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01/05/2017

O energúmeno contra o direito dos animais


Estou diante de um energúmeno. Sei disso. Sei por uma razão simples: ele está dizendo que mulheres que lutam pela vida dos animais não são fanfarronas, pois não lutam pela vida das baratas e, além disso. são mulheres que até acabam defendendo o aborto ou fazendo aborto. Já vi gente que diz que tem diploma de filosofia dizendo isso! 

Esse tipo de argumento não é só fruto de intelecto fraco, mas esconde desejos nada alvissareiros: não quer de modo algum que a ciência a serviço da indústria seja incomodada por pensamentos ecológicos; também não quer que nenhum tipo de bem querer surja, apesar da aparente preocupação com fetos e baratas. O dono desse tipo de argumento denuncia um tipo de hipocrisia, mas é uma denúncia inócua, pois sociedade sem hipocrisia em diversos níveis não é sociedade. A vida social, Nietzsche nos ensino bem, depende de verdades suportáveis, e devemos lembrar que não há outra vida humana que não a vida social.

As baratas não podem desaparecer. Caso assim aconteça o desequilíbrio ecológico não é nada pequeno. Mas as baratas não são protegidas pelos que gostam de animais porque, como todo mundo sabe, nosso amor é gradativo, depende de ganhos de consciência, e esta evolui não por questões simples do que acostumamos chamar de necessidade, mas, como já observou Peter Sloterdijk, evolui por razões estéticas, e como também já disse Richard Rorty, por identificação que possa ampliar o círculo do “é um de nós”. Vamos ampliando nossa consciência ecológica para o verde à medida que notamos o suicídio que impomos ao planeta, na falta de de ar e água. Mas, também, vamos ampliando nosso amor pelos animais à medida da beleza deles e fundamentalmente pela observação, notando a semelhança deles conosco.  Não fizemos isso antes pois nossa distância com eles não permitia. Foi preciso tomar distância para notarmos que talvez os brutos sejamos nós. E isso se fez a partir da sorte da certas relações nossas com determinadas espécies. No caso de alguns animais, dependeu até de uma convivência que se fez antes de sermos homens e antes deles serem os animais que são. Falamos isso do cachorro, fundamentalmente. Pois é bem provável que tenhamos vivido com cão antes dele ser cão e antes de sermos humanos.

Não entender como a consciência evolui nesse sentido da identificação e da estética, no trabalho mesmo da nossa própria evolução e história, é realmente não ter nenhum tino para a filosofia. Não fazemos o que fazemos, ou seja, não desenvolvemos amor ao verde e a certos animais por atos de decisão moral aleatórios. Assim, pedir que amemos baratas e se assim não fizermos não somos as boas pessoas que queremos ser, ou pedir que não façamos aborto se queremos proteger golfinhos, é um pedido que começa tolo e termina imbecil.

Bem, se a questão não é só a falta de amor pelas baratas e sim a pretensa falta de amor para com fetos, claro, é preciso aqui mais uma observação.

O objetor aos direitos dos animais fala isso, sobre a desconsideração pelo feto enquanto há amor pelos animais, porque seu conservadorismo vai da não proteção dos animais até o desejo de manter a mulher sob sua batuta escravocrata. Quem gosta da ciência nos ditames da indústria não raro gosta da mulher nos ditemos de seu chicote. Sabemos disso. E como sabemos! Dizer que alguém que ama seu cão e quer que cães não fiquem perdidos na rua é hipócrita porque ao mesmo tempo defende o aborto é o mesmo que dizer que todas as vezes que alguém faz um pedido pela melhoria social, caso não tenha antes avisado que não vai pedir nada em favor da liberdade da mulher, não tem direito de fala.

Há uma raça de bandidos que atua sempre na tentativa de nos fazer esquecer que “o ótimo é inimigo do bom”. Falam assim: “fulano de tal pede isso mas não pede aquilo”, e se utilizam de tal fala aparentemente reveladora, “realista”, para que nada se faça, para que tudo fique como está. Ou o mundo fica bom de uma vez e que fique mal de uma vez, e como não fica bom, viva, que fique como está. Sinceramente, quem pensa assim há muito está usando o cérebro do mesmo modo que a mulher do canto Belo usa o intestino.

Paulo Ghiraldelli, 58, filósofo. São Paulo, 24/07/2016

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Filósofo