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24/09/2017

Lula em cima e dentro do caixão – um espetáculo contemporâneo


“Nunca antes nesse país” uma pessoa havia conseguido a façanha de estar dentro de um caixão e ao mesmo tempo em cima dele, discursando sobre o morto, ou seja, ele próprio. O surrealismo abraçou a política. Ou melhor, Lula se consumou na Trindade. Ele morto, ele vivo e ele sendo o PT.  A perichoresis do momento.

A modernidade atual permite isso. Podemos gravar nosso discurso sobre nosso próprio caixão, em holograma inclusive, e discursar sobre nós mesmos, de cima do caixão. Haverá o dia em que os caixões já estarão com esse dispositivo. O morto se levantará em holograma e falará as quase últimas palavras sobre si mesmo, onde poderá então dar a sentença final contra seus inimigos injustos e justos. Terminado o holograma, todos terão de se calar. Não se responde a um holograma. Não se responde a um morto. A tática é perfeita. Ninguém pode falar contra o discurso de Lula que, afinal, não foi sobre ele, embora fosse. Ele deixou bem claro que seu inimigo era Moro e a Lava Jato. Pois ao mesmo tempo que discursava dizendo “eles mentiram”, as redes sociais eram invadidas pelo esquema conhecido, do PT-Nassif, regado a ouro (dinheiro nosso sim, de velhos Carnavais), que inventou a mentira de que Moro havia intimado Lula no dia da morte de Marisa. O teatro do enterro foi arquitetado. A morte prolongada ajudou muito.

Lula nunca sentiu nada por Marisa. Quando seus filhos nasceram, ele estava “construindo o PT”. Lula saiu da condição de pobre antes mesmo da campanha de 1989. Mas Marisa nunca teve empregada doméstica não porque não podia ou porque queria fazer o papel de pobre. Nada disso. Ela assim agiu por conta da própria estrutura mental de Lula e, de certo modo, dela mesma. A mulher é para ficar na cozinha, mas não de calcinha e salto alto, como quer a piada. Quando Marisa chegou a ser primeira dama, achou que tinha condições de administrar seu cartão corporativo, uma vez que havia administrado o lar. Mas não tinha. E Lula, bem antes de ser presidente, dava suas investidas com as garotas petistas, e depois com a amante oficial, que chegou sim a magoar Marisa o suficiente para adoece-la. Aliás, como FHC, que nunca respeitou dona Ruth Cardoso, Lula agiu com Marisa de uma maneira que sempre fez as feministas da esquerda olhar para o outro lado – elas se tornaram especialistas nisso! Marisa foi uma peça útil até o final. Morta, ela deu a Lula o seu comício sobre si mesmo.

Tudo isso é questão de análise política. A filosofia entra mesmo é na questão do discurso de Lula fora do caixão em homenagem ao Lula deitado dentro do caixão. Nesse caso, temos de notar, a operação é sempre bem aceita pela mentalidade popular. Todos nós nos imaginamos podendo sair do corpo, na hora da nossa morte, e então abraçando a verdade e pondo fim aos mistérios, olhar para os que ficam ao redor do caixão e dizer: “seus tolos, só eu sei de tudo agora, e irei me vingar de cada um de vocês”. Todos nós, em algum momento, temos esse relance de pensamento, que é bem explorado por novelas toscas ou por bons filmes de ficção. Por essa difusão da ideia popularesca e anti-católica de que morremos e já estamos em consciência olhando para tudo, como “espíritos”, Lula fez do enterro de Marisa uma peça de mau gosto, mas com valor mais que simbólico. A coisa foi de tamanha eficácia que ele conseguiu se reunir, numa sala ao lado do caixão, junto com Temer, e dar conselhos, e inclusive se insinuar para um “acordo”, como se fosse o único líder da oposição e um, afinal, eterno companheiro. Lula sabe o quanto Temer tem medo, como ele próprio, da Lava Jato. No fundo, só o próprio demônio pode desfazer a fusão do PT com o PMDB, que se deu no âmbito para além da militância que sobrou – os fanáticos imbecilizados por si mesmos.

Os operadores do espetáculo todo estão de parabéns. O show surrealista saiu basicamente de modo espontâneo, pois Lula é antes de tudo um homem-político que um animal-político, o que é bem pior, e as coisas ao redor dele vão acontecendo sem ele precisar mandar. Como ele sempre diz: “um amigo fez”, “um amigo deu”, “um amigo comprou e emprestou” etc. O enterro foi a mesma coisa: os amigos espetacularizaram a ponto do microfone nem por um momento deu microfonia. Raro até em show de bandas com mais de 50 anos de palco. Tudo perfeito. Marisa deu o tempo de morta-viva o necessário.

Só uma coisa a mais faria o espetáculo honrar os nossos tempos, a época da pós-verdade, de modo inimitável.  Seria ver o Sabe Tudo do Brasil, um Karnal ou um Pondé, aparecendo no Sírio Libanês para ele próprio retirar e levar os órgãos da Marisa. Aliás, é preciso cuidado, pois um desses aí até diz que é médico mesmo, ou coisa parecida!

Paulo Ghiraldelli Jr., 59, filósofo. São Paulo, 05/02/2017

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24 Responses “Lula em cima e dentro do caixão – um espetáculo contemporâneo”

  1. Gabi
    23/02/2017 at 06:20

    Para quem esta morto Lula vai muito bem nas pesquisas não é mesmo rs. Sou de esquerda mas não sou petista, sou crítica do petisno mas o sinismo da direita é ainda mais indigesto. Vcs ainda terão que engolir muito esse cara, não só vcs mas tb nos esquerdistas criticos do petismo e sua ética frouxa. Uma qualidade esse homem tem, incomodar e transformar. E tb uma outra “qualidade” mais polêmica, uma moral frouxa perfeita para acordos que possibilitam transformações dentro do sistema presidencialista de colisão, é nossa sorte e tb nosso azar.

    • 23/02/2017 at 16:30

      Gabi acho que você está no site errado. Esse site não é de política, mas de filosofia. Não creio que você entendeu o texto.

  2. LMC
    07/02/2017 at 10:38

    E o Temer botou um aliado pra
    ser ministro do STF.Até agora
    ninguém bateu panelas por
    causa disso,né?

    • 07/02/2017 at 10:54

      Nem vai bater panelas LMC. As pessoas não batem panelas por conta do seu desejo pessoal. É preciso mais.

  3. LEONILDO FERNANDES
    06/02/2017 at 16:13

    … o LU LA nunca se interessou em ser um político tradicional …. tanto é verdade que jamais se candidatou a nenhum outro cargo político que não fosse o da presidência da república … o seu negócio é o poder … encontrou no seu público o combustível suficiente para lutar por ele o tempo todo … tempos outros já não lhe garantem votos suficientes para continuar lutando por ele com a mesma autoridade de antes …

    • 06/02/2017 at 22:27

      Leonildo você está errado em tudo, inclusive nas informações sobre o Lula. Lula foi deputado – e ruim, muito ruim.

  4. 06/02/2017 at 11:41

    Não sejam ignorantes como os ignorantes que ocupam os poderes, raciocinem o quanto é degradante os poderes perderem a credibilidade, onde está a ordem, o principio de autoridade, a coerência, chegamos no caos em imoralidade,O REINO QUE É CONSTITUÍDO DE, VERDADE, JUSTIÇA, PODER ONIPOTENTE E SANTIDADE, IRÁ DAR JEITO NOS FATOS DEGRADANTE.

  5. 06/02/2017 at 11:02

    Texto maravilhoso, pela inteligência, franqueza e coragem. Me pareceu o novo Maquiavel da era da pós-verdade e de simulacro. A filosofia tem que ser feita para inquietar, agredir e fazer pensar. É como um bom e velho martelo. Eu gostaria de ter escrito esse texto.

    • 06/02/2017 at 12:06

      Sérgio, espero que você venha a fazer melhor.

  6. Ronaldo Ângelo
    05/02/2017 at 19:58

    O Lula com o microfone é o saci perere sem o dedo!

  7. rogerio
    05/02/2017 at 18:43

    Sr. Paulo,
    Lastimavel a filosofia ter alguem tao tosco e acefalo como voce. Se o amor ao pensamento que ela revoga, esta fora do seu alcance, pois nao tem amor proprio. A humanidade perde muito com as asneira que ventila, digna de diarreia verbal, sintomatica de aguda “peste emocional”, para usar um conceito de Reich, ao tratar da psicologia de massa do fascismo. Coitadas das vitimas que se aventuram a ler e ouvir seus latidos vis.
    Sua maldade e digna dos carras os medievais. Tem esposa, filhos ou mae? Sabe algo sobre empatia? Enfim, pessoas como voce ate sao uteis aos tiranos e monstros que nos ultimos tempos minsm o projeto de humanidade. Cale sua boca ou a ocupe com feno.

    • 05/02/2017 at 18:44

      Rogério, é “acéfalo”, com acento. O mesmo para “lastimável”, também com acento. Lindo, beijão! Volte sempre.

  8. Patrícia luchesi
    05/02/2017 at 18:25

    Parabéns pela resposta é pelo texto.

    • LMC
      06/02/2017 at 10:42

      Patrícia Luchesi é aquela
      que estou pensando ou
      é fake?

  9. Rafael Costa
    05/02/2017 at 17:10

    Conversando com um amigo meu, falei. No alto da minha ingenuidade.
    -Acho que com a morte da Marisa Leticia, o Lula não vai querer saber mais de política. Ele perdeu uma companheira de 40 anos, já foi um sindicalista respeitado, promoveu um movimento de trabalhadores que marcou a história. Já foi presidente, saiu com a sensação de um bom governo, apesar de tudo. A morte de sua esposa vai fazer ele parar, refletir que é finita a família e depois de ter feito tudo o que fez, o mais óbvio é largar tudo é curtir o que resta da vida e da família.
    Meu amigo respondeu.
    -Que nada. Esse safado vai se aproveitar da situação.

    Meu amigo tinha razão. Dá pena ver o Lula fazer isso. Nem revolta. Só pena.

    • 05/02/2017 at 18:38

      Bem, não escrevi pelo Lula, e sim pela situação filosófica de contaminação da mentalidade popular por certas artimanhas nossas, de nosso folclore e de nossa tecnologia.

  10. Hilquias Honório
    05/02/2017 at 16:19

    Falou tudo! Essa última cena de Karnal ou Pondé retirando os órgãos, seria épica. E, apesar da Lava-jato, parece que ainda temos anos penosos pela frente. Preocupante.

    • 05/02/2017 at 18:38

      Hilquias! Essa última cena é tão plausível quanto tudo que parecia que não ia ocorrer e ocorreu, né?

    • LMC
      06/02/2017 at 10:40

      Hilquias,Pondé não está nem aí
      pra Lula e Marisa.Ele é da direita
      a la Olavo de Carvalho.

  11. Marcelo Rodrigues do Prado
    05/02/2017 at 15:33

    Ghiraldelli, sem delongas e nem educação, como não posso estar frente a frente com você pra lhe desferir um murro muito bem dado na sua cara, posso pelo menos mandar-lhe um VAI TOMAR NO SEU CÚ do tamanho do mundo. É burro, é ignorante e desagradável, mas expressa bem o que sinto após ler essa merda que escreveu. Você é um recalcado!

    • 05/02/2017 at 18:39

      Marcelo minha linda e doce flor, “cu” não tem acento. Alfabetize-se.

  12. MARIANINA IMPAGLIAZZO
    05/02/2017 at 13:34

    Ghiraldelli seu texto é inconcluso, desnecessário, sem nenhum parâmetro de sustentação teórica e tendencioso…lastimável um filósofo se prestar a escrever tais argumentações .

    • 05/02/2017 at 13:59

      Querida Marianina meu texto é para inteligentes, por isso não entendeu. Mas leia dez vezes. Ah, antes, tome um banho de descarrego, para tirar o petismo. Aí sim leia dez vezes.

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