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28/02/2020

Minha declaração de voto para presidente


Todo dia aparece no meu mundo virtual (há outro hoje em dia?) gente cobrando minha declaração de voto! OK! “O povo precisa saber!”

Filósofo não tem compromisso político. Quem tem compromisso político, hoje em dia, é só o político e os fanáticos. Os primeiros, por sobrevivência. Os segundos, uns por sobrevivência outros por vivência e outros, ainda, por burrice extrema que caracteriza a essência do fanático.

Gosto da democracia liberal e até escrevo sobre filosofia política, mas política, política mesmo, não faz parte da minha vida. Como a minha vida não se diferencia da filosofia, diferente da dos filósofos de jornal e de sala de aula, fica fácil cumprir o desiderato da boa filosofia. Não preciso agradar ninguém nem obedecer a ordens de governos e empresários. Não preciso ter patrão, dono e feitor.

Por isso mesmo, voto quando quero e somente quando quero. Creio que após 1989 não votei mais, em instância nenhuma. Mas agora, nessas eleições próximas para presidente, estou pensando seriamente em quebrar meu jejum e encerrar uma carreira de quase uma vida de justificações eleitorais e até mesmo de pagamento de multa.

Meu candidato? Tudo me empurra para o Pica Pau. Sim, ele mesmo, o célebre Woody Woodpecker.

Ele tem aquilo que os candidatos e governantes deveriam ter, mas jamais terão. Ele é jovial, independentemente da idade (novo ele não é). Não teria aquela cara de ranzinza de Serra ou Dilma, quando contrariados. Ele tem só sua casinha na árvore, portanto, numa declaração de bens, se sairia melhor que o Mujica. Não é nem de esquerda e nem de direita, mas é democrata: quer que cada uma tenha boas oportunidades, não iguais, mas equivalentes. Quando posto diante de situações policiais, sempre é inocente, mas nunca faz como o Lula que fica contestando a justiça. Muito menos paga para o Nassif fazer dossiê contra o juiz.

Pica Pau gosta de mulher pelada, faz diabruras na escola. Aliás, na sua escola a disciplina é rígida! Nunca faz aquele papel de Alckmin ou Haddad, ou seja, de bundões. Ele não chama a polícia para seu lado, aliás, ela não viria! Mas ele nunca deixa de revidar os que incomodam a paz da floresta ou do telhado.

Pica pau perturba? Sim! Ele é como o paulistano. Todo dia fazendo o mesmo barulhinho, toc-toc, toc-toc, trabalhando pela comida. Isso irrita demais os vizinhos. Em geral dorminhocos. Quando tentam tirá-lo de seu tirocínio, ele volta e volta. Na terceira vez, ele faz uma traquinagem boa para o dorminhoco. Mas algo saudável. Ele tem o que todos os ideólogos da direita e da esquerda não têm: fair play.

Diferentemente de FHC, o Pica Pau nunca tem um só plano. Ele tem vários planos. Ele faz o primeiro, e mesmo que dê certo, ele faz um segundo. Ele é um eterno maquinador, um personagem de vários engenhos. Aliás, ele nunca fica se vangloriando de um plano do passado. Fez um, já passa para o segundo.

Sem qualquer semelhança com nossos políticos, Pica Pau não tem parentes. Portanto, o nepotismo não é com ele.

Pica Pau tem uma vantagem enorme sobre Marina Silva, ele é bonitinho e, se está com aquela cara de desolado, sempre consegue algum tônico para voar.

O principal mérito de Pica Pau, especialmente o velho, é que ao final ele solta aquele célebre “qué-qué-qué!”. É um canto espirituoso. Uma saudação para todos, pois ele sabe que todos virão ve-lo de novo. O político quando ri, ri de nós. E isso, no caso, são todos.

Paulo Ghiraldelli, 56, filósofo. Autor de A filosofia como crítica da cultura (Cortez, 2014)

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8 Responses “Minha declaração de voto para presidente”

  1. Paulo Henrique Andrade
    04/07/2014 at 22:26

    Vc está certo. Eu votaria no Joaquim Barbosa se ele pudesse se lançar em candidatura avulsa. Mas o sistema não deixa. Essa nossa democracia é viciada, mas mesmo na Suiça – onde há uma abundância de referendos e plebiscitos – a democracia é uma farsa com muitas falhas.

    Neste mundo em que vivemos, a política é podre até o bagaço. O dinheiro polui todo o sistema político. A única solução que vejo seria dar o poder aos justos e honestos (supondo que eles existam), genuinamente preocupados com a felicidade coletiva e de cada um. Mas como encontrar essas pessoas ?

    Talvez só mesmo com a chegada de alienígenas para botar ordem na casa, e terminar com esse estado de coisas – de preferência também com a extinção do dinheiro da face da Terra. Daí poderíamos pensar em algo mais seriamente…

    Mas isso agora parece um delírio… ou não.

  2. palhaço Klingdon
    23/06/2014 at 20:04

    Assuma logo que vc não tolera democracia, seu velhote!
    Joga o direito a voto no lixo, é? Q VERGONHA!

    • 23/06/2014 at 22:05

      Assuma logo que você é palhaço! Ah! Você já assumiu. Mas, na verdade, você não é palhaço, é apenas um coitado incapaz de rir de um texto. Cuidado, você vai acabar tentando de enforcar num pé de couve. Mas antes, termine o ensino médio ao menos.

  3. Camburão
    21/06/2014 at 16:50

    Em cima do muro de novo??
    Esse pica-pau aí é o lokão, não o original mais antigo.

    • 21/06/2014 at 17:59

      Você não é o camburão, é o camuburrão, aquele que precisa de diretrizes políticas, tadinho. E pior: nunca viu o Pica Pau.

  4. anderson garcia
    21/06/2014 at 12:07

    Professor, você aborda o tema de forma inteligente e humorada. Filosofia Política é um dos temas que mais gosto. Mas…, qual seria a “melhor” forma pragmática de não nos esquivarmos da nossa “responsabilidade” enquanto sociedade civil?

    • 21/06/2014 at 15:24

      Anderson, sou filósofo, não guru, político ou conselheiro. Se quiser aprofundar no tema, sem ter ordens para seguir, leia o Filosofia política para educadores (Manole)

  5. Alberto
    21/06/2014 at 05:14

    Paulo, uma boa dica para votar. Cara, deixe-me contar algo. Fui durante várias eleições mesário, até que um dia cansei e não fui. Ameaçaram-me de prisão. No outro dia estava com atestado de louco. Meu voto: não saio de casa, prefiro pagar a multa!

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