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14/12/2018

Lula e seus ovos


[Artigo indicado para o público em geral]

Eu estava lá. Sim, Lula recebeu uma ovada de um operário. O autor era um militante pago do Collor. Depois, na TV, Collor fez questão de lembrar que o atirador do ovo era um “operário”. Falou isso como se estivesse dizendo: veja como ele, Lula, não é líder de todos os operários. Collor se dizia “caçador de marajás” e candidato dos “descamisados”, ou seja, dos mais pobres que os “pobres de Lula”, os operários sindicalizados.

Isso ocorreu em 1989. O ovo acertou Lula. O candidato à presidência parou de falar, limpou o ovo, sorriu e continuou falando. Lembro bem o que disse: “vamos construir um Brasil generoso, um Brasil para todos”. Lula era de bem com a vida. Claro, Lula era gastão. Lula já não pagava muita gente. Mas ainda não mandava no PT. Muito menos na Frente que via nele, após a derrota de Brizola, a chance de não deixar Collor chegar à presidência. Lula era um herói. E falava sem erros de português.

Quando perdeu a eleição, saiu vencedor moral. Havia sido atacado na campanha com golpe baixo e não revidou. E depois, com a gestão Collor e o Impeachment – que teve à frente não só Lula, mas Covas e Quércia -, Lula emergiu como aquele que podia dar entrevistas sem mágoas. Perguntado se estava bem, ele dizia, uma vez derrotado: “claro, saí do nordeste para não morrer de fome e cheguei a ser candidato à presidência, isso é uma vitória e tanto”. O PRN de Collor desapareceu. Na verdade, nunca existiu, era apenas um aglomerado de oportunistas da ralé, aquele tipo de gente magoada que serve à direita para pegar cargos – coisa que hoje migrou para o bolsonarismo.  Por sua vez,  o PT cresceu e, por decisão de Lula, começou a se abrir para alianças, a fim de ganhar alguma eleição.

Por esses dias, Lula levou outra ovada. Eu não estava lá. Vi por vídeo. A reação de Lula, aos 72 anos, foi outra, bem diferente da de 1989. Aos berros, raivoso, pediu que a Polícia Militar tivesse a responsabilidade de ir até o apartamento do cara que atirou os ovos, invadisse o lugar, e desse “um corretivo” no indivíduo. Nada a ver com o Lula de 1989. Nada a ver com o político que queria fazer bem ao país. Sobrou disso apenas uma pessoa que segue uma caravana com dinheiro inexplicado, defendido por advogado pagos com dinheiro inexplicado, e que ainda se mantém na política para não ser preso, sem qualquer ideal sincero. Um fantasma desmoralizado que precisa de um Gilmar Mendes para ser gente – já imaginaram a degradação moral?

Dois ovos quebrados num prazo de trinta anos. Duas faces de Lula. O primeiro ovo tinha colesterol. O segundo, já não mais. Até os ovos mudaram, por que não as pessoas, né?

O que não mudou foi uma coisa: continuamos com governantes que são próprios só para aqueles que dizem que é nossa culpa termos os governos que temos. É sim nossa responsabilidade, mas não é nossa culpa. Os partidos perderam o pouco de democracia interna que tiveram, mostram para nós um menu só de caciques. A corrupção se generalizou e ao mesmo tempo foi mostrada à luz por um novo judiciário, mas ainda capengamos diante da própria ameaça que os políticos fazem contra os juízes. Lula, por sua vez, foi aquele que sustentou a esquerda durante muito tempo, e ao mesmo tempo aquele que a enterrou. Não contente em enterrar o PT, fez questão de levar junto até seus dissidentes, como Ciro Gomes e o PSOL, que estranhamente começaram a falar que o Impeachment de 2016 foi golpe! Gente trouxa!

Agora, Lula nos fez todos de reféns. Ele é condenado, mas não sabemos se será preso ou será presidente. Todos aguardam. Não há nenhuma diretriz, nenhuma plataforma na sua mensagem na caravana tresloucada que faz pelo país. A única bandeira de Lula é dizer que não é dono do “Triplex”. Que coisa!

Lula arrastou toda a esquerda para o lamaçal, de um lado, e fez emergir uma direita que é a mais energúmena que já tivemos desde os tempos do Plínio Salgado. Em 2018 passaremos um ano todo vendo ovos sobre Lula, e alguns babacas de bombacha gritando contra ele, e mulheres-mortadelas gritando a favor. Vai ser um ano politicamente ruim. E Temer também é candidato, com seu refrão “tem que manter isso, viu?” Não podemos manter isso.

Paulo Ghiraldelli Jr., 60, filósofo.

Foto: a sempre contida senadora Ana Amélia, fez discurso (fora da Câmara, claro) elogiando os gaúchos por atirarem ovo em Lula. É incrível como a violência pode ser incentivada assim, sem qualquer responsabilidade, de qualquer lado da política. Ela é do PP, um dos partidos que mais se aliou ao PT na corrupção.

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7 Responses “Lula e seus ovos”

  1. LMC
    26/03/2018 at 13:14

    PG,a Ana Amélia é do PP,que
    foi aliado de Lula e Dilma.Mas,
    nos Estados do Sul,o PP é
    anti-petista e pró-PSDB.

  2. LMC
    26/03/2018 at 11:30

    Quando Brizola foi governador
    do RJ,o PT e os bolsonaristas
    faziam oposição a seu governo.
    Aliás,os petistas e bolsonaristas
    se merecem,mesmo.

  3. josé fernando
    26/03/2018 at 10:00

    Esse senhor, que se especializou em falar palavras de ordem (trazendo à tona toda sorte desequilíbrios e paixões dos incautos) e conchavos (boa parte ilícitos) com pessoas de índole duvidosa, vai acabar sendo o principal motivo de uma guerra civil neste país…

  4. Matheus
    26/03/2018 at 06:16

    Estou rindo com mais esse episódio da “esquerda” brasileira… “O que fazer agora que Selton Mello e Padilha, o herói de T. de Elite, viraram golpistas?”

    https://noticias.uol.com.br/politica/ultimas-noticias/2018/03/25/site-de-esquerda-citado-na-lava-jato-acusa-netflix-de-deturpar-fatos-na-serie-o-mecanismo.amp.htm

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