pessoas ricas, e assim fazendo teriam empresas poderosas, capazes de competir com aquelas exclusivamente privadas das democracias liberais. Além disso, sempre pensando que talvez não pudessem competir de igual para igual, esses países se militarizaram e quiseram abrir espaço para o comércio com os povos neocolonizados na base da força. Iniciaram então a invasão de países próximos, em busca de um confronto direto com aqueles que então dominavam comercial e industrialmente o mundo. Isso resultou na II Guerra Mundial.

Nasceu dessa posição militarista aquilo que veio a se tornar genericamente a “política do fascismo” – o suprassumo da hierarquização não pelo mérito intelectual, mas por suposta superioridade racial perante outros povos, e por devoção ao partido diante de situações internas. Uma potência fascista, então, passou a ser aquela constituída como um estado totalitário militarizado, protetor das empresas capitalistas e empresas estatais de seu país, baseado em uma hierarquia de poder e privilégios, dos quais participariam não todos os ricos, mas especialmente aqueles que fossem simpatizantes do governo fascista, comandado por um ditador. Esse tipo de posição assumiu-se como “de direita” ou, melhor dizendo, de “extrema direita”, é claro, uma vez que se tratava de exercer uma política voltada para os setores dominantes (ricos, ou pobres – em geral típicos ressentidos – trazidos pela força do partido)  e ao mesmo tempo para o estado, sendo que este se punha como protetor e protegido desse grupo social, ainda que, é claro, se proclamasse protetor de toda a nação.

No século 20, antes mesmo do surgimento do fascismo, a esquerda também ganhou uma vertente totalitária. A social-democracia defendia a participação do estado na economia em função da melhoria da vida dos mais pobres. Trabalhava, no entanto, com a perspectiva de reformas que apontavam para uma sociedade socialista, assumida como um objetivo posto em um horizonte distante, às vezes quase assumidamente utópico. Um setor da esquerda chamou a esse tipo de política de “projeto reformista”, e acusou-o de ser incapaz de realizar o socialismo (o regime que encaminharia para o comunismo, com o fim das classes sociais). Aliás, esses dissidentes passaram a dizer que a social-democracia nem mais queria o socialismo, mas apenas o próprio capitalismo continuamente reformado. O socialismo, ainda segundo esses dissidentes, teria de vir por meio de uma revolução que colocaria toda a economia nas mãos do estado, de modo que este, então, organizaria a produção, a circulação e o consumo. Além disso, o estado retiraria os meios de produção das mãos dos ricos, e com isso iniciaria a transformação de toda a sociedade em uma “nação de trabalhadores”. Sendo todos só trabalhadores, não haveria mais sentido falar em classes sociais, e eis que se estaria aí já no interior do socialismo. A mundialização desse processo eliminaria as classes sociais de todos os lugares, os poderes organizativos de cada estado se tornariam poderes regionais de um só grupo – a humanidade – e isso implicaria no fim dos estados nacionais. Estar-se-ia, então, no comunismo. A isso se chamou projeto da “extrema esquerda”.

Esse Estado socialista que estaria se encaminhando para o comunismo, exerceria uma ditadura transitória, revolucionária (a “ditadura do proletariado”), para poder retirar à força os meios de produção de seus donos. Feito isso, esse estado iria se encaminhando do socialismo para o mundo do comunismo. Ao menos nas vozes de seus progenitores, essa situação intermediária, e muito menos a situação final, não se configurariam como regimes totalitários. Ao contrário, o comunismo seria o regime da mais alta e perfeita democracia, ainda que uma democracia estranhamente sem política.

Não havendo mais ricos e pobres não haveria sentido falar em partidos ou divergências internas em uma tal sociedade e, portanto, o termo “política” perderia o sentido, pois não haveria mais uma disputa de poder, e sim uma forma de organização colaborativa entre os trabalhadores internos a uma burocracia organizativa e os trabalhadores internos às fábricas e fazendas.

Dito tudo isso acima, o que se pode concluir?

Uma conclusão importante: é uma tolice dizer que não existe direita democrática ou esquerda democrática. Liberais democratas são, em princípio, democratas. Social-democratas são, em princípio, democratas.

Segunda conclusão: não é nada bom tornar direita e esquerda posições indiferenciadas quando optam por regimes não democráticos. É pouco inteligente apostar que direita e esquerda, ao se verem sob totalitarismo, terão igual funcionamento, ainda que, por causa do avanço do estado sobre a sociedade, as liberdades individuais padeçam nesses regimes, tornando-os insuportáveis.

A questão é que uma sociedade socialista não poderia ter hierarquias de tipo partidário, mas a instauração do partido único e de uma moral do trabalho acentuada instaurou novas devoções e, com elas, as hierarquias que se puseram bem longe da hierarquia pela competência. Assim, no seio da esquerda, ressurgiram hierarquias pouco justas, mas, claro, não do mesmo tipo das hierarquias do nazi-fascismo, que sempre foram, na base, de ordem sanguínea – o tal do mérito da raça pura. Assim, quando falamos em esquerda e direita, e nos referimos ao comunismo e ao nazismo respectivamente em posições extremas, temos sempre de nos lembrar que são regimes com horizontes opostos, o primeiro cultuando o igualitarismo máximo e o segundo impondo a ideia de raça pura e de hierarquias a partir dessa diferenciação racial.

*Paulo Ghiraldelli, 60, filósofo. São Paulo, 23/06/2017

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28 Responses “O que é em política direita e esquerda?”

  1. Orquidéia
    28/08/2017 at 08:40
  2. Dielson da Silva Evangelista
    23/08/2017 at 16:03

    O texto é ótimo, pena que não se aplica em nada aqui. O ESTADO BRASILEIRO É O VERDADEIRO CRIME ORGANIZADO, aqui a esquerda e a direita são a mesma bosta com moscas diferentes. A esquerda brasileira seria fuzilada instantaneamente na China ou Coreia do Norte. E a direita brasileira seria presa no EUA. INFELIZMENTE ESSE CRIME É LEGITIMANDO NAS URNAS A CADA DOIS ANOS.

    • 23/08/2017 at 22:10

      Dielson meu texto é para tirar pessoas do senso comum, como é seu caso. Esse tipo de crítica é mero senso comum. Tente sair disso. Aproveite o texto.

  3. 22/08/2017 at 08:13

    Talvez um de seus melhores textos.

  4. Fábio Fleck
    20/08/2017 at 02:09

    Excelente texto! E necessário! Principalmente para o momento atual!

  5. Bruno Zoca
    19/08/2017 at 11:44

    Realmente um texto ótimo, esclarecedor e de fácil compreensão. A direita jovem daqui tenta equiparar os dois regimes totalitários (Nazismo e Stalinismo/Socialismo) como sendo de um só espectro, o da esquerda, por essa ideologizar mais Estado. Esquecem as diferenças quando se trata de mais Estado ou menos Estado e para quem…

  6. Marcio Rodrigues
    24/06/2017 at 13:42

    ” Uma conclusão importante: é uma tolice dizer que não existe direita democrática ou esquerda democrática. Liberais democratas são, em princípio, democratas. Social-democratas são, em princípio, democratas.”
    Perdoe-me, mas esta afirmação so’ é possi’vel quando se abre-mão de ultrapassar a superfi’cie do que se ana’lisa, visto que se deixa de constatar que o Estado é constituido, organizado, particularmente no que se refere a Constituição e as leis, por e em função de atender aos interesses da classe dominante, no caso do capitalismo, a burguesia. Por ex., seja em um governo muito liberal, seja em uma social-democracia, ninguém é eleito sem dinheiro e sem o apoio midia’tico. E, como os detentores do capital e da mi’dia são os burgueses, além de serem eles mesmos os que definiram as regras da eleição (entre outras), DE FATO são eles que escolhem os que comandarão os Três Poderes. Enfim, é preciso superficialidade p dizer que existe democracia no capitalismo liberal ou social-democrata, ja’ que o conceito de democracia não pode ser reduzido ao ato de votar. Como o senhor não é superficial, qualifico essa sua falha como um lapso.
    Outro pequeno problema em seu texto é o significado atribuido à “utopia” . Grosso modo, ele passa a ideia de que uma utopia jamais poderia tornar-se uma “topia”. Ele coloca “utopia” como sinônimo de sonho, quando de fato a primeira exige uma base empi’rica, enquanto a segunda se contenta com o mundo das ideias : o avião foi uma utopia que virou topia, pular do décimo andar sacudindo os braços achando que vai voar, so’ é possivel no sonho. Esta distinção é importante pq deixa claro que o comunismo é algo via’vel e possi’vel.

    • 24/06/2017 at 17:41

      Márcio, a teoria do estado como “bureau da classe dominante” é de Lênin, ou popularizada por Lênin a partir de uma das concepções do estado de Marx. Há outras teorias. Portanto, não posso compartilhar com a sua ideia, que parte dela e a torna verdade acrítica.

  7. Elizeu Josias DE Souza
    09/02/2014 at 12:44

    Ótimo texto, especialmente a conclusão que foi bastante imparcial. Vou guardar esse texto para futuras consultas.

  8. Eduardo
    14/11/2013 at 15:04

    Parabéns pelo texto professor. Muito esclarecedor. 1) As políticas de inclusão social, que vêm sendo implantadas desde o fim do regime militar, são provenientes da própria Constituição Federal de 88 (Constituição Cidadã), que, pelo seu próprio conteúdo, representam todo um ideário de social-democracia. Então professor, a própria CF nos colocou numa situação de “esquerda” aqui no Brasil?
    1) Percebo muito a questão de que a classe média brasileira, que se julga ‘liberal’ e aceitadora da meritocracia, se enamora pelos regimes militares e autoritários, inclusive apoiando um próprio golpe militar para a retirada da esquerda do poder. Será que existem ainda verdadeiros liberais aqui no Brasil?

    • 14/11/2013 at 16:09

      Eduardo, não precisa chamar isso de esquerda, liberais como Rawls aprovariam isso. Rawls aprovou. Essas terminologias políticas são relativas. Afinal, democracia e liberalismo não são irmãos.

  9. Delúbio Soares
    14/11/2013 at 11:18

    Não gostei desse texto não, ficou faltando muuuita coisa a ser abordada.

    • 14/11/2013 at 12:37

      Delúbio Soares, você não gosta de nada, só de dinheiro. E há indícios de que vocês será preso. Então, por já ser um marginal, não atenderei mais você. Tchau.

  10. 08/11/2013 at 16:49

    Ótimo artigo, didático e esclarecedor! Parabéns.

  11. caribas
    05/11/2013 at 12:09

    o jeito que voce fala parece que os movimentos totalitários do sec.XX
    foram “elitistas”, mas não foram justamente o contrário na alemanha e itália esses movimentos partiram justamente da mobilização das camadas mais pobres, daí serem chamados de movimentos de massa?

    • 05/11/2013 at 15:25

      Caribas, não vamos confundir as coisas: o fato de haver “partidos de massa” isso não significa que eles não defendam um determinado status quo conservador. Os partidos totalitários como os partidos fascistas dão a impressão de derrubar os ricos, mas é só um setor do ricos. Eles mantém outros setores que os financiam. Hitler tirou das mãos dos judeus ricos o controle de várias empresas, mas não pense que ele as “socializou”. O “nacional socialismo” era mais nacional que socialismo. Aliás, era só nacional, pois socializar era entregar para o povo, ora, o povo era o estado e o estado era ele, Hitler. A nação era o seu pai, seu guardião – ele próprio.

  12. Luana
    05/11/2013 at 12:08

    psicopata mentiroso! safado

    • 05/11/2013 at 15:26

      Luana, adoro quando há um leitor que, por conta da burrice, fica malucão assim. He he he.

  13. MARCELO CIOTI
    05/11/2013 at 11:10

    PG,outro dia o Safatle escreveu na Folha que o Brasil deveria dar asilo
    a Edward Snowden porque ele é “um herói”.Esse mesmo Snowden comparou
    a NSA com a Stasi da Alemanha Oriental.Deve estar lendo muita Veja
    acreditando que ainda existe comunismo no mundo-menos na Coréia
    do Norte.

    • 05/11/2013 at 15:28

      Snowden é corajoso, isso é importante. Está lutando para que a América não se torne uma plutocracia definitivamente. Safatle não conviveria com um cara assim, pois Safatle tem medo de denunciar o PT.

    • LMC
      21/08/2017 at 10:29

      Hoje,o Trump agradece ao Snowden
      secretamente por achincalhar o
      governo Obama.É a esquerda
      que a direita nazista americana gosta.

    • 21/08/2017 at 10:38

      Nada a ver, LMC. Nada!

  14. MARCELO CIOTI
    04/11/2013 at 11:24

    Paulo,li aquele teu artigo no IG sobre a ombudsman da Folha.Essas polêmicas
    entre ela e Demétrio Magnoli “não são pra vender jornal”.Nos anos 80,
    tinha na Folha a Marilena Chauí e o Plínio Correia de Oliveira da TFP.
    A Folha quer passar a imagem de jornal mais plural do Brasil e consegue
    fazer isso.

    • 04/11/2013 at 14:35

      Marcelo, aprenda uma coisa para sempre: jornal É PARA SER VENDIDO. Jornal é uma empresa como outra qualquer.

    • Antônio Carlos
      04/11/2013 at 21:25

      Jornal é uma empresa e só sobrevive vendendo. Não necessariamente vendendo jornal, vendendo espaço. Mais leitura, mais acesso, mais qualquer coisa resulta em maior procura por anunciantes e anúncios mais caros. Não só a Folha mas qualquer jornal é um produto que precisa ser vendido, como vender se não com a polêmica?

  15. Fábio
    04/11/2013 at 10:43

    Sua conclusão poderia ter sido melhor…

    • 04/11/2013 at 10:58

      Fábio, você não sabe escrever? Então, faça um melhor.

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