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22/09/2017

O fim da homogeneidade na política


Temos hoje no Brasil um equilíbrio entre direita e esquerda, ao menos em termos do debate público em termos retóricos, um maior equilíbrio que até bem pouco tempo atrás. No cenário internacional isso também ocorre. Trata-se do resultado do número de anos que nos distancia, agora, do fim da URSS e do desmantelamento do chamado “socialismo real”, e também das idas e vindas do embate entre social-democracia e neoliberalismo. De 1980 para cá, sabemos bem, essas duas forças de gerenciamento do estado democrático liberal têm se alternado no poder em vários países, e a própria alternância rápida tem mostrado que nenhuma das duas consegue satisfazer pessoas, além do próprio eleitorado cativo, para além de um curto tempo.

No Brasil essa equivalência de retórica entre gente que, abestalhadamente, se acusa de “comunista” e “fascista” em rede social, sem que exista comunismo ou fascismo por aí, é bem notável. Mas, aqui, há uma particularidade. Em nenhum país havia algo como o PT. Ele foi o maior partido social-democrata do Ocidente. Mas virou pó. A corrupção com a qual se fez e se desenvolveu foi tão maior do que tudo que a direita havia pensado em fazer, que, uma vez vinda à luz (num prazo entre os picos do “mensalão” e do “petrolão”), fez com que tudo que parecia sólido se desmanchou no ar da Lava Jato. Na verdade, o PT nunca enfrentou uma oposição forte e, por isso mesmo, achou que podia roubar como roubou. Esqueceu-se de que no Brasil há sim uma opinião pública que conta, e não apenas “massa”. O próprio PT ajudou a criar essa opinião pública que conta.

Mas, daqui para diante, teremos um período de redefinição de anseios morais, sociais e político-doutrinário. Haverá um desalinhamento dessas três áreas. A área das “políticas de identidade” (que aglutina direitos humanos, direitos de mulheres, gays, portadores de necessidades especiais, direitos de minorias étnicas etc.), mais próximas do campo moral, não deverá se ligar de modo imediato ao que chamamos de política social em sentido tradicional (políticas públicas voltados para uma melhor equalização de renda entre pobres e ricos), e ambas não estarão, no caso de procura de benesses, vinculadas ao tradicional campo da esquerda no âmbito político doutrinário. A esquerda, monopolizada pelo PT e por PTs 2.0 ou forças de esquerda em formato tradicional, não terá mais a propriedade natural desses campos. Veremos pessoas anti-petistas, e descrentes do nome “esquerda”, defenderem políticas social-democratas no âmbito econômico, e também algumas importantes teses da moralidade liberal, isto é, não conservadora. Veremos gente anti-petista e sem vinculação partidária à esquerda (em graus variados, claro) defender o funcionalismo público e a escola pública, a política de cotas, a ampla liberdade partidária, o tratamento do menor infrator antes como menor que como puramente infrator, o cuidado com os braços autoritários do estado que podem tolher a liberdade individual, a atenção negativa para qualquer tipo de xenofobismo, o cuidado com a consciência ecológica, a pressão popular como forma de atuação política etc. Não raro, encontramos vários republicanos, nos Estados Unidos, com plataformas que se aproximam em algum grau desses tópicos. Não são muitos, mas não são os inexpressivos.

Esse refrigeração da vida política brasileira não era pensada possível nos anos oitenta ou noventa. Talvez nem mesmo em 2005, quando Lula começou a se mostrar corrupto para um número maior de pessoas (mas que se lembre que ele ganhou a eleição para o segundo mandato sem qualquer comemoração!). Alguns acham que uma economia ruim por mais tempo anularia essa refrigeração, que algum populista de direita teria mais chances eleitorais, como ocorreu com Trump. Mas as coisas são muito dinâmicas atualmente, em termos de nomes. Num quadro como o que temos agora, mesmo com a economia ruim, mas não de catástrofe, todas essas alterações que mostrei na consciência política terão mais chance de vingar. Pois trata-se de uma tendência maior, vinda de certas ideias que vem sulcando a opinião pública há trinta anos, e que estão tendo que ser incorporadas por qualquer tipo de candidato chamado de “razoável”. Sabemos bem que Trump não ganhou no voto popular. Mas sabemos que se o republicano pró-teses liberais, Arnold Schwarzenegger, pudesse se candidatar, Hilary não teria tido chance de sequer começar a campanha.

Paulo Ghiraldelli 59, filósofo. São Paulo, 29/12/206

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