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18/11/2018

Lugar público não pode ser lugar exclusivamente de pobre


[Artigo para o público em geral]

Os tempos modernos diferem do passado por conta do aparecimento da chamada classe média. E o aparecimento de tal grupo se fez quando a sociedade europeia deixou de ser uma sociedade de castas para ir se transformando em uma sociedade de classes. Em uma sociedade de castas ou estamentos ou “estados” (como na França pré-revolucionária) os lugares das pessoas na topografia social é sempre determinado pela “diferença de sangue”, é isso que faz as pessoas nobres ou do clero ou plebeus. Em uma sociedade de classes a diferença deixa de ser o “sangue” e passa a ser a propriedade dos meios de produção, o dinheiro e, em certo sentido, a capacidade intelectual. Há então os ricos, os não ricos e os pobres. Os não ricos vão se ampliando conforme o tamanho e a potência do mercado capitalista, geram então uma ampliação contínua da classe média – os que não detém os meios de produção mas que também não estão sujeitos às condições de exclusão ou sem exclusão de um consumo substancial. A partir daí surge o chamado “espaços públicos”. Escolas, praças, hospitais, parques e vários outros lugares são construídos no sentido de pertencerem a todos, independentemente de posição social. Pois, em termos formais, a existência da classe média impõe a ideia liberal (protagonizada por Locke e criticada por Marx) de que, ao menos perante a lei, somos todos iguais.

Tudo que está dito aí acima está na História e na Geografia do Ensino Médio. Os cursinhos pré-vestibulares ensinam isso para quem não aprendeu no devido tempo. E quem tem vocação para o estudo pode ler sobre isso, por exemplo, em livros como o História da riqueza do homem, do Leo Huberman, um clássico.  Todavia, no Brasil, há milhares de pessoas que não aprendem isso. Não fizeram o ensino médio ou não o fizeram corretamente. Essas pessoas são as que não entendem aquilo que digo quando exponho a tese de que lugar reservado aos pobres acaba ficando pobre.

O segredo de pujança de uma sociedade classista é ela não repetir os escalonamentos com barreiras, próprio da sociedade anterior, a sociedade de castas, estamentos ou “estados”. Ou seja, a sociedade classista não fazer com que aquilo que é chamado de “público” seja o lugar do público pobre, exclusivamente. Isso por uma razão simples. No jogo político democrático liberal o poder do dinheiro conta, e os ricos e a classe média alta tem uma grande facilidade de se representar no Parlamento ou pressionar os executivos (federal, estadual e municipal) de atender o que lhes interessa. Se o lugar público não é frequentado pelos ricos, ficando como local exclusivo dos pobres, então este local naturalmente receberá menos atenção dos poderes governamentais, e acabará sendo descuidado. É isso que ocorre em diversos países, mesmo em países ricos. Os lugares públicos se estragam, se deterioram, e aí ficam lugares pobres para pobres. E ainda por cima, em certos países se cria o preconceito, através da ideia de que os pobres estragam seus próprio lugares por meio de vandalismo.

O que digo é que se reservamos o lugar dito público para os pobres, achando que isso é benéfico, realizamos é o fim desses locais. Eles, uma vez não sendo mistos, receberão menos atenção dos governos e, claro, também da imprensa. A imprensa pode ser democrática, pode cuidar de interesses de todos e, inclusive, dos mais pobres. De certo modo, faz isso. Mas o poder do dinheiro é o poder dos olhos. Enxergamos mais os lugares onde os ricos estão. A escola pública, o hospital público, o parque público etc., destinados aos pobres, sem acolher os ricos, torna-se um local deteriorado. Se aparece na imprensa, é simplesmente para se mostrarem deteriorados. Então, o próprio pobre vê aquilo e cai no conto de que o culpado é o estado em si, e não o fato do estado estar hegemonizado em suas ações pelos que tem dinheiro. Assim, a sociedade toda é convencida que o local público é ruim porque é público, ou seja, administrado pelo estado que, enfim, se corrompe. Todos começam a pedir a privatização dos locais públicos. Ela ocorre. E aí duas coisas acontecem: o local passa a acolher o rico, pois se torna pago, ou até consegue acolher alguns mais pobres, mas já em um sentido excludente. Ao fim de alguns anos, nada melhora, porque a própria administração privada, num mundo como o nosso, também é corrupta e tem práticas gestionárias que não são diferentes das práticas públicas. Quem trabalhou em universidade particular e pública sabe disso: os modelos administrativos são muito semelhantes. O resultado final é o sucateamento de tudo que é público. Os ricos, nessa hora, forjam seus locais próprios, trancafiados, ou então saem do país, quando este país é como o Brasil, que possui ricos com adoração pela cafonice de Miami.

Os países que conseguem manter seus locais públicos como públicos e funcionando bem são aqueles que conseguiram fazer com que ricos e pobres pudessem frequentá-los em igual medida, como espaço comum. Para tal, é necessário uma grande classe média, e uma política econômica que diminua distâncias econômicas e sociais – pois é isso mesmo que gera no país regido pela democracia liberal uma grande e potente classe média.

Os Estados Unidos são um país populoso com grande classe média. Esse foi o segredo dessa grande democracia liberal, ao se tornar o local mais rico da Terra e com mais oportunidades. Nela, 98% da população termina o ensino médio e mais de 50% da população entre no ensino superior. É a única democracia liberal do mundo, e que abriga grande população, que tem esse feito. Nada de milagre. O que ocorreu foi fruto de uma história peculiar, que precisa ser estudada sempre. Mas nós, quando olhamos para os Estados Unidos, infelizmente copiamos Trump, não Obama. Nossa burrice se mantém. E se reproduz.

Somos os tontos que ainda não entendemos que quando Marx usava a expressão Le Doux Commerce (de Montesquieu), ainda que o fizesse ironicamente, sabia muito bem que o mercado traz suavização de relações, que é o capitalismo a base para o “politicamente correto”, e que é essa democracia feita pelo dinheiro que conseguiu superar o que não era doce. Aliás, se lembrarmos a tese de Sombart, de quanto o gosto da mulher pelo açúcar, no Renascimento, ajudou a ampliar todo capitalismo em suas empresas de busca de especiarias, aí sim entenderemos a amplitude material e espiritual de “Le Doux Commerce”. Não entendemos isso, no Brasil, porque nossa escolarização a respeito da história da capitalismo é baixa, ou então meramente ideologizada por grupelhos de intelectuais que, na Internet, sabem apenas criar rixas, não análises. Não conseguimos ver o quanto os locais públicos onde frequentam várias classes sociais possuem o mesmo espirito de Le Doux Commerce, e o quanto é isso que fez com que surgissem nações poderosas com povos com grau de consumo capaz de gerar o neoindividualismo de hoje. Bom, aí, o neoindividualismo cria outros problemas, e isso é um outro capítulo dessa história.

Paulo Ghiraldelli Jr., 60, filósofo.

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One Response “Lugar público não pode ser lugar exclusivamente de pobre”

  1. Guilherme Hajduk
    01/07/2018 at 19:41

    Paulo, escreva algo sobre o “Quanto custa o outfit”? Acredito que esse fenômeno faz parte do outro capítulo dessa história: — o capítulo repugnante! É a cafonice de Miami levada à risca.

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