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19/11/2018

O lulismo por desconhecimento de opções


[Artigo indicado para o público em geral]

Após mais de vinte anos de pregação neoliberal midiática em favor do estado mínimo, o brasileiro continua majoritariamente contra privatizações. Assim mostra a pesquisa da Folha (26/12/2017). Outras pesquisas anteriores da Folha de S. Paulo já mostravam isso, mas com adendo, dizendo que o brasileiro era de esquerda em política econômica mas conservador em termos da política ligada a costumes morais. Todavia, essa segunda parte já foi também questionada. Há pesquisas recentes que mostram que o brasileiro é também progressista em termos ético-morais mais afinados com intervenção política, e que mais de 50% da população é a favor de políticas de proteção de minorias, direitos humanos e temas afins.

Em pesquisa idônea do jornal Valor Econômico (17/11/2017) o perfil não-conservador mostra-se nítido: 57% dos brasileiros são a favor de cotas étnicas na universidade; 66% são a favor do casamento entre homossexuais; mesmo o lema “bandido bom é bandido morto”, que assim colocado atiça a alma, tem apoio de apenas 44% da população. Junto disso, a ideia de um estado forte, que cobra imposto, é apoiada por 86% da população, que quer ver o aparato público em favor de pobres e minorias. Claro que negros estão mais na mira da polícia; e continuam válidas duas verdades malditas, a de que nosso país sustenta o aumento do analfabetismo e  é aquele com o maior índice mundial de assassinatos de gays e travestis. Mas nossa mentalidade geral não condiz com essa prática. Isso não é pouco!

Qualquer pessoa inteligente pode associar essas pesquisas e entender a razão pela qual Lula, mesmo manchado pela corrupção (mais nitidamente de aliados, ao menos para o grande público), continua imbatível nas pesquisas de intenção de voto para 2018, seja qual for o cenário. Mutatis mutandis isso já ocorreu com Vargas. Nenhuma denúncia de corrupção colava na esquerda populista dos anos quarenta-cinquenta, que podia escorar-se na vantagem da defesa do que se chamava “política trabalhista”. Ao contrário do que pensávamos que iria ocorrer quando surgiu o PT, o Brasil não encerrou esse ciclo de preferência. Qualquer proposta populista de esquerda, que tenha uma aparência de uma social democracia possível no país Tropical, tende a vencer as eleições, mesmo que rançosamente atrelada ao populismo. Claro que, para tal, é necessária uma identificação dessa proposta com um candidato que a população sinta que vai realmente efetivá-la. Sobrou para Lula. E isso por mérito do PT, que construiu um tal legado, ainda que tenha jogado fora a moralidade (e a inteligência) – o que realmente foi um pecado imperdoável, ao menos para gente como eu, que ainda acha que a esquerda precisa ser honesta incondicionalmente, e que a direita pode fazer o que quiser pois é … a direita!

Não fico contente com esse resultado. Não sou adepto do estado mínimo dos neoliberais, mas não comemoro a estatização social-democrata como um horizonte filosófico, para além do horizonte político. Aliás, escrevi um segundo livro sobre Peter Sloterdijk, mais ligado a questões políticas que o Para ler Sloterdijk (Via Vérita, 2017), exatamente para mostrar uma faceta pouco explorada no campo do solidarismo. O livro está na boca do forno da Editora Vozes: Dez lições sobre Sloterdijk. Fiz um alerta antecipado do assunto na Folha de S. Paulo, em artigo da página de “Tendências e Debates”: “Novas bases para uma sociedade generosa” (Folha 03/10/2016). Não vejo saída para questões sociais senão por meio de iniciativas de grupos e pessoas realmente interessadas na confecção dos objetivos dessas iniciativas. Podemos acreditar que uma tal coisa só sirva para determinados empreendimentos, e que seria impossível pensá-la, por exemplo, no caso da exploração do petróleo ou outros propósitos grandiosos. Mas também no caso da exploração do petróleo vale ao menos a questão de princípio do solidarismo. Afinal, uma Petrobrás menos cavernosa, menos distante da população, não teria dado ao FHC e ao PT (muito mais) a chance de ficarem tentados a fazer política com o dinheiro da estatal.

O solidarismo de Sloterdijk, e que tem muito do comunitarismo de John Dewey e do esperancismo de Rorty, é um facho de luz que talvez pudesse nos colocar fora desse dicotomia Vargas-Lacerda, Lula-Collor e, agora, Lula-Bolsonaro. Afinal, vamos ser sinceros, essa coisa de Lula-Bolsonaro é uma deterioração da raça! É um fim de picada! É coisa de um Brasil que não condiz com o Brasil desejado por Stephan Zweig.

Paulo Ghiraldelli Jr, 60, filósofo. São Paulo, 26/12/2017

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3 Responses “O lulismo por desconhecimento de opções”

  1. 26/12/2017 at 16:59

    Meus Deus! Gente escolhendo entre Lula e Bolsonaro é pior que a Escolha de Sofia. Sofia ao menos ficou com um filho vivo. Qualquer destes dois representa Hiroshima no dia seguinte.

  2. Fábio Fleck
    26/12/2017 at 13:29

    Paulo, a dúvida que fica nesta polarização Lula-Bolsonaro, é: – Será que Ciro poderá aproveitar sua possível colocação como uma terceira opção possível e com isso avance nesta disputa? Seria algo como uma alternância entre: PDT-PT. PDT de Vargas PT de Lula e agora PDT de Ciro. E para não ficar apenas nesta linha. Seria excelente se Ciro fosse apresentado a isso que você coloca no texto. A esta nova possibilidade. Ainda que não dependa exclusivamente de políticos, partidos e a ideia seja muito mais do mecenato e uma política fora do jogo tradicional. Será?

    • 26/12/2017 at 14:50

      Fábio, meu negócio é outro. Eu nem votar voto!

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