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22/09/2017

O que é democracia? Vale perguntar agora, no momento do Impeachment?


A democracia dos antigos não é a nossa. Fazemos referência à Grécia a respeito de democracia, mas nada ali era o que temos hoje no mundo ocidental e que denominamos de democracia. A diferença de base é que a vida grega na polis não conhecia a dicotomia entre vida privada em oposição à vida pública e comunitária. Ou seja, a democracia grega e o mundo antigo não conheceu nada parecido como a doutrina tipicamente moderna, e que, de certo modo, até caracteriza a modernidade, o liberalismo.

O liberalismo econômico prega, inicialmente, o livre trânsito de comércio e, de modo mais amplo, o livre mercado. O liberalismo político concede direitos em função de um conceito que os gregos não tinham: não o mortal livre, mas o indivíduo livre e autônomo, que pode não ver o estado ou os poderes da cidade como estando a seu favor, mas contra ele, e contra o qual precisa de resguardos. A liberdade do antigo era a liberdade de poder cumprir seu ethos, a liberdade do moderno é a liberdade de poder escolher sua moral. Desse modo, o liberalismo político é um conjunto de dizeres e práticas de proteção desse indivíduo conceituado na modernidade. Essa doutrina, então, diz respeito ao direito de propriedade do indivíduo, e a propriedade também é a propriedade de consciência e, portanto, o que implica em direito de livre expressão de pensamento e fala, e de direito à proteção de sua propriedade corporal, sua vida. Mais tarde, quando de crimes dirigidos pelo estado contra o indivíduo, tomado como membro de grupo étnico ou político, se fez então a doutrina dos Direitos Humanos, e é sob esse registro de doutrina liberal e acoplada aos Direitos Humanos que nossas democracias se guiam.

Por conta do movimento socialista do século XIX e XX, os estados com democracias liberais criaram políticas sociais, em favor de equalização econômica e social da sociedade, tentando favorecer os pobres, e também políticas de minorias, levando em conta a preservação de culturas no interior de um mesmo país, e também alguma política de ajuda a tais minorias, em caso de dificuldades delas quanto à integração social. Nasceu aí o primeiro impulso para os estados democráticos de caráter social-democrata, e o modelo americano de estado liberal voltado para o cuidado com minorias. Nos dois casos, nas democracias liberais ocidentais, esses modelos são tidos como praticantes da “política de esquerda”. Chama-se aí de esquerda, portanto, toda política que visa ser a favor dos mais pobres e mais fracos, em algum sentido. E desse modo respeita-se o nome histórico “esquerda”, que de fato, no campo da Revolução Francesa, assim era tomado.

Tudo isso pode ter uma descrição formal. Na prática, no entanto, esses regimes do campo democrático liberal só funcionam quando há uma tradição de conversação entre governantes e governados, e entre governados e governados.

Os Estados Unidos são, é claro, a maior democracia liberal do mundo. Seu funcionamento depende da tradição dos americanos de tomar a democracia liberal antes como modo de vida social que como regime político. Diferentemente de nós brasileiros ou latinos, e também de europeus, quando falam do contrário da democracia os americanos não pensam em ditaduras ou regimes autoritários, mas em situações do Antigo Regime, misturadas ao mundo feudal. Eles tomam a não-democracia como algo grande, tão grande quanto a democracia liberal. Isso é porque eles não sabem viver em outro lugar senão em democracia. A não democracia, para eles, é algo grande que representa o passado, o que não pode voltar, não cabe mais no mundo. Por isso, um presidente americano faz uma jornada de dois anos pelo país, como candidato do seu partido, conversando com cada um, bairro a bairro, escola por escola (americanos adoram se reunir em escolas, dão um valor enorme para a articulação entre democracia e educação), comunidade por comunidade, buscando apoio de convencionais para serem indicados candidatos nas prévias dos partidos. É algo normal, ninguém pensa em abreviar isso por meio de TV ou dinheiro. As prévias são disputadíssimas. São terríveis. Mas nunca ou quase nunca causam racha nos partidos (Trump inovará?). Sem a peregrinação interna e sem a conversação, não se faz democracia – pensam eles. Junto dos candidatos dos grandes partidos, funcionam centenas de outros candidatos, em partidos menores ou mesmo no interior dos grandes partidos, com todo tipo de proposta. E os debates na TV os respeitam todos. A conversa face-to-face é tudo na América, mesmo com Internet.

A democracia liberal americana é de tal modo bem azeitada que, não raro, há autores que a tomam como muito próxima do que seria o próprio conceito de democracia presidencialista liberal e moderna. John Rawls assim pensou ao criar sua Teoria da Justiça.

Mesmo com o poder econômico sempre a pressionando a democracia, ele não consegue destruí-la, pois a conversação nacional, casa a casa, é tão presente quanto é presente a bandeira americana em cada residência, sempre exposta. É exatamente essa paciência para a conversação que não temos, que não criamos. Nossos partidos não acreditam em prévias, nossa politização é sempre vista a partir de movimento de massa na rua, nossa mídia só dá valor para a gritaria de gente falando palavras de ordem, nunca para a conversação pequena, para o cotidiano da conversa aberta que um Obama teve que fazer com cada transeunte. Lula foi o único a tentar imitar isso no Brasil, caminhando o país por três anos. Adquiriu um cacife enorme. Usou disso. Mas foi engolido pela falta de tradição de continuidade nisso, pela ânsia de poder e pelo vício de nossas esquerdas de achar que quem é de esquerda já está abençoado naturalmente, nem precisa ser honesto.

Nossos professores do campo liberal e de esquerda não gostam da América, acham que é uma falsa democracia. Desconhecem o conceito de democracia e são moldados pelo uma ideologia velha e velhaca do Terceiro Mundismo, que deveria estar enterrada. No fundo, não gostam de democracia alguma que tenha que ser mesmo uma democracia. Aliás,  tais professores acham que é preferível educar o aluno para ser de esquerda do que para ser honesto e aprender coisas em geral.

Vamos então de Impeachment em Impeachment. 1985 (!), 1992, 2016 – tudo meio que feito aparentemente nos conformes, mas de modo profundamente anticonversacional.

Paulo Ghiraldelli, 58, filósofo.

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12 Responses “O que é democracia? Vale perguntar agora, no momento do Impeachment?”

  1. Eduardo Rocha
    14/09/2016 at 18:47

    Paulo, o que você acha da crescente “onda monárquica” que existe em algumas redes sociais, principalmente das pessoas ligadas ao conservadorismo? Muitas pessoas aqui no Brasil caíram no descrédito com relação à nossa democracia e política. Isso de certa forma é falta de maturidade? Não seria o caso de mudarmos nossa psicologia política com bem diz Sloterdijk? Antes uma ética de dádiva que da escassez?

    • 14/09/2016 at 18:51

      Eduardo toda onda de direita é ondinha. Uma pessoa na rede faz barulho, e os que não são engajados em nada reproduzem e dão a impressão de representarem algo significativo. A Internet engana.

  2. Eduardo Henrique
    17/04/2016 at 10:49

    Nos Estados Unidos o poder das grandes corporações econômicas (as multinacionais) influenciam diretamente na política americana através da compra de políticos. Como falar de uma verdadeira democracia nesse estado de coisas? Aqui no Brasil acontece o mesmo. Vemos grandes empresas fazendo “doações” a partidos e políticos de todo o tipo. Ou seja quando chega ao fim as eleições – não importante quem ganhe – já estão amarrados na teia da corrupção. Falando mais claro, terão que governar a serviço daqueles que os financiaram. Isso não prejudica a democracia? O Brasil e os Estados Unidos não são muito diferentes nesse sentido.

    Mas uma coisa que eu gostaria de saber: no campo da economia o senhor é a favor da economia de livre mercado ou o liberalismo que defende é só o do campo político?

    Saudações

    • 17/04/2016 at 12:52

      Eduardo Henrique não vou responder, você já decidiu que os Estados Unidos tem uma democracia igual a nossa e, portanto, para casos assim, não há o que falar sobre nada, nadinha. É caso perdido.

    • Eduardo Henrique
      18/04/2016 at 10:50

      Senhor Paulo Ghiraldelli, leia o meu texto de novo, em nenhum momento disse que a democracia brasileira era idêntica a americana. Falei que no sentido do financiamento de partidos políticos por grandes empresas é que era igual. E que isso prejudica e muito a democracia, pois de fato o termo governo do povo – que é o sentido da democracia – fica danificado. No lugar onde o poder financeiro é que comanda podemos ter uma plutocracia (governo dos ricos), não a tão desejada democracia.

      Mas se o senhor não quiser responder tudo bem. Eu respeito a sua posição. Talvez o senhor esteja pensando que sou um esquerdista radical, o que não é verdade. Acredito que o maior problema da maior parte da esquerda é a insistência no comunismo. Isso faz com que ela fique no gueto político. Em minha opinião a defesa da democracia e das liberdades individuais, assim como o bem-estar social são as principais bandeiras a serem defendidas, e não os devaneios utópicos da esquerda radical (comunista).

      De qualquer forma agradeço a atenção.

      Abraços.

    • 18/04/2016 at 21:24

      Eduardo você é que deve ler seu texto de novo.

  3. Gustavo Martins
    15/04/2016 at 13:52

    85, professor?

    • 15/04/2016 at 17:31

      Sim, fizemos uso do Colégio Eleitoral para encerrar a Ditadura. Até então, o Colégio Eleitoral era tido como pecaminoso pelos democratas.

  4. Armando
    15/04/2016 at 10:28

    Eu já acho que a esquerda tem mais essa tradição de honestidade do que a direita. A direita já foi muito honesta, mas no passado, mais de 40 anos atrás.

    O Brasil tem uma cultura política aversa ao diálogo, talvez isso tenha a ver com a história do país, onde os direitos humanos foram gravemente cerceados por séculos. Nos EUA sempre teve uma tradição liberal muito mais forte e com isso uma cultura de pertencimento maior a uma comunidade ou a um país.

    • 15/04/2016 at 10:38

      Armando, ser honesto não é uma questão política.

  5. Vítor Mazzuco
    15/04/2016 at 03:06

    Será que o problema da nossa democracia não está na questão da alteridade? O brasileiro não consegue tratar o outro como um igual, apesar das diferenças, e quer que todo mundo pense igual a si mesmo. Talvez seja essa a chave da questão para desvendar o motivo de a democracia tupiniquim ainda não ter dado certo. Será possível realizar algum dia, no Brasil, uma política que leve em conta a alteridade, e não levar a efeito uma relação narcisística com o eleitorado, onde cada partido fala apenas para seus adeptos, não havendo construção de um projeto por meio do diálogo, como acontece na política americana?

    • 15/04/2016 at 09:16

      Vitor, repare que o entendimento que muitos tem de filosofia é o debate, não a conversa. O mesmo vale para democracia: eu falei conversação, não o debate. Pois é!

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