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29/03/2017

O patrulheiro ideológico em tempos de crise aguda


É a crise! Só pode ser. O dinheiro está curto até para os que têm emprego público, imagina então o professor que não conseguiu se estabelecer numa universidade pública por conta de não ter passado em concurso? Este, fica louco. Precisa arrumar aulas aqui e ali, necessita de público que o convide para palestras. A saída é uma só: ceder ao senso comum e ao discurso fácil da politicalha. Nasce aí o PICA, Patrulheiro Ideológico em (época de) Crise Aguda.

O nome é másculo: PICA. Mas a função não é. Em busca de dinheiro de palestras, o PICA alimenta mundos que não existem mais. Ele sabe que há um público de cabecinha defasada, louco por pregação doutrinária ou auto-ajuda. Ele faz os dois. Faz a pregação doutrinária e, com isso, cria a sensação ao seu público de que este está de posse de algum saber, digamos, mais abstrato que o cotidiano da cozinha, do shopping e do sonhado (mas não possível) campo de golpe. Nisso, também faz auto-ajuda.  O PICA recria em sua imaginação o mundo do século XIX, quando Marx dizia (mais por entusiamo juvenil que por qualquer outra coisa) que havia o “espectro do comunismo rondando a Europa”. Para dar atualidade, o PICA põe pitadas dos anos cinquenta do século XX, a Guerra Fria, e se deixar é capaz de contar para as suas agora minguadas plateias que há uma luta titânica entre a KGB e a CIA acontecendo dentro do Palácio do Planalto.

O PICA acaba acreditando nas suas mentiras. Ele acorda pensando que os olhares atravessados de dois transeuntes, um contra o outro, mostra que os agentes secretos estão em toda a parte. Claro, estão na sala de aula! Então, ele busca em desespero uma carteirinha do CCC, o Comando de Caça aos Comunistas, dos anos sessenta no Brasil, quando ele nem bem era nascido ou só estava de fraudas sujas. Adere. Luta. Prega. Ele acredita que Moscou paga Gregório Duduvier! Uma Moscou sem Putim, mas com Brejnev, que ambos, ele e Duduvier, não sabem quem foi.

Começo a acreditar que há algo nessas pessoas que são um espelho de Marilena Chauí, não em conhecimento mas só em esquizofrenia. Ela está crente de que Moro é agente da CIA. O PICA está doido para acreditar, se é que já não acredita mesmo na sua própria farsa para pegar uns tostões, que daqui a pouco Janaína Paschoal, por ser a favor de cotas étnicas, do ensino público, de livre-expressão e de Direitos Humanos, é uma perigosa comunista. Bem, é capaz mesmo, afinal, trata-se de uma mulher que não se cala! O PICA tem tudo para pensar assim.

É assim que o PICA vive. Mas ninguém vive assim. Nenhum jovem, nenhum velho, nem mesmo generais de direita. Não há nenhum país socialista no mundo. Há dois arremedos que ninguém chama de socialista: Cuba e Coréia de Norte. São ditaduras apenas. E há a China, o capitalismo mais preocupado em ensinar nas universidades, agora, antes Confúcio que Marx. Qualquer pesquisa de opinião pelo Brasil irá mostrar algo óbvio: a juventude toma do socialismo, quando toma, apenas alguns elementos de solidariedade que ela procura na vida atual – e sempre irá procurar – e não encontra. São elementos que ela também encontrará em outras doutrinas e, claro, irá preferir. Ninguém acredita mais em socialismo. A falta de democracia no socialismo e o colapso de uma sociedade que não conseguiu dar bens de consumo por conta da má produção e distribuição estatal, encerrou o destino dessa palavra, “socialismo”. Até mesmo a versão da social democracia, atualmente, anda arranhada. As pessoas gostam do estado para ele dar emprego, no Brasil, uma vez que nosso empresariado tem mais garganta que de fato empresas históricas. Mas, fora isso, há muito o sonho dos jovens brasileiros, e do mundo todo, gira em torno de felicidades ou infelicidades ou pseudofelicidades postas pela economia de mercado. Recriar o espectro do comunismo rondando São Paulo é coisa do PICA. Ele não bate bem da cabeça (ôps).

O que o PICA faz de fato é que ele até alimenta outros confusos que, diante de seu patrulhamento, começam a se sentir realmente militantes marxistas. Mas é pouca gente, cabem nos joelhos ou na cacunda do PICA, dependendo do modo que eles se atrelarem todos, num corpo só surubento, na busca de uma camisa de força.

As escolas brasileiras e a vida segue em frente. Na Guerra Fria montada no desespero da crise, fica o PICA e alguns meninos de estrela na testa. A busca de dinheiro, na crise, leva as pessoas realmente ao desespero e elas recriam novidades do baú. Se fossem um pouquinho mais cultas estariam falando sobre o Flash Gordon.

Paulo Ghiraldelli, 59, filósofo. São Paulo, 12/09/2016

PS: prometo não voltar mais ao assunto. Putz! Chega!

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5 Responses “O patrulheiro ideológico em tempos de crise aguda”

  1. Rafa
    14/09/2016 at 12:55

    Belo trabalho professor, mostrando coisas que nem imaginava que existia

  2. Bruno
    12/09/2016 at 18:45

    Eu falaria sobre Stan Lee e a Marvel. Esse foi um homem que soube sair de crises.

  3. Raimundo Marinho
    12/09/2016 at 12:18

    Mestre Ghi, obrigado pelo texto.

    Cada Filósofo tem o PICA que merece.
    Aguente firme mestre, já já eles passam.

    kkkkkkkkkkkk

    Quando sai o livro sobre Sloterdijk mestre ?!!

    • 12/09/2016 at 12:22

      TEm que ser antes do homem vir, ele vem dia 5

  4. LMC
    12/09/2016 at 10:01

    Pergunta 1-Viu o Pondé na Folha de
    hoje escrevendo que existe pregação
    socialista nas escolas?

    Pergunta 2-Quem é esta mulher
    gostosa que aparece na foto?

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About Paulo Ghiraldelli

Filósofo