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28/02/2020

Março de 2014: Brasil de Dilma, Brasil de Claudia


Claudia se dirigia à padaria de seu bairro e uma bala rasgou seu pescoço. Foi da polícia? De onde veio o tiro? Claudia foi jogada no porta-malas de uma viatura da polícia, no caminho a porta se abriu e ela foi arrastada pelas ruas do Rio de Janeiro. Tudo filmado. Os policiais responsáveis por esse episódio de açougue-sem-licença possuem diversos assassinatos nas costas. Ninguém sabe como que ainda estavam e estão na Corporação. Alguém ousaria dizer que a Corporação é corrupta?

Dilma não soltou nenhuma nota. Depois, pressionada, timidamente deu uma tuitada, menor que aquelas que troca com Ronaldo e Neymar, e que nos custam 50 mil reais cada uma – isso já por fora do “salário” de Ronaldo pelo seu trabalho na Copa!

Também pressionado, o governador do Rio de Janeiro recebeu a família de Claudia no Palácio. Desconfortável diante de ver sentados ali pretos pobres, pediu desculpas num tom que causa vergonha alheia, ao mesmo tempo em que os policiais responsáveis pela barbárie estavam sendo soltos “por falta de evidências” quanto a alguma irregularidade.

Na Internet a foto de Cláudia atravessou as redes sociais. Pasmem: os adoradores do jornalismo de direita, sensacionalista, diziam “ah, vagabunda tem de morrer mesmo”. Em segundos, Claudia havia virado bandida, o que nunca foi. Os policiais balofos, incompetentes, ficaram naquela de esperar a jornalista facistóide do SBT vir tirar fotos com eles. Talvez estivessem pensando: já que ela está em campanha com o “adote um bandido”, vai nos acolher!

O jornalismo de esquerda, inteirinho comprado e acoplado à Rede Nassif de Notícias Falsas tratou de falar da polícia, mas não de como o PMDB e o PT, nos governos, têm feito do Estado um arauto de desrespeito aos Direitos Humanos. Os governos de esquerda adotaram a prática da direita, pois estão mais preocupados em perseguir e intimidar manifestantes do “Não vai ter Copa” do que qualquer outra coisa. Dilma se imagina como um novo Médici. Cabral já não imagina mais nada, pois não tem cérebro, apena uma caixa na cabeça, que talvez contenha o bulbo. Cerebelo não!

A Copa é tudo. Ninguém mais quer fazer nada, pois quem mordeu o seu já está de férias, e quem não mordeu está para morder durante a Copa. Assim pensam todos nos governos estaduais e no governo federal. Nós somos vistos pelos governos, tanto na direita quanto na esquerda, como sacos de batatas pagadores de impostos. Vão tomar nosso dinheiro de qualquer maneira e, enfim, se atrapalharmos alguma cena do “Tropa de Elite”, levamos chumbo no pescoço de modo a logo poder imitar Claudia que, rebelde, não quis ficar no porta-malas.

Segundo Max Weber o estado é a instância que possui o “monopólio da violência”. Por isso mesmo, precisa ser vigiado de modo que não exerça a violência de tal modo que venha a perder a legitimidade quanto à posse desse monopólio. Já perdeu. Os nossos governantes fizeram questão de transformar o estado brasileiro em um monstrengo cuja ação começa a dar razão para todo e qualquer anarquista, tanto o pró-pobre quanto o pró-rico. Começamos a acreditar que se o estado está presente, as coisas não vão sair diferente de quando a milícia está presente.

Quando a milícia está presente, ou seja, quando estamos sob a lei dos “justiceiros” do jornalismo do SBT, as pessoas são amarradas aos postes, nuas e sofrendo. É claro que, no meio das vítimas desse abuso malévolo, muitas são pessoas que não pagaram a milícia e por isso e só por isso estão ali. Quando o estado está presente, uma moça com quatro filhos e que sustenta quatro sobrinhos, vê seu corpo se descarnar nas ruas podres e fétidas do Rio de Janeiro. E então lemos na Internet gente dizendo, sem qualquer cerimônia: “carne negra cai bem para recapear o asfalto”. Com o professor ganhando (!) nove reais a hora-aula na escola pública, talvez a ignorância generalizada esteja mesmo incentivando a mentalidade que cultiva a selvageria.

Brasil, um país de todos. Brasil, ame-o ou deixe-o. Na democracia, assisto o que já vi na ditadura.

© 2014 Paulo Ghiraldelli, filósofo.

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13 Responses “Março de 2014: Brasil de Dilma, Brasil de Claudia”

  1. Valdério
    20/03/2014 at 22:15

    Paulo,

    Desculpe abusar do lado professor, mas esclareça-me uma dúvida que tenho de uns tempos pra cá… O monopólio da violência pelo Estado não deriva do Leviatã de Hobbes? Estes autores estabeleceram limites nesse acordo que temos com o Estado?
    Se a pergunta for muito básica ou requisitar alguma leitura, agradeço qualquer sugestão.

    Abç

    • 20/03/2014 at 23:18

      Valdério, a formulação é weberiana, mas é claro que toda a tradição jusnaturalista é sabida por Weber. Livro? Pode ler o Filosofia política para educadores (Manole)

    • Valdério
      21/03/2014 at 08:35

      “Valdéria” é sacanagem Paulo.

      Vou ler esse livro após o seu último. Ei, será que o autor é bom?? (rs) Abç

    • 21/03/2014 at 09:43

      Desculpe-me, Valdério.

  2. Marco Antonio
    20/03/2014 at 21:21

    Um belo texto. Triste texto!

  3. Afonso
    20/03/2014 at 16:50

    Seria de se perguntar: a serpente saiu do ovo? Talvez não seja para tanto (talvez ainda esteja em gestação), mas nas brechas que ‘recortam’ nossa frágil democracia sobram intolerância e desrespeito. Aliás, pensando-se na ‘legitimidade’ da violência do Estado, não seria pertinente propor uma ética de responsabilidade do Estado, nos parâmetros da ética de Levinas, a responsabilidade do forte (Estado) pelo fraco (Cláudia, pretos, pobres, todos nós, enfim) – seria possível uma leitura (ou uma prática) nesse sentido? Afinal, não é o Estado (e as leis) o regulador para que se preservem os direitos básicos, a igualdade de oportunidades etc.? Todavia, seria pertinente (ou imprescindível) também estender essa ética da responsabilidade a todos, para que o respeito ao outro, a alteridade represente enriquecimento, diversidade de conhecimento e acolhimento do nos é alheio – esse o sentido da experiência humana, não? Caso contrário, teremos de nos contentar com os guetos.

  4. Roberto Nogueira da Silva Neto
    20/03/2014 at 16:05

    Coisas inesperadas ainda estão por vir. E acho que este governo vai cair nas eleições deste ano, não sei pra quem, mas vai, junto com o PMDB.

  5. Felipe Berchielli
    20/03/2014 at 14:55

    É Paulo…o que me assusta mais além do horrível estado brasileiro de fato é os comentários jocosos do tipo “se tomou bala é porque fez algo”.

    Weber diz que o monopólio da violencia pertence ao Estado,mas o “homem de bem” também é violento e quer um pouco disso pra si,assim como o bandido,assim como vários policiais(vide Carandiru e adeptos de que se façam mais casos como aquele), estamos enfiados no talo na violencia,seja de quem for,e não vejo onde há saída para esse terrível quadro.

  6. Lucas
    20/03/2014 at 14:01

    Paulo, em um país onde idolatram os “Capitães Nascimento”, acho que essa versão do texto de Bretch retrata bem a mentalidade dessas pessoas medíocres:
    “Primeiro levaram os negros
    Mas não me importei com isso
    Eu não era negro
    Em seguida levaram alguns operários
    Mas não me importei com isso
    Eu também não era operário
    Depois prenderam os miseráveis
    Mas não me importei com isso
    Porque eu não sou miserável
    Depois agarraram uns desempregados
    Mas como tenho meu emprego
    Também não me importei
    Agora estão me levando
    Mas já é tarde.
    Como eu não me importei com ninguém
    Ninguém se importa comigo.”

  7. Pedro
    20/03/2014 at 12:22

    Paulo, seus textos têm contribuído significativamente para pensarmos e questionarmos nossa atualidade. Suas provocações também são “problematizações”… Essas, no âmbito filosófico, sempre necessárias… Uma pergunta meu caro: o que estamos construindo? O que iremos enfrentar? Desculpe, mas me sinto confuso… Parabéns pelo novo livro, e continue publicando!

  8. MARCELO CIOTI
    20/03/2014 at 11:53

    Esqueci de citar acima:os três políticos
    que citei são da base aliada da Dilma.
    Vi no JN,que depois de se encontrarem
    com o Cabral,a família se encontrou
    com o Marcelo Freixo,do PSOL.

  9. MARCELO CIOTI
    20/03/2014 at 11:47

    Pois é,PG.O Sarney,o Collor e o Maluf
    apoiaram a ditadura e ainda tem gente
    que acha que o governo da Dilma é
    comunista e chavista.Não existem
    lunáticos só na Nasa,não…..
    Aliás,já que fizeram um filme
    brasileiro chapa-branca chamado
    Alemão,que tal fazer outro filme
    chamado Cláudia?O desafio está
    lançado.

  10. Guilherme Gouvêa
    20/03/2014 at 11:37

    Quando, há décadas, órgãos de classe e defesa dos Direitos Humanos alertaram sobre o processo corrosivo que ocorre no Brasil, estavam justamente preocupados com a progressividade desse tipo de supressão de direitos: dos maus-tratos contra os “malfeitores” à instalação do estado policialesco, bem como à banalização do terror (estatal e privado) e da tortura foi apenas questão de tempo, como previsto…
    *
    Avisaram e continuamos avisando, mas para o povo sem educação formal básica, o discurso é compreendido como “defesa de quem não presta” em detrimento do “cidadão de bem”.

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