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26/09/2017

O capitalismo venceu. E perdeu! E … venceu!


Na vida cotidiana o capitalismo venceu. Nos bancos universitários em ciências humanas, ele perdeu. Poucos têm coragem de se dizer “sou a favor do capitalismo” em uma universidade no âmbito das ciências humanas. Ao mesmo tempo, em todo o mundo, na vida do dia a dia, há o reconhecimento tácito de que a vida capitalista é alguma coisa que satisfaz.

Essa defasagem não está de todo errada. Principalmente se tomarmos os últimos vinte anos. A universidade tem mesmo que sonhar com algo melhor. Caso não faça isso, faria o que? Ensinaria os jovens a dizer amém para a disparidade entre ricos e pobres na atualidade? Não pode. Seria uma universidade fracassada. Mas essa mentalidade defasada já foi pior. Antes, ser anti-capitalista na universidade era ser socialista. Hoje, mais jovens são antes de tudo críticos do capitalismo, mas não socialistas e nem mesmo anti-capitalistas. Pode-se sonhar hoje menos dirigidamente. No passado, os sonhos estavam condicionados por um futuro já demarcado, produzido, bem desenhado: Comuna de Paris, URSS, Cuba, Albânia ou então Plutão sob a social-democracia capaz de tender ao comunismo. Não havia utopia, havia sim o sonho sonhado pelas vanguardas e ditado aos outros. Ao menos hoje, o sonho poder ser um pouco mais livre. Ao menos no sono, pode-se ter imaginação – ou tentar algo assim.

É que a verdade das ruas está começando a contar para a verdade da universidade. Paulatinamente a Internacional Miserabilista está cedendo espaço. Ela é hegemônica, mas já não é uma unanimidade. Eis a plataforma dessa Internacional: a ideia de que o homem é fraco, miserável, que tudo que faz é seguir seu “instinto de conservação” e que este segue a lei da economia mesquinha, que essa fraqueza determina que todos vão sempre querer sugar os outros, que o homem é um parasita do planeta, que o esbanjamento e a generosidade são o contrário do homem, que sempre estamos lutando pelo “resto que sobrou”, que a própria noção de racionalidade implica em cortar e economizar, que o trabalho duro é a lei e a glória, que nunca podemos confiar nos outros, que ser inteligente é ficar rico e não gastar, que a cada dia nossa miséria em todos os sentidos aumenta etc. A Internacional Miserabilista domina o pensamento político e cultural moderno, na direita e na esquerda. Ela é baseada em uma antropologia esquisita, que nos compara com os animais para dizer que eles nascem fortes e nós fracos, sem notar que temos dois anos fora do útero com um cérebro se desenvolvendo a todo vapor, em condições ainda semi-uterinas. Como não abandonamos a Internacional Miserabilista, então acabamos concordando com um ideia aparentemente correta, mas que não se verifica na vida prática como achamos que se verifica: ou nos colocam cangas para sermos bons, ou não seremos bons. Tendemos a acreditar nisso, quando a canga não é sobre nosso pescoço.

A miséria do capitalismo é desmentida facilmente, basta não tomarmos a distância entre pobres e ricos sem olhar em que patamar falamos, atualmente, de pobreza. É uma desatenção em sociologia e história  acreditar que após 500 anos de capitalismo temos a mesma situação de esforço do homem na Terra quando da vida antes do capitalismo. Este, nós sabemos bem na vida prática, é a eletricidade, o petróleo, o computador, a geladeira, a pílula, a penicilina, a engenharia genética e a Internet, mesmo que seja, também, a bomba atômica, o agrotóxico e ainda o sofrimento animal. Mas deveríamos já saber que o capitalismo não é apenas o advento de “burgueses e proletários”. É a sociedade capaz de diminuir a labuta humana bruta. Só a observação da média de altura dos indivíduos da maior parte dos países já mostra o inverso do que prega a Internacional Miserabilista. Há sim mais gente vivendo melhor hoje. A expectativa de vida cresceu para todos. A liberdade individual também. A jornada de trabalhou diminuiu e apareceu uma enorme massa de trabalhadores que não precisam mais se desenvolver com a força bruta. A mulher está no mercado de trabalho, é mais livre. O número de abortos diminuiu. A mortalidade infantil caiu até em países em guerra! A educação pública virou algo comum em todo lugar. As leis de proteção ao trabalhador ganharam status internacional. Quando falamos em aumento da distância entre ricos e pobres nos esquecemos de ver que essa amplitude é feita dentro de um patamar onde a maioria melhorou, absoluta e proporcionalmente.

Não estou desfraldando aqui a bandeira do navio do Capitão Cook, com seus canhões apontando para o porto japonês e exigindo abertura de mercado. Ou seja, não estou querendo dizer “capitalismo ou morte!”. Estou dizendo que os problemas hoje são antes os da riqueza que os da pobreza. Vivemos numa sociedade em que o mimo cresceu para todos, mesmo para os que estão na rua como mendigos – e esse mimo precisa ser olhado com um pouquinho de visão dialética. Há uma grande e poderosa classe média no mundo. Todos nós podemos ter uma consciência contra ou anti-capitalista, mas isso porque a retórica escolarizada e crítica cresceu e, de certo modo, se tornou até mesmo uma espécie de falsa consciência. Ou seja, não temos coragem, às vezes, de tomar os problemas que temos, ainda que graves, como problemas que não tínhamos, e que advém da nossa riqueza em todos os sentidos, e não do fácil inimigo que é a pobreza. Precisamos ajustar isso. Um pouco de ajuste entre a crítica da modernidade e o que vivemos de nas ruas como trabalhadores  precisa de certo ajuste.

Se quisermos ainda sermos críticos no futuro próximo, temos de assumir uma visão menos afoita do Palácio de Cristal. Temos de saber ver sua condição de estufa. Não há razão para não olhar para a nossa vida como tendo desafios, na maior parte, que não são os de Os miseráveis de Victor Hugo, ainda que possamos encontrar bolsões de pobreza no Terceiro Mundo que à primeira vista se assemelham aos do passado. Mas, mesmo nesse caso, as aspirações são outras e o envolvimento com a riqueza é bem outro. Mas a direita e a esquerda não têm inteligência e coragem para sair do passado. Só o mundo tem. A universidade deveria ir com o mundo, não com tais grupelhos.

Paulo Ghiraldelli Jr., 59, filósofo. São Paulo, 19/01/2017

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4 Responses “O capitalismo venceu. E perdeu! E … venceu!”

  1. Ícaro
    20/01/2017 at 19:16

    Realmente, não dá pra negar que o capitalismo mesmo acentuando os pólos dos mais ricos e mais pobres, elevou ambos a um patamar maior no que diz respeito ao afastamento da pobreza, tudo isso devido aos grandes avanços tecnológicos que tornou mais fácil a apropriação da natureza pelo homem e também da globalização fazendo com que o homem percebesse suas próprias diferencas, tornando mais o surgimento de um espírito solidário. Sou contra esse sistema econômico devido ao fato do mesmo se basear na mais valia, ou seja, de uma retribuição injusta ao trabalhador pelo trabalho realizado. Que há percalços e muitos no mundo atual, isso é inegável, mas não são problemas que nunca existiram antes.

  2. Hilquias
    20/01/2017 at 01:29

    Professor Ghiraldelli, constantemente venho ao seu blog para curtir a verdadeira filosofia. Nunca comento, mas dessa vez tive que escrever algo. Quanta cultura. Que bom que é poder contar com uma pessoa séria e responsável em tudo o que diz respeito a Educação! Tenho certeza que no senhor há alguém que ama a Filosofia de verdade. Se tivesse Facebook, até comentaria. Mais uma vez, quanta cultura! Parabéns. Sempre me impressiono com o seu pensamento “sem canga”, como você mesmo diz. E passo horas me deliciando com seus artigos. Muito obrigado pelo conhecimento transferido! O professor não faz idéia de como eu mudei de visão desde que acompanho esse blog a uns dois anos. Um deleite para a mente e o espírito. Obrigado e boa sorte!

  3. Pedro de Sousa Portela
    20/01/2017 at 00:42

    Prof. Paulo, eu não quero me filiar à Internacional Miserabilista e até temo que o Capitalismo entre em decadência, isso provocaria convulsões sociais inimagináveis. Mas também não deixo de notar que há deformidades congênitas nele. A acumulação descontrolada de capital é uma delas. Essa semana foi noticiado que os oito homens mais ricos do mundo possuem uma riqueza equivalente a da metade da população mundial, mais ou menos 3 bilhões e seiscentos milhões de pessoas. E olha que os pobres de hoje não são tão pobres como você falou. Será que esse dado não aponta para uma possível fraqueza do Capitalismo?

    • 20/01/2017 at 01:35

      Pedro como você pode falar de “acumulação de capital” no capitalismo como defeito. Isso é sua essência. Ele aumenta a distância entre ricos e pobres, claro. Mas o que ele não faz é aumentar essa distância sempre no mesmo patamar.

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