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21/10/2018

Moça, a Venezuela não é comunista!


[Artigo destinado ao público em geral]

O comunismo é pouco definido por Marx. Como bom filósofo, Marx seguiu o esquema da nova filosofia política: faz-se uma análise da realidade, erigida em moldes da ciência empírica (em história a empiria vem dos textos), em grandes volumes – O capital -, e aqui e ali, de forma indicativa, fala-se do futuro. Nesse caso, o “futuro” seria aquilo que viria depois do “capitalismo”, nomeadamente, “comunismo”. Filosofia política moderna é isso: a parte “utópica” é ad hoc, junto da parte principal, que tende a ser “científica”.

O essencial dessa parte “utópica” é que o comunismo se baseia na “socialização dos meios de produção”. Essa é a única coisa que Marx realmente falou de concreto sobre isso que seria “um novo modo de produção”. Essa informação era algo que, para a minha geração, os de 1957, era sabido desde os 15 anos de idade. Não se fazia o “primeiro colegial” sem saber isso. Até mesmo a disciplina Educação Moral e Cívica, criada pela Ditadura Militar, ensinava isso e, cá entre nós, na maior parte dos seus livros – que seguiam manuais de Afonso Arinos – uma tal coisa era relativamente posta de modo correto.

Mas o Brasil das gerações mais novas foi piorando intelectualmente. E junto dessa piora, que se acentuou muito agora, nesses dezoito anos de século XXI, surgiu uma direita que deixou de lado intelectuais para seguir malucos autodidatas, em geral gente que não consegue fazer uma regra de três e que imagina que a gravidade de Newton não existe, ou que a Pepsi Cola tem seu adoçante feito a partir de fetos humanos. Essa pessoal não consegue ler Marx. Aliás, há os que até são colunistas de jornais famosos, e não conseguem ler Marx ou Hegel e, talvez, tenham dificuldade de ler Maurício de Souza. Não sabem o que são “meios de produção” e muito menos o que significa a sua “socialização”. Essa gente, imersa em confusão mental e incultura, passou a achar que o comunismo é baseado em liberdade para o beijo gay, liberdade para a mulher não apanhar do marido, defesa da nudez na arte e, enfim, cota para negros e índios em faculdades e coisa do tipo. Não sei de onde tiraram essa ideia.

Que a esquerda em um sentido amplo defenda minorias e pautas libertárias e de direitos humanos é o já esperado (ainda que isso tenha demorado!), pois trata-se de uma herança iluminista e liberal contra forças conservadoras atuantes de forma predominante antes das chamadas “revoluções burguesas” (Independência Americana, Revolução Gloriosa, Revolução Francesa e Revolução Industrial). A esquerda tem por obrigação histórica ser anti-feudal e anti-Antigo Regime (ainda que seu anti-capitalismo às vezes a faça namorar com tais forças). Mas o comunismo não é a esquerda em geral. O comunismo moderno é uma forma de organização da política da sociedade, e que tem mil e uma interpretações de como pode funcionar (se é que pode), mas só uma característica realmente o faz ser comunismo: socialização dos meios de produção. “Meio de produção” não é o carrinho de pipoca, mas as terras produtivas e a grande indústria, com tudo que há de ciência e tecnologia embutida nisso.

Desse modo, a URSS nunca foi comunista. Havia ali um “capitalismo de estado”. Cuba nunca foi comunista, o que há ali é o estado, na mão de uma família (ou parte dela) – os Castro – controlando tudo por meio de um sistema parlamentar de partido único. A Coreia do Norte é uma ditadura simples, dependente economicamente da China. O “bolivarianismo” da Venezuela não socializou os meios de produção. Aliás, não há ninguém no PT ou no PSOL que saiba direito o que fazer “no comunismo”. Tudo que a esquerda sabe é o que fazer por meio de uma versão de administração do capitalismo voltada para os pobres. Essa versão pode oscilar entre políticas social-democratas e/ou formas de populismo, personalistas ou não, conforme o caso. Para o meu gosto, prefiro a forma liberal de lidar com problemas de igualdade, ou falta dela, levada a cabo por Obama.

Sendo assim, existem poucos comunistas no mundo. Mas eles surgem como milhões ou bilhões na conta da direita imbecilizada, que imagina que Soros é comunista e que procura uma nova Internacional no “Foro de São Paulo”. Há gente que pensa que eu sou comunista por acreditar que o casamento de pessoas de mesmo sexo seja algo que deveria ser legal, ou que por conta de eu dizer que  o aborto não é uma decisão filosófica, mas política, e que deve ser olhado a partir da ótica da saúde pública.

A direita, até mesmo aquela direita que se diz branda, adepta do “conservadorismo liberal”, é tão sem proposta que, enfim, recria bilhões de comunistas a todo instante. Precisa disso para a sua vida fazer sentido. E se a Fátima Bernardes faz uma pauta mais “feminista”, essa direita a desenha com foice e martelo na mão. Todo dia aparece um pseudo intelectual dizendo que recebeu uma carta de um aluno oprimido na faculdade – o professor o fez ler Marx! Tadinho! Ou seja, até o general Frota, da extrema direita do Regime Militar, que via comunismo em touradas dos desenhos do Pica Pau, por conta do lenço vermelho do toureiro, parece hoje um homem culto se comparado com a atual direita brasileira. Nossa direita voltou ao tempo da TFP! E que não se enganem os que acham que há cultos na direita. Ponha essa gente no corner e logo verão que citam o que não leram – nem mesmo Tocqueville.

O triste desse confusionismo mental é que ele acaba voltando para a própria esquerda, como bumerangue, e aí uma Marilena Chauí da vida, se achando o máximo, inventa de falar que o Moro é agente da Cia. Aí sim, os da minha geração começam a dizer: pare o Planeta Brasil, eu quero descer! E lá no fundo se escuta uma voz do Temer dizendo: “tem de manter isso, viu?!

Paulo Ghiraldelli Jr. 60, filósofo.

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18 Responses “Moça, a Venezuela não é comunista!”

  1. Rosângela Guilherme Araújo Dias
    10/10/2018 at 23:20

    Poderia citar uma sociedade onde o comunismo foi aplicado na íntegra? Como poderia haver luta de classes, se a força motriz da sociedade capitalista ou comunista e representada pelo proletariado, que depende do patrão e sofre ainda com o desmantelamento dos sindicatos?

    • 11/10/2018 at 06:41

      Rosângela. O comunismo não é a luta de classes, ele é o fim das classes. Ele é a igualdade econômica levada aos limites, e ao mesmo tempo a abolição do trabalho. Não há patrões ou empregados na sociedade comunista. Ela é o paraíso na Terra. A produção é coletiva, maquinizada, e o homem tem apenas que viver. É uma grande utopia, no sentido original da palavra. O comunismo está na esteira da Cidade de Deus de Agostinho, da própria Utopia de Morus etc.

  2. Guillermo
    20/07/2018 at 14:46

    Muito bom texto. Dá para esclarecer os “doutores em opinologia” que abundam nas rede social.

  3. Felipe
    13/06/2018 at 23:41

    Ah, o famoso fenômeno alucinatório do “marxismo cultural”.
    A pseudoformação progredindo em escalas galopantes.

    • 14/06/2018 at 08:40

      Sim Felipe. O certo seria das uma surra de cinta no Olavo e outras bolsonaretes, e também no Karnal e no Pondé, esses energúmenos são dose.

  4. LMC
    28/05/2018 at 11:09

    O nazismo foi de esquerda,Brizola
    era dos direitos humanos que
    defendem bandidos,PG e Karnal
    são comunistas e a Venezuela
    é uma ditadura.Esta é a direita
    Pondézista-Olavete brasileira.

  5. Orivaldo
    27/05/2018 at 15:37

    Espero que você tenha razão quando diz que nossa população é social democrata. Confesso que as redes sociais me deixam com uma sensação diferente. Me esforço pra acreditar que esse lixo opinativo, sem base de conhecimento, não passe dessa porcentagem que o Bolsonaro tem nas pesquisas e fique aí…

    • 27/05/2018 at 17:40

      Jornais ideológicos do passado e sites ideológicos do presente são feitos por uma pessoas só, em geral pagas, ou fanatizadas. Tipos como o Bolsonaro fazem sempre a votação de um Eneas.

  6. 27/05/2018 at 00:06

    Então Marx foi pirateado suas ideias e não aplicaram?

    • 27/05/2018 at 00:13

      Gessivaldo, que tal estudar ao invés de repetir os incultos que eu denuncio aqui no artigo. Leia. Procure professores.

  7. 27/05/2018 at 00:04

    Excelente texto. Eu que sou capitalista roxo
    Só fico aqui perguntando…entao o regime soviético , cubano e coreano foram uns usurpadores de uma idéia comunista não aplicada??? Só usaram o nome?? ?
    Pelo texto acima sim.
    Mais…e se não funcionou é porque nao foi aplicada corretamente?

    • 27/05/2018 at 00:14

      Gessivaldo, se você nem sabe o que é socialismo, como vocês diz que é capitalista roxo? E você é capitalista como? Tem capital?
      Sabe o que me deixa puto com um cara de direita, não é a opção política dele, mas é o fato dele não saber a razão pela qual está fazendo essa opção.

  8. Matheus
    26/05/2018 at 22:23

    A explicação sobre esquerda e marxismo/comunismo/socialismo/capitalismo de estado não tinha como ser mais direta, objetiva, e didática!

    Compartilhei e já aguardo os mimimis dos “esquerdas”: “Não há esquerda sem o Marxismo!!!”

  9. Hilquias Honório
    26/05/2018 at 19:49

    Muito bom! Agora, com essa crise dos caminhoneiros, todo tipo de teoria da conspiração pega: desde a idéia de que os militares vão apoiar os grevistas e derrubar o governo (alguns seguram faixas pedindo a tal Intervenção), até os que falam que tudo é um golpe comunista (maçom-judaico-islâmico-satanista-gay).
    Mesmo assim, tenho percebido que, conversando com alguns jovens, eles entendem até rápido (se não forem burros). Creio que ainda podemos lutar pela nossa cultura. Mas tá difícil. O triste é ver essa gente citando Marx e Tocqueville.
    Agora, as reações dos conservadores diante da Fátima Bernardes são cômicas.

  10. Orivaldo
    26/05/2018 at 19:20

    Mesmo, na época, não sentir nenhuma admiração por eles, hoje vendo essa direita , que mais parece uma curva de rio, representada pelo dono da Havan e mais alguns “capitalistas meia boca” que defendem, contraditoriamente, a privatização da Petrobrás e a intervenção militar, digo que sinto saudade daquela direita que abominavamos mas que sabiam do que falavam…

    • 26/05/2018 at 21:22

      Orivaldo, a direita do passado era burra. Os generais militares era estúpidos. Mas agora é um caso de debiloidismo mesmo.

  11. Paulo Henrique
    26/05/2018 at 17:49

    Uma das pautas que incendiará as eleições do ano atual para o cargo de Presidente da República será, sem sombra de dúvidas o combate a corrupção e, inegavelmente o combate ao comunismo, haja vista que apesar das suas manifestações acima desviando o PT da atribuição de partido comunista, a maioria da população o têm designado dessa forma e é indubitável que os últimos anos de democracia no Brasil tenham sido uma alavanca para a vida financeira de políticos que comumente foram beneficiados por esses partidos com ideais ditos comunista ou de tendência de esquerda. É de suma importância o Brasil renovar em todos os âmbitos, pois em uma democracia onde o Executivo tem o poder de indicar o Judiciário não é uma democracia, mas sim uma ditadura branca, escondida e rude, que mata milhões nas filas dos hospitais e em tantas outras esferas da sociedade. Perfazendo a pergunta, gostaria de saber qual a sua opinião sobre o socialismo/comunismo pregado no Brasil, exclusivamente, e como um comunismo apesar de científico pode ser implementado na prática com exemplos no dia a dia, pois eu por exemplo não gostaria de levantar uma pá enquanto alguns estudam para florescer a tecnologia de uma nação, o senhor gostaria?

    • 26/05/2018 at 21:25

      Paulo Henrique essa coisa de “comunista” só pega em minoria de direita burra. A população brasileira não vota por ideologia. Nossa população é de maioria social-democrata. O problema é ver quem encarna isso.

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