Go to ...

on YouTubeRSS Feed

15/07/2018

O pastor Tite é o retrato de um Brasil de alma vazia


[Artigo para o público em geral]

Já fomos uma sociedade cujos oráculos eram Stanislaw Ponte Preta e Millôr Fernandes. Se  queríamos algo mais, bastava abrir a Folha de S. Paulo e um Carlos Drummond de Andrade era cronista! Na democracia ou na ditadura, na ditacracia ou na democradura, eles diziam e nós ouvíamos. Era uma forma de consumir o que hoje, por um erro editorial e cerebral, e por um defeito anal, chamamos de “filosofia pop”. Mas o Brasil de hoje está passando por uma revolução. Silenciosa? Nem tanto.

Nosso país está a passos largos para entrar na pradaria da mediocridade geral. Nosso povo já não entende mais a necessidade de tomar vacinas. Nossas escolas possuem professores evangélicos que não ajudam em nada nos aspectos da higiene básica – são capazes de dizer: “a vacina é perigosa porque tem o vírus vivo”. Sim, eu escutei isso! Caminhoneiros não pintam mais frases inspiradas em para-choque, exatamente porque viraram evangélicos. E no meio disso, há gente escolarizada que acha que falar frases de Karnal e Pondé, dois sacos vazios, tem algum sentido. É para essa gente que surgiu no Brasil o pastor Tite. E no nosso país, isso só poderia vir fantasiado de Treinador de Futebol. Ironicamente chamado de “professor” pelos jogadores. Claro, jogador no Brasil, atualmente, nunca viu um professor.

Aliás, que se reparem nas vestimentas e verão que os palestrantes, o Tite e os outros frutos do mar estão se vestindo igual. Tudo aqui funciona como uma farsa. Pode-se comprar isso: o nosso centro avante, o cara destinado para fazer gol,  não faz gol. Não sei se ocorreu, mas me digam: algum centro-avante numa Seleção Brasileira conseguiu entrar e sair sem fazer gol?

Durante meses fomos bombardeados pelo pastor Tite falando frases abestalhadas, vazias, sem sentido algum, como se estivessem saindo do gramado para a vida. “Gramado” aqui é significativo não? Nunca o brasileiro esteve com alma mais vazia que agora. O vazio político que  faz o país se dividir entre um presidiário e um puxa-saco de torturador é o reflexo do vazio que fez o pastor gaúcho posar de herói-pastor-filósofo-pai-treinador até pouco tempo. Meia dúzia de belgas que jogam basquete e volei, e que de vez em quando praticam também futebol, enquadraram o cara e o colocaram no seu devido lugar. Disseram para o último resquício de vida na América Latina: voltem para o lugar de crise que vocês mesmos transformaram no lugar de burrice. E todos voltaram. A América Latina readquiriu seu tamanho. O tamanho que ela mesma determinou: somos do tamanho da argola da forca de Herzog, o tamanho da bala que pegou Marielle, o tamanho do buraco em que enfiaram Amarildo. Talvez nunca tenhamos tido outro tamanho que a invasão das Malvinas, os massacres decretados por Pablo Escobar e o paraíso de cadáveres do Governo Pinochet. Somos todos do tamanho da falta de Internet em Cuba.

Claro que para além das frases de Tite podemos ser torturados por pseudo-mulheres. Olhem para os lados. A musa do Impeachment se delicia em apoiar o cara que homenageia torturadores e que é visivelmente perturbado mental. A musa do PCdoB quer recuperar campos de concentração da Sibéria. Ela acha Stalin um herói. A musa da Revista Cult,  Márcia Tiburi, é a candidata no Rio de Janeiro com um discurso que faz Cabral, na cadeia, corar: o roubo é correto porque no capitalismo a lógica é o roubo – sim, ela disse isso. Ela foi à escola lá no sul, mas virou professora tanto quanto o Tite. Só faltava ela confessar que foi o Tite que lhe ensinou o seu mote: “o cu é laico”. Acho que eu não me espantaria. A moça fala palavrãozinho porque ela não sabe que o Brasil teve o Carlos Zéfiro para todos, o Gabeira para a esquerda e o Zé Celso para que cu não fosse falado, mas mostrado. A pior coisa para uma senhora é a eterna adolescência.

Ziraldo nunca imaginou que o Menino Maluquinho desapareceria sufocado pela Menina Maluquinha, ou melhor, a Menina Perturbadinha. É o festival do QI de símio atingindo a todos com frases que gramática nenhuma autorizaria.

Para um país em que o presidente fala sem saber pausar nas vírgulas é natural que um candidato a pastor do futebol também não saiba utilizar as palavras, e muito menos entender que a melodia dos enunciados possui uma forma correta para ser efetivada. Em ambos os casos, parece que estamos diante de canastrões da Auto-Ajuda esperando Edir Macedo chamá-los para treinar não os que vão nos tomar dinheiro, mas os que vão tentar fazer isso. Pois os pastores que tomam dinheiro da fé ingênua já estão na ativa e não pensam em renovação de quadros.

Tudo isso culmina com o retrato que realmente mostra a realidade de nosso país: a CUT vai vender a sua sede. Sim! Normal? Sim, nesses tempos, trabalhismo é mesmo um péssimo negócio. Mas o significativo é que a sede será comprada pelo pastor Waldomiro. De templo de arquitetação de greve o local vai se transformar em inferno para abrigo de almas pecadoras – que nunca estarão senão no púlpito, e não na plateia. Um lugar que exorcizou patrões e promoveu pelegos irá agora abrigar gente que vê o Tite na TV e logo à noite fica possuída por demônios; aliás, todos vindos do mesmo lugar: a cachaça que os sindicalistas tomavam.

“Vencer não é vencer no placar, é vencer no campo” – que merda é essa? Que porra é essa? Um cara que começa a imitar o seu jogador cai-cai também cai em campo! Será isso “vencer em campo” sem vencer no placar? Os belgas nem quiseram entender, meteram um fumo grosso no rabo desse pessoal. Mas não vamos acordar. Estamos imersos no nosso orgulho de sermos todos grandes autodidatas. “Brasil, mata sua sede de gol”. Tô fora, não tenho sede de gol.

Paulo Ghiraldelli Jr., 60, filósofo.

Foto: Tite rezando no seu altar de banheiro, antes de jogo.

Tags: ,

16 Responses “O pastor Tite é o retrato de um Brasil de alma vazia”

  1. Leni Sena
    12/07/2018 at 17:18

    SAUDADES do Hora da Coruja, eu tinha todos os programas baixados 🙁
    Paulo, muito boa a série de mini contos que vc vem postando 🙂
    bjs, prof.

  2. Felipe
    10/07/2018 at 23:05

    Nós somos o que comemos, e o brasileiro é um bovino que aprendeu a se alimentar do próprio flato. todo mundo sabe o que é um peido brasileiro. No rs, mas também em são paulo e no rio, e em todo canto, essa miséria espiritual é a mesma. a linguagem que se ouve aqui é a mesma, o mesmo relinchar semi-animalizado disfarçado solenemente em moralidade e cristianismo (nem sempre só evangélico), mas com um fundo de vileza e até com traços de total ausência de caráter e alma. tudo por que é preciso ser social”, é preciso ser “legal e ficar plantado no chão mostrando sua ferida para o bom Deus. E às vezes eles até obrigam você a ajoelhar e mugir, se você disser “não quero”. e a inanidade do ensino e da universidade realmente só ajuda o barco a afundar mais depressa. sai-se da faculdade de letras ou de filosofia sem saber escrever uma frase. ou ler um texto sem colocar ali um monte de babaquices que você ouviu seu pastor ou instrutor da academia dizer;

    • 10/07/2018 at 23:12

      Felipe não culpe a universidade por um fracasso de seus alunos burros.

  3. LMC
    10/07/2018 at 13:11

    Pode a esquerda governar bem
    ou mal,sempre tem esta direita
    que macaqueia seu Deus chamado Trump.

  4. TiagoIM
    09/07/2018 at 13:05

    País em que as pessoas acreditam que precisam sempre de um Messias salvador da pátria: Collor, Lula, Tite, Bolsonaro, etc.

  5. Luciano
    08/07/2018 at 21:17

    Paulo, o que vc acha do Amoedo?

  6. EDSON DE MELO
    08/07/2018 at 15:03

    A musa do golpetchment está atendendo ao chamado do Bolsonaro a juristas e justiceiros. Já que os tucanos estão em baixa ,ela vai pegar essa outra canoa.

    • 08/07/2018 at 15:38

      Janaína é jovem, só isso. E estudou pouco a história do Brasil. A rebeldia do jovem de hoje é contra o PT. Muitos jovens de direita ficam mais à direita em um regime em que a esquerda governa, e governa mal.

  7. Henrique
    08/07/2018 at 12:29

    O vazio é a marca da sociedade líquida, acho que é difícil superar isso e tempos de selfies e tantas outras banalidades.

    • 08/07/2018 at 12:35

      Sociedade líquida é uma bobagem do Bauman que é mais vazio que o Tite.

  8. Felipe de Oliveira Silva
    08/07/2018 at 04:56

    Boa.. falou mal do Tite eu já gostei
    Fala muitoooooo

  9. vera bosco
    07/07/2018 at 19:04

    São aspones muito bem pagos para a arte de enunciar pseudo linguagens vazias .

  10. Guilherme Hajduk
    07/07/2018 at 19:00

    Deus do céu, fora com o cristianismo! Senão, ele entra em todos os pequenos buracos escuros e gelados que possam existir numa cultura — ainda mais numa cultura cheia deles!

    Agora… Paulo, eu gostaria de saber qual sua relação atual com o Pondé. Não o desfecho, que é evidente, mas o porque deste. Digo isso pois eu já assisti vídeos seus no Hora da Coruja com ele e vocês pareciam muito bem entre si. Como eram vídeos meio antigos, eu fiquei pensando no que pode ter acontecido. Naquela época ele já falava tudo o que continua falando agora. Só pra deixar claro, não pergunto nada pessoal! Num é isso não! Eu pergunto da relação filosófica e de ideias entre vocês; ele te decepcionou ou coisa do tipo?

    • 07/07/2018 at 19:12

      Meu amigo, o Hora da Coruja não era meu. Era da TV e da Fran. Você queria que eu criasse problema num programa onde eu era convidado? E mais, um tipo de convidado para servir de anfitrião! Não dá! Veja que também recebi lá o Boulos e procurei ser compreensivo. Agora, Pondé é um falsário, cita o que não leu, atacou Paulo Freire sem nunca ter lido, defende a direita mais retrógrada do país. Agora, se você olhar meus textos daquela época, verá que eu denunciei a falsidade dele desde o início. O Brasil engole esse tipo de falsário, de pseudo-intelectual. O sujeito nunca leu Marx na vida e prefaciou livro do Marx dizendo que não leu quando de sua formaçao e leu “depois”, e que “gostou”. Ora, tem dó. O prefácio dele mostra que ele não leu. E assim vai. Um país com Pondé acaba mesmo tendo medo de vacina.

  11. bony
    07/07/2018 at 17:13

    E eu achando, na minha ingenuidade, que eu estava inspirado. Mais uma obra de Brazilian Studies. Bravo! Nada se compara!

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *