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29/03/2017

Não precisamos de um partido de esquerda no Brasil. Não, não hoje.


Sim, eu deixaria para amanhã. Lamento, mas hoje não dá. Um partido de esquerda no Brasil hoje seria diferente do PT ou do PSOL? Não creio. E esses dois não agradam mais muita gente.

Vejamos. Será que há pessoas, hoje no Brasil, no âmbito da esquerda, realmente interessadas em colocar a honestidade acima de qualquer tipo de socialismo? Ou o socialismo é um valor maior? Será que há gente querendo ser de esquerda sem ser anti-americanista? Ou o discurso de que os Estados Unidos de Obama são de direita ainda dura? Será que há na esquerda hoje alguém que se livrou de fato do discurso caduco do Terceiro Mundismo? Ou há ainda saudosos da intervenção de Fidel na África? Existem pessoas querendo, na esquerda, não vomitar clichés da Guerra Fria a cada discurso? Ou todo dia vamos ressuscitar os benefícios da Internacional Miserabilista? Há adeptos da esquerda que não queiram aumentar impostos para “benefícios sociais” que, enfim, nunca sabemos se vão vir? Ou temos de acreditar que o estado vai mesmo dar retorno social só porque o partido no poder é de esquerda? Podemos ter por aí alguém de esquerda que não crie problemas com a entrevista completamente normal da mulher do João Dória? Ou temos sempre de ter preconceito contra os ricos, mesmo quando eles falam o que nossas mães de classe média também falam?

Há na esquerda alguém disposto a falar para feministas duronas que Marcela Temer é bonita e pode ser “recatada e do lar”, e que isso é um modelo positivo para muita gente, inclusive para mulheres de esquerda? Será que encontramos intelectuais que, sendo de esquerda, podem enfrentar minorias que são policialescas e cujas práticas são autoritárias? Será que temos na esquerda gente disposta realmente a conviver com o diferente, deixar o diferente existir, inclusive deixar os conservadores falarem? Temos como encontrar, na esquerda, gente que perceba que a simples demonização do mercado é algo fora de propósito, tolo? Ainda acreditamos que o mercado é ele próprio ideológico? Acreditamos que ele nos consome no fetichismo e na reificação mesmo fora da aula de marxismo que ministramos por aí?

Creio que existem as pessoas de esquerda que estejam pensando mais e melhor. Mas nenhuma delas quer fazer um partido político ou pertencer a um partido. Cansaram de dogmatismo e não estão interessadas em passar vergonha endossando a loucura da ideia de que “Moro é agente da CIA”. Nesse momento, um partido de esquerda, grande, democrático e com ideias realmente novas (como Otávio Frias Filho pediu, na Folha de S. Paulo recentemente), não está no horizonte.  A esquerda política está toda ela, de algum modo, comprometida ou com o discurso do tipo daquele do PSOL ou, pior ainda, com a vontade de ir escondida levar cigarro para o Palocci na prisão. Se ninguém estiver vendo, pode ser que boa parte da esquerda vá levar cigarros para o Lula na cela não especial dele, reservada em Curitiba.

Digo isso por conhecimento de causa. A geração mais velha que a minha, de esquerda, e que me ensinou a ser crítico em relação à URSS (quando eu nem havia ainda saído do colégio), me espantou muito quando do final dos anos 80 e início dos anos noventa. Quando caiu o Muro de Berlim, aplaudiram, mas logo em seguida, quando a URSS desapareceu, perderam o pé, ficaram saudosos, se ressentiram. Perguntei a eles: mas como? Disse espantado: vocês foram os primeiros a me ensinarem a palavra “dissidente”! Não haviam sido sinceros? Sim, tinham sido sinceros. Mas o socialismo é um religião de saudades. O socialismo sempre foi uma doutrina cultivadora do passado, crédula no progresso da história pela confirmação de fatos passados bem escolhidos. Ao contrário do que muitos da direita reclamam, que os socialistas fazem mal porque são utópicos, a verdade é que os socialistas só cultivam o passado, são incapazes de sonhar, de ficcionar. Precisam de recordações. Institucionalizam o passado e criam falsas tradições. Adoram a expressão “a tradição da esquerda é …”.

Eis um elemento para se pensar. A questão da Comuna de Paris mostra bem isso, sobre a busca do passado. Há muitos estudos na esquerda sobre esse acontecimento, o da Comuna, e que durou poucos dias e não chegou a produzir o tanto de cultura apontado pelos estudos. A ideia de que no passado já ocorreu tudo que deveria ocorrer, e que é necessário escolher e fazer isso retornar, é um ponto comum nas esquerdas. O futuro, quando pensado, é pensado com olhos no passado. A esquerda sofre de Síndrome de Flash Gordon. Sim, aqueles filmes de ficção em que as pessoas andavam em naves espaciais de formatos góticos e com roupas medievais e capas romanas. A esquerda gosta da ciência positivista, que promete mostrar comprovações até na história, a partir do já dado. Um partido de esquerda, hoje, iria ser formado ainda por essa gente. Não há o que fazer com essa gente! É gente que não entendeu que Bernie Sanders chegou tarde e que ainda não conhece Peter Sloterdijk.

Paulo Ghiraldelli, 59, filósofo. São Paulo, 11/10/2016

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8 Responses “Não precisamos de um partido de esquerda no Brasil. Não, não hoje.”

  1. Valmi Pessanha Pacheco
    12/10/2016 at 11:17

    Prof. PAULO
    Mesmo com todo o obscurantismo que a esquerda brasileira sempre demonstrou nas tentativas frustradas de “torturar” os fatos para entende-los apenas à luz do materialismo histórico e da dialética capenga, penso que para o bem da DEMOCRACIA e de seus indispensáveis contrapesos, a despeito do paradoxo, incoerência e comprovada incompatibilidade entre “socialismo” e “liberdade”, os leftistas, mesmo assim devem ser protagonistas da busca incessante da aletheia.

  2. Celso
    11/10/2016 at 22:46

    Pois é. Pensamento crítico e capacidade analítica profunda não combinam com a profissão de político, pelo que se observa por aí. Mas daí eu vou votar em quem? No PSDB?

    Prefiro ficar com os partidos de esquerda mesmo. Pelo menos o discurso deles, ainda que panfletário e antiquado, abrange programas de assistência social, maior financiamento para a educação pública, avanços no SUS, enfim, melhorias na qualidade de vida dos menos favorecidos.

    Isso não quer dizer que irei acreditar no compromisso real dos políticos de tais partidos com o discurso que proferem. Nem que irei buscar a retomada das glórias de um passado que nunca existiu (pelo menos não como se gosta de imaginar). Tento me afastar, na medida do possível, das várias formas de dogmatismo que aparecem por aí, como as citadas no seu texto de cabo a rabo.

    Talvez esteja sendo contraditório e simplista ao tomar tal posicionamento. Preciso aprender e ler mais para tomar uma posição mais firme quanto a isso.

    Quanto ao Peter Sloterdijk:
    Não sei se estou pronto para ler Sloterdijk. Talvez você possa me ajudar a saber, Paulo Ghiraldelli. No ensino médio era um excelente aluno em filosofia, certamente bastante interessado. Mas isso foi a seis anos atrás. Desde que saí tive pouco contato com a matéria. Diria que só no cursinho voltei a estudá-la, e sem qualquer diálogo com o professor, o que é bem ruim para aprender filosofia. Sei que tenho bom conhecimento geral, pois passei através do enem no curso mais concorrido de uma das universidades mais concorridas do Brasil. Entendo história e ciências humanas relativamente bem se comparado ao universitário comum de fora da área de humanidades. Estou seguro disso. Há algum livro de Sloterdijk que possa ler? Ou pelo menos algo que possa fazer para retomar meus estudos de filosofia fora do ensino formal?

    • 12/10/2016 at 07:37

      Celso, acho que você não entendeu meu texto, ele não fala para você voltar em X ou Y. Livro sobre Sloterdijk: Para ler Sloterdijk, editora Via Verita, pode pedir direto editorial@viaverita.com.br enquanto não chega nas livrarias. Dele mesmo, leia Ira e Tempo (Estação Liberdade).

    • LMC
      13/10/2016 at 11:06

      Celso,melhor votar no PSDB do que
      no PSC da família Bolsonazi.Esses
      partidos de esquerda só pensam
      nos “mais favorecidos” pra ganhar
      voto.Traduzindo:populismo a
      la Chavez.

  3. Raphael
    11/10/2016 at 16:29

    Mais uma vez ótimo texto.

    Professor, poderia me indicar livros para começar a estudar Rorty?

    Grato,

  4. Ademar Braga
    11/10/2016 at 16:13

    Eu mesmo estou intoxicado dessa esquerda e seu discurso militante e dogmático sem ideias novas e criativas. e estou cada dia mais me afastando desse pessoal, na minha facu nem mais participo dos assuntos da assembleia estudantil, por haver tantas militâncias e nao pensamento reflexivos.

  5. Ricardo Mantovani
    11/10/2016 at 13:51

    Acho que vai precisar de segurança na anpof, Paulo!

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About Paulo Ghiraldelli

Filósofo