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23/06/2018

O destino de Lula e o nosso destino


[Artigo indicado ao público em geral]

Logo após a condenação em segunda instância (ontem, 24/01/2018), agora para doze anos de prisão em regime fechado, Lula foi para a praça pública em Porto Alegre e  bradou: “podem me prender, mas não vão poder acabar com o sonho de liberdade”. Soaria como um raio no coração da maioria da população essa frase, em 1980. Em 1989, soaria sem sentido, pois Lula estava mais livre que nunca para perder para Collor. Depois de derrota para FHC, a frase soaria também sem sentido, pois Lula estava mais livre ainda, para bater qualquer um em qualquer eleição. Agora, ela soa como descabida, quase um escárnio contra o próprio Lula. Pois se há uma coisa que não está mais vinculada à imagem de Lula é a ideia de libertação de um povo ou de uma nação ou qualquer coisa grandiosa.

Lula está preso antes da prisão. Preso à imagem de um homem que foi devorado pelo turbilhão que colocou em movimento e que cristalizou no slogan estapafúrdio “pobre não é problema, é solução”. Não, pobre não está em questão. O que está em questão é a nossa pobreza que não passa!

Lula foi uma homem de esquerda. Sim, sem dúvida. E nunca pertenceu à esquerda autoritária ou comunista. Hoje, conotações políticas para caracterizá-lo não servem mais, é apenas um homem que está enrascado com a lei por culpa própria, por ambição desmedida. Em um determinado momento acreditou que o que fazia pelos pobres era mais do que aquilo que deixava os aliados roubarem. Mas não era. Lula deu aval para um esquema de corrupção que, ao final das contas, criou um Brasil sem infra-estrutura, com volta de inflação, com ameaça à democracia, com gangs chefiando a política por todos os lados – e tudo isso começou a pesar na balança. Aos poucos o “rouba mais faz”, de Adhemar e Maluf, não servia mais para ele. Acabou no “rouba e não faz”.

O legado de Lula? Simples: Dilma e Temer. Este é seu verdadeiro legado! Temer era um homem que não conseguia mais se eleger a síndico do prédio onde mora Maluf. E Lula o recuperou e nos deu de presente. E sobre Dilma, nem comento!

Caso Lula drible a lei da Ficha Limpa, por conta de recursos jurídicos e outros problemas inerentes ao texto da Lei, corremos o risco de irmos para uma eleição em que ele, mesmo condenado, será o principal candidato. E isso por uma razão simples: o discurso da esquerda, ainda que seja uma esquerda tradicional que não acordou do sonho do nacional-desenvolvimentismo dos anos cinquenta, pesa positivamente na consciência do brasileiro. O brasileiro em geral está, até mesmo em matérias difíceis, mais à esquerda. Até mesmo a segurança, agora, já é vista pelo brasileiro antes como “questão social” que como “questão de polícia” (enquete dessa semana, em São Paulo, mostra isso) (3). E mesmo com toda a campanha contra a tese da esquerda quanto à previdência social, os deputados conservadores não conseguem sair da amarra de suas bases, que não estão acreditando muito que somos nós, indivíduos trabalhadores, os culpados pelo rombo. Uma boa parte sabe que há empresas e bancos que corroem de verdade o estado, a Previdência etc. Essa tese de esquerda, aliás, caminha por inércia, dado que petistas não evocam, não tem moral para assim fazer, e o pessoal do PSOL está mais preocupado em amar seu algoz, Lula, que realmente fazer política adulta.

Os brasileiros realmente preocupados com a pobreza não sabem sonhar para fora de um ideário mais ou menos social-democrata. Por um lado, os conservadores (estatistas ou ligados ao “estado mínimo”) soam descabidos para a maioria da população, e, por outro lado, gente como eu, com o meu ideário a la Slorterdijk (1), é vista como coisa fora do lugar, algo vindo de Plutão (veja o artigo na FolhaNovas bases para uma sociedade generosa). Sou de fato um utópico. Um filósofo não-utópico, “realista”, é apenas um charlatão. Mas como não seria tomado como utópico? Afinal, até o comunitarismo americano (próximo da generosidade de Sloterdijk) cedeu para Obama, aceitando um estado mais participativo em favor dos pobres. Esta opção de Obama foi a de uma via muito mais social-democrata que a via tradicional da esquerda democrática americana, a do liberalismo associado ao comunitarismo, como queria John Dewey (2).

Caso Lula não concorra para a presidência, o destino pessoal dele vai se perder nas notas de pé de página dos livros de história. Mas a direita, a autoritária  estatista ou a do “estado mínimo”, vai perder a eleição de 2018. E se ganhar com candidato, perde no programa. Qualquer presidente que entrar só vai ser bem visto se enfrentar os problemas que são os problemas de um país que tem muita gente pobre – ainda. E se não fizer isso com programas sociais, mas só com política econômica, como fez FHC, não vai ser sair bem. Um pouco de social democracia vai ser necessário, sempre, no Brasil pobre. Acreditar que uma saída estatista de direita ou a saída do “estado mínimo” dá conta do recado, é conversa para boi dormir – e boi débil mental. O Brasil está indo quase junto com o mundo capitalista atual: os mais ricos ficam mais ricos, os mais pobres melhoram, mas ficam mais pobres. Eu disse “quase,” porque no Brasil os mais pobres não melhoram proporcionalmente, apenas ficam mais pobres. O capitalismo em termos gerais (insisto no “em termos gerais”) é um tanto perverso, sabemos bem, e aqui aparece de forma mais cruel, e isso exatamente porque os anos do PT foram anos de engodo, e se fizeram em cima de anos em que a delapidação gerada pelos conservadores nos deixaram várias décadas perdidas.

Não temos saneamento básico, não temos escola, não temos salário para professor e não temos segurança. Temos um judiciário que fustigou Aécio e Lula. Isso já é muito. Há o que comemorar? Haveria! Mas o brasileiro não vai às ruas pelo negativo. Não pode ir às ruas para festejar o Judiciário no caso Lava Jato, porque é ridículo comemorar a prisão de pessoas e a meia prisão de outros. Em nenhum lugar do mundo se comemora a efetivação da justiça. A justiça feita dá alívio, mas não mobiliza comemorações carnavalescas.

Paulo Ghiraldelli Jr., 60, filósofo.

  1. Veja: Dez lições sobre Sloterdijk. Petrópolis: Vozes, 2018.
  2. Veja: Richard Rorty. Petrópolis. Vozes, 1999.
  3. Confira: SP-TV (23/01/2018) MOSTRA QUE A POPULAÇÃO VÊ SOLUÇÃO PARA A VIOLÊNCIA DE MODO DIFERENTE ATUALMENTE. Ao invés da pseudo-solução “mais polícia na rua”, que era o indicado até pouco tempo, a população paulistana, agora, colocou essas prioridades (abaixo) para resolver o problema da violência. Nota-se aqui uma priorização contrária aos ideias da direita política, e isso em ano eleitoral.
    1) Educação boa de base
    2) Combate de corrupção na polícia
    3) Oportunidades de educação e emprego para jovens da periferia.

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34 Responses “O destino de Lula e o nosso destino”

  1. José Ferraz
    11/03/2018 at 06:31

    O senhor é um homem inteligente,mas tem horas que escreve frases que deixa duvidas em relaçao a sua posiçao politico-partidária,outrora o senhor tende ao liberalismo,outrora mostra simpatia pelas políticas da esquerda e usa exemplos.

    • 11/03/2018 at 08:03

      Ferraz, filósofo não é um animal comum que precisa ter posição política, quem tem posição política definida, é o animal chamado burro. Por isso ele costuma puxar carroça. Quando alguém que se diz filósofo começa a defender uma posição, ele perde a capacidade analítica, se é que a tinha.

  2. 05/02/2018 at 23:28

    O Brasil merece um Aires Brito, ex Presidente do STF como Presidente da República do Brasil. Não tem outro nome no nível em comprometimento, preparo, notoriedade e respeito. Tenho dito! ! !

  3. Paulo Altino
    26/01/2018 at 16:00

    Tirando esses três, vc acha que pode sair uma boa proposta de governo capaz de recolocar o Brasil nos trilhos do desenvolvimento? A meu ver parece-me que talvez somente com Ciro Gomes e Cristovam Buarque, não acredito que Alkmin traga algo de Novo, idem os outros restantes..!

    • 26/01/2018 at 22:42

      Paulo Altino, leia de novo o que escrevi, eu não falei de preferências, muito menos eu declarei voto. Eu não voto desde 1989. E não creio que votarei.

  4. Edmar Lopes
    26/01/2018 at 13:53

    enquanto algum utópico não atacar a prática de se manter o pobre se empobrecendo por multiplicação, porque os governos precisam de eleitores que não raciocinem, e as empresas precisam de consumidores que não reclamem, ficaremos sempre na utopia, ótima para encher laudas de papel, mas nunca para ajudar a resolver problemas da sociedade. a maior utopia útil é uma reforma constitucional que apoie a educação como forma de enriquecimento, a moralidade como indispensável à administração (mediante forte ação do judiciário), e incentivos à qualidade gerencial dos governantes.

    • 26/01/2018 at 15:18

      Edmar acho que você não sabe o que significa a palavra “utopia”.

  5. Fernando Cavalcanti
    26/01/2018 at 13:51

    O texto tem dois erros: 1. A índole de Lula e do PT é, sim, da esquerda autoritária, atrasada. O apoio que dão a Maduro não deixa dúvidas quanto a isso. E 2. O brasileiro em geral não está “mais à esquerda”, isso é mito. O brasileiro, majoritariamente, é de direita e conservador; apenas não encontra um partido, um grupo político que possa representá-lo, e termina escolhendo o que lhe parece menos pior entre as opções à esquerda.

    • 26/01/2018 at 15:19

      Fernando, eu acho que Lula nasceu contra a esquerda autoritária e cedeu a ela. Você não leu o texto direito.

    • Salmou Syllbrucken
      30/01/2018 at 22:26

      Paulo Ghiraldelli,
      Estou lendo suas manifestações no fb sobre o Bolsonaro. Coloca inverdades sobre ele. Respeito que você tenha o direito de se expressar mas creio que fazer campanha sistemática contra um candidato de direita afirmando inverdades creio que denigre a sua imagem. Vejo que vc está se espondo muito, deu CV e não condiz com suas colocações.

    • 31/01/2018 at 11:18

      Salmou note o seu problema: “espondo”. Não, não é assim que escreve. Esse é o problema do bolsonarista. O neonazismo do Bolsonaro tem uma ligação estreita com o analfabetismo.

  6. Alvaro
    26/01/2018 at 13:08

    Sou bolsonarista por enquanto, infelizmente não estou na lista de leitores de seu livro, poderia aprender mais, mas…

    • 26/01/2018 at 15:19

      Alvaro, você não pode ser bolsonarista e ler minhas coisas. Eu escrevo contra princípios neonazistas.

  7. Victor Dias
    26/01/2018 at 13:06

    Falando sério sem apelar para a baixaria, caso Lula seja eleito presidente qual argumento ele vai usar para negociar com seus traidores uma vez que tanto ele quanto a esquerda no geral não possuem relevância nem na câmara nem no senado? Qual será a desculpa que ele vai dar quando trair seus eleitores para se tornar governável? O que existe por trás de tantos partidos de esquerda como o PSOL e o Pc do B em apoiar tão cegamente um candidato que desprezou a esquerda em favor de organizações criminosas (não dá pra chamar PMDB de partido)? Eu não sei … não é que eu seja de direita más a esquerda política a cada dia tem me dado mais asco.

  8. Luciano Nogueita
    26/01/2018 at 12:00

    Ao meu ver, no Brasil, jamais se teve um espectro político de esquerda x direita, esse espectro é convenientemente criado a cada ano de eleição para tornar o ato de votar em algo reativo e sem apego a nenhum debate aprofundado dos planos de governo. O que sempre se teve no País foi um espectro político entre uma esquerda-social e um centro-social, sendo que essa função social que é comum aos dois pólos e que reflete a realidade de desigualdade social do País foi totalmente privatizada, banalizada e assaltada em todo o espectro político-social. Há uma ressaca do tema de função social no tecido da população brasileira que cega à realidade que ainda nos bate à porta. Fala-se em governo liberal ou liberal-conservador, em uma comparação sem sentido com economias de primeira grandeza, dado que ainda não existe no nosso País um progresso real no extrato social e na infra-estrutura que nos faça ser realmente competitivos em uma realidade de livre mercado mais agressiva. Mais é apenas uma avaliação de um cidadão, não de um filósofo. Gostei muito da parte em que você fala em liberalismo associado ao comunitarismo. Essa associação é perfeita e, por coincidência, fiz ela recentemente com minha utopia predileta e não conhecia autor que pensasse assim também. Vou pesquisar sobre esse John Dewey.

    • 26/01/2018 at 12:08

      Luciano o Brasil moderno sempre teve esquerda e direita. São posições não absolutas, sempre relativas e conjunturais.

  9. Tytko
    26/01/2018 at 11:54

    E vc não considera a possibilidade de João Amoedo do partido novo? Gostei bastante da idéia do estado minimo e pelo q entendi isso não se dará do dia pra noite mas através de um processo! Candidato de partido nanico mas q nos debates suas idéias podem ganhar representatividade por não serem mágicas nem tão ouco populistas! O q acha??

    • 26/01/2018 at 11:56

      Tytko, não vou dar atenção para um cara que acha que o novo é o liberalismo do século XVII e que surgiu do nada, inventando partido.

  10. Edson
    26/01/2018 at 10:16

    Já que sustentamos o judiciario mais caro do mundo , que ele faça a triagem da vontade popular e vá dizendo em quem o povo pode votar.Barroso já prognosicou que o século 21 será deles , não é?

    • 26/01/2018 at 10:58

      Edson, a entrada da justiça na política é uma consequência da democracia. Os Estados Unidos mostravam isso, e sabíamos que íamos chegar nisso. Agora, achar que isso é o fim do mundo ou o começo de uma nova era, é demais.

  11. Tony Bocão
    26/01/2018 at 10:08

    Realmente, tirando esses dois bocós, acredito que os candidatos restantes devam discutir como gente adulta qualquer tipo de assunto. Interessante é ver o povo não familiarizado com discurso um pouco melhor, depois de ter baixaria e torcida como sinônimo de eleição.

    • LMC
      26/01/2018 at 12:32

      Tony,tirando a Marina e o Cristovam
      o resto é lingua de aluguel,menos o
      Alckmin,que é o Sérgio Cabral paulista.

    • 26/01/2018 at 15:20

      LMC não fale do que não sabe e não invente coisas.

  12. Edson
    26/01/2018 at 09:29

    E agora todo o poder emana do judiciario, da subjetividade Morista que só consulta Washington. Bela situação politica :voltamos para a republica velha e a degola dos candidatos que não estejam afinados.

    • 26/01/2018 at 10:59

      Edson, MOro treinado pela CIA é alguma coisa que já fez até a Marilena ficar imbecil, e você quer ir junto. Tudo bem, todo mundo tem o direito de virar Olavo de Carvalho.

  13. Rodolfo
    26/01/2018 at 00:41

    É merme? vai ser um debate e tanto. Nos engana q eu gosto. Pode assistir esses debates. Ninguém sabe quem será o mais demagogo da tua lista. Prefiro outras coisas. Deixa de querer influenciar

    • 26/01/2018 at 11:01

      Rodolfo eu não influencio ninguém, sou um filósofo acadêmico, que escreve para as pessoas pensarem, refletirem. Mas nem todo mundo quer pensar.

  14. Alo voce
    25/01/2018 at 22:57

    O Lula vai virar nota de pe de pagina apenas de seu livro que nao vai vender nada.

    • 25/01/2018 at 23:11

      Alo voce: meus livros não são para lulistas ou bolsonaristas, só para alfabetizados.

  15. Guilherme Picolo
    25/01/2018 at 20:59

    Será que o discurso da vitimização e do coitadismo ainda pega? “Ui ui ui, sou retirante nordestino (com milhões no banco)! Ui ui ui, minha mãezinha nasceu analfabeta! Ui ui ui, a Zelite (da qual pertenço) quer me derrubar! Ui ui ui, sou proletário (que nunca trabalhou), e a Justiça me persegue!”. Esse discurso já deu no saco!

    • 25/01/2018 at 22:48

      VI TODOS OS CANDIDATOS HOJE, os relativamente confirmados ou lançados com chance. Sinceramente, é uma benção para o Brasil a eleição sem Lula. Tirando Bolsonaro e Collor, todos os outros darão boa contribuição no debate: Alckmin, Ciro, Cristóvam, Marina, Alvaro Dias e Manuela D’Ávila.

    • LMC
      26/01/2018 at 12:34

      Guilherme,sabia que o Lula se
      comparou ao Mandela????É
      isso mesmo!!!!kkkkkkkkkkkkkk

    • Guilherme Picolo
      28/01/2018 at 22:04

      LMC, tirando a bizarrice da comparação, não deixa de ser uma autoprofecia, já que Mandela ficou 27 anos no xadrez, e o Lula, você sabe, ainda tem mais cinco processos iguais a este último da Lava Jato pendentes de julgamento…

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