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18/11/2017

Monumentos confederados não são inofensivos


Ninguém cultua a Santa “Rodovia Castelo Branco”. Nunca fiquei sabendo de gente que passa pela rodovia, no Estado de S. Paulo, e diz aos filhos: vamos parar aqui e orar pelo grande brasileiro Castelo Branco, que para nos salvar do comunismo (que não vinha de lugar algum!), nos colocou em uma ditadura de duas décadas”. Ninguém faz isso, nem olavetes e bolsonaretes, fantoches da ignorância de 1964 chegam a tal. Por isso, quando a esquerda brasileira começou a querer mudar nomes de ruas e praças, eu fui bem claro sobre o ato: um país que começa a apagar a sua memória destrói sua cultura.

Trump está usando essa “minha” frase para justificar seu apoio aos supremacistas brancos, neonazistas e gente da KKK. Os governadores e prefeitos que estão retirando de cena monumentos dos Confederados, nos Estados Unidos, seriam, para ele, destruidores da cultura americana. Estariam tentando reescrever a história. Em abstrato, ele poderia estar certo. Mas não está correto. Há monumentos e há sinais públicos que não pertencem à história, não são uma recordação do passado, são um projeto de futuro. A guerra confederada passou, mas seus ideias racistas ainda não.

Imaginemos Obama querendo deixar uma marca de sua vitória contra o Terrorismo. Então, ao invés de fazer sumir o corpo de Bin Laden, ele viesse a colocar o tal corpo, junto de estátuas dos soldados americanos, em praça pública. Logo ele teria uma peregrinação de fanáticos que iriam lá no monumento para cultuar o Terrorismo, e fazer dele um projeto de futuro. Seria o equivalente a deixar, na Alemanha, que as pessoas voltassem a se cumprimentar por meio da saudação nazista – o que é proibido lá. A cultura é composta de feridas, todos sabemos, mas a história, que faz parte dela, somos nós que fazemos. Junto dela somos nós que decidimos o que é a historiografia e o que não é. Nessa hora, quando a historiografia aponta para o vivo, é preciso ter responsabilidade sobre quais a feridas que vão ser descritas, e como vão ser descritas. A bandeira confederada não representa heroísmo americano, representa o racismo. Assim ficou, assim se projeto com símbolo para supremacistas brancos, KKK e neonazistas.

O anti-racismo nos Estados Unidos conta com 87% de apoio da população. Mas, notemos, em tempos de Trump, isso não impediu de ver olavetes e bolsonaretes americanas saírem da casinha e, com seus rostos de débeis mentais, fazer das estátuas de confederados um lugar de enaltecimento do ódio. Por isso mesmo, os governadores e prefeitos que decidiram retirar as estátuas confederadas, tomaram a decisão correta. Não se está apagando a história, não se está mudando nome de escola ou de rua, não se está alterando a arquitetura de modo fundamental, mas se está, sem dúvida, sendo cuidadoso com a criação de igrejas do ódio. A chaga da Guerra Civil já não está mais servindo como recordação de uma época, mas se transformando num ideário que não quer morrer, que é o ideário que, na II Guerra Mundial, gerou o Holocausto. Ser governador de um local, ser prefeito, e deixar isso ocorrer, é insanidade. Tudo é cultura, mas nem tudo que é cultura é bonito. Não gostaria de ver o quadro de Debret, onde um negro é espancado no pelourinho, se transformar em um monumento na cidade de São Paulo, e então notar bolsonaretes e olavetes indo lá para cantar e depositar a bandeira brasileira. Afina, sabemos bem, nossa classe média alta, aqui, no presente momento, contratou sob regime semi-escravo, moças filipinas. Você está sabendo disso?

Até republicanos como os Bush condenaram os atos dos supremacistas brancos. O racismo não tem espaço no capitalismo moderno. O liberalismo de Locke, que permitia o racismo, não cabe mais no liberalismo atual, reformado pelo New Deal e recomposto pela entrada do homem no mundo tecnológico. Os empresários americanos abandonaram Trump. Demitem os racistas de suas empresas. E os intelectuais, por sua vez, preferem que a bandeira confederada fique nos livros, não nas ruas.

Depois de doar uma boa grana para os movimentos pacifistas, anti-racistas, o republicano ex-governador da Califórnia, Arnold Schwarzenegger, escreveu aos da Supremacia Branca & Cia: “Minha mensagem a eles é simples: vocês não vão ganhar. Nossas vozes são mais altas e fortes. Não há uma América branca – há apenas os Estados Unidos da América. Vocês não nasceram com essas visões intolerantes – vocês podem mudar, crescer e evoluir, e eu sugiro que comecem imediatamente.” No mesmo dia, surgiu o twitter mais compartilhado da história das redes sociais, que foi de Obama, falando das crianças que não nascem odiando diferenças de cor etc. Todo essa apoio aos anti-racistas, volto a dizer, é pouco em tempos de Trump. E nessa hora, a arquitetura precisa sim ser repensada. Pois do mesmo modo que há ignorantes aqui, no Brasil, que saem por aí dizendo que o nazismo é de esquerda, lá também ha gente vestindo suas crianças com o uniforme da KKK. Criar igrejas para tais pessoas, não é bom. Igreja para o Deus da Ignorância não faz sentido.

Paulo Ghiraldelli, 60, filósofo. São Paulo, 18/08/2017

 

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5 Responses “Monumentos confederados não são inofensivos”

  1. LMC
    19/08/2017 at 11:46

    Ainda bem que tiraram o nome daquele
    que fez o AI-5 do Minhocão.Vê se na
    Alemanha tem alguma avenida
    Adolf Hitler ou na Itália alguma
    rodovia Mussolini.

  2. Gustavo
    18/08/2017 at 19:41

    Professor por favor seria interessante escrever sobre essa “nova moda” em dizer que o Nazismo era um movimento de esquerda. Muitos argumentos estão recebendo um novo olhar. E em momentos de falta de credibilidade e de respostas legítimas precisamos de um norteador.
    Obrigado.

    • 19/08/2017 at 10:08

      Fiz vídeos e já escrevi sobre isso, aqui no blog

  3. Tony Bocão
    18/08/2017 at 13:36

    Ser “confederado” texano é quase que um estilo de vida, D Pedro II ferrenho aliado dos Estados Confederados da América durante a Guerra Civil Americana, atraiu imigrantes brancos para o Brasil. Milhares de sulistas aceitaram sua oferta, mudando-se para cá nos em 1860, o atrativo maior da vinda era a possibilidade de comprar escravos a vontade, até hoje há uma cidade que revive, pessoal se veste, fala inglês em sotaque e pasmem, fazem aquele teatro de batalha… Mas a direita cooptou o discurso livre e relativista, e virou o que se está chamando de “pós-verdade”

    • 18/08/2017 at 17:19

      Tony, conheço bem esse pessoal. Mas eles são sim perturbados mentais.

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