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30/05/2017

Nem Frota e nem Marx


Esse texto fala de dois temas, escola básica e universidade, segundo os debates atuais. Toca na questão lembrando de Sloterdijk, que estará no Brasil este ano, em outubro.

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Karl Marx e Alexandre Frota concordam em termos de pedagogia. Marx queria que o ensino não fosse centrado em matérias que, do pondo de vista dele, no século XIX, eram muito fáceis de serem controladas por ideólogos (da burguesia), como a História, por exemplo. O pedagogo do MEC atual,  o ator Alexandre Frota, levou para o interior do ministério a proposta da “escola sem partido”. A ideia é dar um “chega para lá” em professores que, ao invés de ensinar, fazem proselitismo ideológico. É uma proposta escrita de forma muito mais suave que a de Marx, ao menos à primeira vista. Marx queria uma escola básica com as matemáticas, a gramática etc., mas sem o que hoje chamamos de ciências humanas. Frota permite as ciências humanas, mas, do modo que faz, introduz uma pouco sutil forma de censura – e isso piora tudo.

A censura é sempre um elemento perverso. Sem censura, os alunos podem conversar abertamente e divergir do professor e aprender a defender pontos de vista. Com censura o aluno poderá cassar o professor legalmente, e eis que o papel da escola se tornará completamente inócuo. Escola não ensina somente conteúdo, ensina postura aberta e decisão lógica, argumentação, capacidade de expor razões, fazer o que o filósofo Roberto Brandom diz que e´a própria filosofia: a arte de dar e receber razões. Com censura, tudo isso acaba.

Entre Frota e Marx, não fico com nenhum. Prefiro a escola liberal-positivista que temos, ou que tínhamos até os anos setenta, de caráter enciclopédico e propedêutica à universidade. Escola com a chamada liberdade de cátedra, disciplina de respeito mútuo, mas com clara saliência para a figura do professor, salarialmente em condições melhores que as de hoje. Era uma escola tanto da Química quanto da Literatura, era uma escola do Grego e do Latin tanto quanto do Francês e Inglês. Era uma escola que não chutava para fora a Música e muitos menos a Literatura Portuguesa. Tratava-se de uma instituição em que a erudita formação de Marx tinha espelho. Era uma escola em que tínhamos a certeza de que o bom professor podia claramente ter posição política, mas justamente por ser bom professor ele procurava o máximo de objetividade (o que não e´neutralidade) no ensino, porque sabia que sem isso não haveria ensino algum.

Mas, deixemos a escola básica de lado e passemos para a universidade. O colunista da Folha de S. Paulo, Hélio Schwartsman, meu amigo, baseou-se na teoria de Marx para dizer que a universidade pública gratuita é um modo de financiar os ricos com o dinheiro dos pobres. Ele põe dados para isso, em artigo recente. Mas o seu argumento pode ser facilmente fustigado, como já foi por alguns leitores, por causa de que ele não colocou as coisas no tempo. Vejamos.

Se hoje o Brasil abrir mão do financiamento da universidade estatal, jogamos fora nossa capacidade de produzir ciência e cultura de um modo tão drástico, que em poucos anos desapareceremos como nação. Não temos substituto para a nossa universidade pública gratuita. Não temos que tirar a gratuidade, mas temos que, para ajustar ao que Hélio quer, tornar nosso ensino público básico e gratuito suficientemente bom para que, como consequência, tenhamos um maior balanceamento entre pobres e ricos na universidade pública. Não devemos fazer da universidade uma escola de pobres. Se isso ocorre, a universidade perde a força política no parlamento e no executivo, e irá amargar falta de atenção social e governamental. Temos de ter uma melhor distribuição classista dentro dela. E isso pela via da melhoria do ensino propedêutico gratuito. Só isso. É pouco, sim, se pensarmos que já fizemos isso. Mas parece complicado agora, porque deixamos os salários dos professores do ensino básico se deteriorar de uma maneira inconcebível. Mas que dá para fazer, dá sim.

Ora, mas isso quer dizer, então, que Hélio está completamente errado no que disse, se pensarmos o Brasil atual? Não necessariamente. O sistema que defendo envolve tempo, e implica na ideia de Peter Sloterdijk de uma sociedade movida não só por energias eróticas, que indicam posse, mas também pela disseminação de uma psicologia política timótica. Defendo uma sociedade que se importe com a doação. O thymos é o órgão que falta à psicologia moderna, que descreve o homem só como um conglomerado de disputa entre razão e paixão. A psicologia antiga, recuperada por Leo Strauss, Fukuyama e Sloterdijk, via o homem com três almas, e o thymos era o lugar da fúria, que podia tender à raiva e ao ressentimento, mas também à bravura e ao orgulho. O thymos era o órgão de identidade. Era ele que dava ao homem a capacidade de ser o curador de alguma instituição – da cidade à escola – e se orgulhar disso, ter identidade com tal cargo ou feito pessoal. Os americanos são timóticos: eles se prontificam em ajudar pessoalmente, com orgulho, suas universidades (ou museus, o a pátria etc.), cedendo dinheiro diretamente. Os milionários americanos fazem isso, e o fazem não só com universidades ricas e particulares, mas também com as pública e estatais. Sei bem que Schwartsman gosta disso, do modelo americano, e torço para que ele tenha escrito pensando nisso, e não pensando em fazer as nossas universidades se tornarem pagas da noite para o dia. Pois se isso ocorre aqui, não vamos ter nenhum milionário querendo ajudar não. Nossa cultura não tem essa tradição. Nossa sociedade foi gerada como colônia que tudo pedia para a Metrópole, os Estados Unidos foram gerados como colônia que fez uma guerra contra o maior Império do mundo, para se gerenciarem sozinhos. Isso fez diferença.

Todavia, o fato de não termos essa tradição de curadoria e generosidade em donativos, isso não significa que não podemos cultivá-la. Em outras palavras: o artigo do Hélio me faz voltar à carga: menos Nozick e Rawls, e mais Sloterdijk. Está traduzido para o espanhol, por organização da minha amiga Carla Carmona Escalera, professora lá na Espanha, o conjunto de textos em que Sloterdijk debate contra social-democratas alemães, mas também contra os ultra liberais, a questão do fisco. Trata-se do livro Fiscalidad voluntaria y responsabilidad ciudadana (Madrid: Siruela, 2014). Faço referência a este livro e não ao seu quase correspondente alemão por uma razão simples: Carla organizou melhor o debate e fez uma bela introdução ao tema, que vale a pena ler. Nesse textos, Slotedijk defende uma cultura timótica, uma cultura semelhante à disposição dos americanos, do imposto não impositivo. Ele assim faz, em termos filosóficos e quase utópicos, de modo a libertar a sociedade do estado maternal ou estado paternal, que desfaz laços sociais ao puxar para si funções que seriam de cada um, da própria comunidade, segundo seus gostos. E ele não acha que se o estado sai de cena, deve entrar o mercado. Ele acredita que o melhor seria que, saindo o estado, entre em cena nossa capacidade de dizer “esse museu (ou universidade) é meu, eu cuido dele, mas ele também é de todos, usufruam”. Cuidaríamos do que fundamos ou do que gostamos ou do que frequentamos. Sua proposta está embasada no que defende no livro, este já traduzido aqui, Ira e Tempo (Estação Liberdade, que já comentei em outros textos e não cabe aqui retomar.

Paulo Ghiraldelli, 58, filósofo

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9 Responses “Nem Frota e nem Marx”

  1. Antonio Fallavena
    06/07/2016 at 11:14

    Prezado Paulo Ghiraldelli
    Mesmo não sendo professor, por outros segmentos, acompanho a escola pública nos últimos 25 anos, em meu estado em em outros.
    Copiei seu texto e passo a acompanhá-lo daqui para frente, com sua licença é claro.
    Se também permitir, deixo um pequeno reparo.
    Faz muito que cobro e debato a expressão “escola publica e gratuita”. Não vejo combinação entre as duas coisas.
    Embora todas as explicações já recebidas de muitos que a utilizam, gostaria de conhecer a sua.
    Não consigo entender e/ou aceitar o jogo das palavras “público e gratuito”.
    Conto com sua atenção.
    Respeitosamente.
    Antonio Fallavena

    • 06/07/2016 at 15:20

      Você pode fazer várias junções: público e gratuito é uma junção, já que gratuito aí é no sentido de ser pago pelo dinheiro público, o que equivale dizer que haverá certa socialização do dinheiro dos impostos. Pronto, é simples. Gratuito aí nunca significou que “ninguém paga”. Nós temos o CEFA, ele é privado e gratuito. Mas isso não significa que eu, que o mantenho, não gaste.

  2. LMC
    07/06/2016 at 15:17

    O Hélio não está nem aí pro Frota,PG.
    É que tem gente que acha que,quem
    gosta do Marx como Hélio come
    criançinha e é do Foro de São Paulo.

  3. Mateus
    06/06/2016 at 02:14

    Professor, pensar nas fundações e incentivos privados, e como contraprestação um abono de certos tributos por parte do Estado, poderia fomentar uma ideia de doação voluntária, ou orgulho em colaborar?

    • 06/06/2016 at 08:14

      Mateus, essa questão do fisco voluntário é filosófica, é uma grande revolução cultural de séculos.

  4. Jose
    04/06/2016 at 17:39

    Eu acho que a Universidade brasileira poderia ser mais inclusiva. Nos EUA apesar da Universidade ser diferente, não ser tão estatal como é no Brasil, lá ela parece ser mais aberta. Acho que a burocracia brasileira dificulta tudo, desde a produção da cultura até a produção material, especialmente para pessoas que estão fora dos conchavos.

    • 04/06/2016 at 17:45

      José há o vestibular para incluir, é estudar. Só isso. O pobre tem de ter escola pública gratuita e boa para estudar, como na minha época. Porra!

    • Jose
      05/06/2016 at 12:44

      Vc é a favor da escola militar, acha que prepara melhor para o vestibular?

    • 05/06/2016 at 13:09

      Escola militar é uma bobagem.

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