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18/11/2017

O prefeito Doria e sua guerra em São Paulo – uma lição filosófica


O prefeito de São Paulo João Doria entrou em guerra contra os pichadores. Sobrou bala perdida para grafiteiros também. Mas o prefeito disse que vai fazer um programa para regrar a vida de grafiteiros, inclusive pagá-los pela arte. Logo os mais críticos da limpeza de Dória acabarão cedendo. Há medidas de limpeza que soam mesmo esquisitas, com a do Serra de proibir o fumo, mas que depois, com certo tempo, começamos a ver resultados positivos e nunca mais queremos voltar à situação anterior. Mas o problema da distinção entre grafite e pichação, e da necessária promoção e proteção do primeiro enquanto se dá combate ao segundo, dá ensejo a uma discussão filosófica sobre questões urbanas.

Vamos pensar a cidade? Então vamos!

Sentimos amor pelos vivos, mas por instituições, cidades e coisas do tipo sentimos algo como pertencimento e orgulho. Ou seja, quando trabalhamos com seres vivos, invocar o deus Eros faz sentido, mas quando trabalhamos com instituições e cidades, temos de invocar antes de tudo o thymos, a parte intermediária da alma na psicologia platônica, o lugar de sentimentos que são feitos para buscar identidade e reconhecimento, os sentimentos de orgulho. A Igreja Católica contém os maiores psicólogos do mundo, ou seja, os padres, e ela lida em geral com o amor. Mas quando sai do campo diretamente humano, esses psicólogos sabem que o que vale não é o sentimento do amor, mas o do orgulho, e vão direto para a tentativa da administração do thymos. O amor se confunde com o desejo, é alguma coisa que invoca a falta. Amor busca satisfação, enquanto que o thymos invoca a plenitude do pertencimento, o orgulho, o contrário da falta. Assim, quanto ao Cristo Redentor, a Igreja brasileira resolveu lhe dar reforma e manutenção por meio de doações específicas. O cariosa aderiu. Quer reformar o Cristo, mesmo sem ser católico – e está doando para tal.

Ele, morador da cidade do Rio, se entende como carioca se há lá o Cristo na paisagem. Tem orgulho desse presente recebido pelo Rio e que se tornou parte da paisagem natural. Não terá identidade de carioca sem o Cristo, e sente que é algo seu, que deve cuidar, pois esse orgulho o mantém como alguém que se reconhece como ser humano, ou seja, carioca. O dinheiro está fluindo para a reforma. São Paulo precisa criar algo assim, elementos do urbano que deem orgulho a grupos que se identifiquem com esses elementos e então sejam seus cuidadores e protetores. Essa é uma prática americana, mas que tem sentido aqui também, no Brasil. Com um empurrão, ela anda.

Essa é a sociedade timótica e generosa de que fala Peter Sloterdijk. O exemplo histórico e mais claro disso, até por conta do fato do thymos ser o lugar do orgulho e também da coragem, da fúria, é o modo como Platão pensou a existência do setor social dos soldados. Eles protegeriam a cidade ideal de um modo furioso e vingativo por razões de orgulho. Seria uma honra servir a cidade como seu protetor. Seria uma honra manter a cidade para dela arrancar reconhecimento interno e externo e, enfim, identidade – como Leo Strauss e Fukuyama chegaram a analisar. Esse tipo de sentimento, que não tem nada a ver com amor – ainda que teimosamente possamos dizer “Eu amo São Paulo” ou “I love New York” – é aquele que nos vem pelo nosso afã de reconhecimento. O amor garante cuidado para com humanos, mas só o orgulho garante patrocínio e um “tomar conta” de instituições e cidades.

Tudo que Dória quiser fazer em São Paulo, a cidade, é mais fácil que fazer no Brasil, a Federação. A Federação não é palpável. Mas a cidade é, especialmente seu aparato arquitetônico e suas instituições de fachadas arquitetônicas. Esses elementos são objetos antes do orgulho e do vínculo identitário que do amor. Um grafite pode ser feito e cuidado se tivermos orgulho dele, não amor. Se gostarmos de ser reconhecidos como paulistanos enquanto os homens e mulheres que possuem vários murais por sermos de São Paulo, certamente nos elegeremos os guardiões dos muros grafitados. É como ter orgulho de ter estudado em determinada escola, ser reconhecido por tal coisa, e então buscar manter o prédio como ele sempre foi, isto é, um lugar que nos deu alegria e vínculo de pertencimento. Governar cidades é governar apetrechos físicos e/ou institucionais acoplados a físicos. O thymos é a parte entre o mental e os apetites, na psicologia platônica. Dar recados positivos ao thymos é obrigação de quem quer governar cidades. É ir antes na alma que no coração do cidadão.

Está na hora dos prefeitos lerem Sloterdijk. É o único filósofo que realmente ensina políticos a serem administradores e administradores a agirem como filósofos.

Paulo Ghiraldelli, 59, filósofo. São Paulo, 27/01/2017

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7 Responses “O prefeito Doria e sua guerra em São Paulo – uma lição filosófica”

  1. LMC
    28/01/2017 at 10:56

    Tem um jornalista da Folha que
    escreveu um artigo na página 3
    da edição de hoje defendendo
    a pichação.kkkkkkkkkkkkkkkkk
    kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk

  2. Hilquias Honório
    28/01/2017 at 00:00

    Bem, infelizmente nos domingos a noite eu fico ocupado. Mas os livros quero ler sim, com certeza.

    • 28/01/2017 at 09:04

      Viu! Os prefeitos também. A filosofia solicita das pessoas horas erradas para elas.

  3. Hilquias Honório
    27/01/2017 at 21:30

    Muito interessante essa proposta de os prefeitos lerem Sloterdijk. Acho difícil, mas não custa sonhar. Essa coisa do thymos traz muitas respostas novas, perfeitas para o século XXI, embora a maioria da intelectualidade pareça incapaz de entrar nessas outras possibilidades de visão de mundo.

    • 27/01/2017 at 21:58

      Honório vou dar curso de Sloterdijk via internet, gratuito (como tudo que o CEFA faz), pegue meu livro (Para ler Sloterdijk) e venha. Será usando o VSEE, 19 horas, nos domingos. Começa dia 5. Faremos uma preparação antes, de um mês.

  4. Orivaldo
    27/01/2017 at 15:16

    A diferença entre o “como fazer” do Dória e o “como fazer” do Serra é gritante quando se compara o caso do fumo com o do grafite/pichação. Junto com a disposição de criar leis que restringisse locais para fumantes aconteceu um processo que uniu palestras nas escolas/restrição de propagandas/embalagem nadas atrativas/divulgação de índices alarmantes que associavam o fumo ao câncer, sem contar ainda com a oposição a ideia (maluca) de se tornar ilegal a venda e o consumo de cigarros no pais. Acredito que a politica do prefeito (daqui pra frente), com relação a esse problema, possa reverter esse mal começo. Basta deixar de lado populismo chic e baixar um pouco o nível de bestorona que sobe muito quando se é “o vencedor”. Mas mesmo com tropeços pode ser um começo pra que se faça alguma coisa a respeito. Sempre temos três possibilidades: Fazer certo, fazer errado e não fazer. A pior é sempre não fazer.

    • 27/01/2017 at 19:22

      Orivaldo, não entendi o objetivo do seu texto. Acho que você leu só a primeira linha do artigo.

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