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30/04/2017

A loira e a negra podem falar a mesma coisa?


A América mostra sua diferença numa estranha homogeneização linguística. 

Por que Michele Obama foi copiada pela loiríssima Melanie, mulher de Trump, em um discurso no Partido Republicano? Por uma razão simples: a essência da democracia é cumprir o seu ideal de ser o “governo do povo”, e os Estados Unidos estão à frente desse processo, fazendo da população realmente um “povo”.

Há uma grande classe média nos Estados Unidos, ainda que a diferença social e econômica tenha aumentado. Essa classe média possui divergências claras quanto ao pensamento social, mas trata-se de “povo”, “massa”, com educação semelhante e sob os mesmos meios de comunicação. Desse modo, o discurso que os políticos usam para falar com a maioria tende a se tornar muito semelhante. Em determinado momento, todos os políticos começam a falar verdades básicas, aquilo que não pode ser contestado, o que soa menos radical. E eis então que uma loira altamente conservadora pode copiar vários trechos de impacto do discurso que saiu da boca da negra progressista. Caso o êxito fosse o inverso, no momento, não pense que o discurso da negra (uma outra, não Michele, que é honesta) não copiaria o da loira.

A democracia moderna busca igualdade sem que se se perca a liberdade, tendo por base a fraternidade ou, em termos sociológicos, a solidariedade. Quando os discursos começam a ser trocados assim, isso mostra não um fracasso da democracia, mas seu êxito. Pois não se consegue igualdade sem algum nível de homogeneidade cultural que, de certo modo, era para vir de maneira menos medíocre. Mas ser medíocre é ser próprio do mediano, da média, do que é possível de ser trocado de maneira fácil.

Há um preço a ser pago pela democracia moderna, é que ela é uma democracia que pode se realizar. Na conta de Derrida, ela é sempre “o que vem”, mas não chega, ora, na conta dos Pais Fundadores da América, a democracia é o que se faz, o que realmente chega, o que se alcança. A democracia alcançada traz certo nível de igualdade que carrega uma homogeneidade que logo se faz vencedora no âmbito dos vocabulários. Há “valores americanos” demais na América, de um modo não equivalente em qualquer outro lugar do planeta, pois não há “valores germânicos” demais na Alemanha e nem “valores brasileiros” demais no Brasil. Semelhante aos americanos, só há os franceses e os britânicos, mas em uma situação de muito menos brilho e força. São impérios gastos. Mas o Império Americano ainda não deixou o mundo. É sem dúvida o único império que conta com o poder de uma rede de comunicação que vai de casa em casa, a Internet, com a força da moeda que tinha a efígie de César, nos tempos do Império Romano, mas força multiplicada por mil. Essa força volta para a própria América. Nenhum país do mundo tem em suas casas, quase como regra, a bandeira nacional. Só os Estados Unidos. Nenhum país do mundo tem o seus partidos com as mesmas cores, as cores nacionais, e em nenhum lugar do mundo os discursos ficaram iguais ao longo do tempo com a rapidez com que ficaram nos Estados Unidos, e isso fez surgir a Era Reagan. Ele foi o presidente que quase implodiu o Partido Democrata. O eleitorado democrata votou nele. Claro que as diferenças reapareceram com Obama.

Percebemos tudo isso, hoje, porque estamos num processo de diferenciação radical. Mas diferenciação econômica, não propriamente de linguagem e informação. É esse contexto de igualdade-diferença que nos faz estranhar, finalmente, que a loira conservadora possa falar coisas que Michele fala. E se olharmos mais a fundo, veremos que as semelhanças dos discursos não serão só de pequenos trechos. Veremos inclusive Trump, um truculento, falar uma série de coisas que soaria suave como as de Obama. Ora, o populismo, no caso do populismo de direita de Trump, é um fenômeno da democracia moderna, não o oposto. Suas versões à direita, como agora com Trump, com um pouco de ampliação a mais, podem vingar. E só perceberemos que já faz tempo que os candidatos do mundo todo estão com discursos esvaziados quanto mais esse discurso se apresentar por rostos tão diferentes, e que de fato pensam diferentes, como no caso das belas Michele e Melanie.

Paulo Ghiraldelli, 58, filósofo. São Paulo 19/07/2016

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8 Responses “A loira e a negra podem falar a mesma coisa?”

  1. bardo toad all
    10/08/2016 at 16:04

    eu quase esqueci. o sistema eleitoral americano mostra que dizer que os EUA é a “maior democracia do ocidente” é uma boa piada.

    • 10/08/2016 at 18:28

      Bardo, há os que sabem, como meu, e há os que não sabem, como você. Você não sabe o tamanho dos Estados Unidos e não sabe o regime político de lá. Não faça o ENEM, não vai passar.

  2. bardo toad all
    03/08/2016 at 12:07

    “a maior democracia do ocidente”… o senhor está pensando em começar na carreira de humorista?

    • 03/08/2016 at 12:16

      Bardo o fato de você ter problemas mentais e não saber a população dos Estados Unidos e a idade da democracia americana é um problema seu, não meu.

    • bardo toad all
      10/08/2016 at 16:01

      não, meu caro senhor, não se trata de censo populacional, nem da idade da democracia americana, mas da realidade politica deste país que está bem longe de ser democrática, haja visto que os EUA flertaram com o Fascismo/Nazismo [daí o motivo de Trump ter audiência e eleitores] e haja visto a situação social dos negros e latinos. Torna-se inconcebível dizer que os EUA é a maior democracia do ocidente ao mesmo tempo que este país invade outros países, mantêm pessoas inocentes presas “por questões de segurança nacional” [Guantanamo], sem falar da CIA e do patrocínio [com armas, munição e treinamento] aos “grupos terroristas islâmicos”.

    • 10/08/2016 at 18:28

      Bardo, já percebi que tem dificuldade cognitiva, não precisa tentar provar.

  3. luiz gonzaga teixeira
    19/07/2016 at 12:38

    desde Tocqueville os EUA são o país dos idiotas. Myrdal tem um bom trecho sobre essa façanha de transformar toda uma geração em idiotas. O roubo de discurso, de esquerda, já é praticado no Brasil pelo Maluf, por exemplo, há muito tempo. O problema é que nos eua há dois momentos nas eleilções. Primeiro, ganhar a militância. A direita tem que nesse momento fazer um discurso de extrema direita, a esquerda um discurso de extrema esquerda. Esse momento é mais verdadeiro. E depois vem a tarefa de conquistar um pedaço do eleitorado do outro, mais ao centro. O conservadorismo tende a acabar no mundo inteiro, já que sua sustentação são pessoas sem escola e mais velhas. Nos EUA, pra não acabar, o conservadorismo em vez de se modernizar se aproxima da linha dura. Normal.A busca da identidade. Mas tanto lá como no Brasil só produz candidatos ridículos.

    • 19/07/2016 at 12:52

      Luiz Gonzaga OS Estados Unidos são o país dos idiotas? Imaginem sem fossem espertos heim? Derrotaram a Inglaterra, a maior potência impearialista, chegaram á Lua, fizeram a maior democracia do Ocidente, possuem escolaridade para a maioria e as melhores universidades do mundo. Acho Luiz que seu problema de desinformação é do tamanho de seu problema de não entender um texto fácil como o meu. Agora, Tocquevile, não tente. Pelo que disse, você não o leu.

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About Paulo Ghiraldelli

Filósofo