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16/12/2017

Luciano Huck e seu nariz


Artigo indicado para o público em geral

Onde Luciano Huck quer botar o nariz? Pode botar onde Sílvio Santos tentou botar, e se dar mal. Também a candidatura de Sílvio foi articulada por fora, para superar uma polaridade entre Lula e Collor, e deu no que deu: nem chegou a ser registrada. Será que Huck terá a mesma sorte, a de continuar como apresentador e não ter sua vida devassada? Sílvio teve sorte!

Lula deixou transparecer aquilo que ele sabe bem e que eu não menos que ele, e já escrevi várias vezes sobre isso. Isto: populismos de esquerda e direita pedem a Deus uma única coisa: que exista no lugar de suas ambições políticas uma mídia que represente o mundo liberal, progressista em costumes, com fala mais ou menos culta. Se há isso, há o que atacar. O Brasil tem uma das melhores mídias do mundo com esse perfil: Rede Globo. Brizola e Jânio a atacaram. Deu certo. Lula já fez o mesmo e, agora, também a direita tem feito algo parecido, só que de modo um tanto estúpido, como de praxe. Só que Lula, desta vez, acabou confessando de maneira bastante clara sua estratégia, que leva em conta a mídia. Em uma rádio, deixou escapar: “vou adorar ter como adversário um candidato com o logotipo da Globo na testa”.

A mídia sofisticada, no mundo todo democrático liberal, ficou com a fama de um Poder Paralelo, e mais misterioso que todos os outros. Corre na cabeça das pessoas um entendimento confuso sobre o poder real da mídia. Todas as análises que conheço nunca conseguem realmente definir a efetiva capacidade da mídia de traçar ela própria os caminhos de uma região, povo, país etc. Uma coisa é saber que a mídia empurra um sabão em pó, outra coisa é saber o quanto ela é capaz de ter imagem neutra e autorizada para indicar hábitos culturais e, principalmente, voto. Mas uma coisa sabemos sobre ela: seu próprio índice de audiência não indica amor.

O filme de Costa Gravas, O quarto poder (1997), termina com Dustin Hoffman gritando “nós o matamos”. Toda a ânsia por notícias, por fazer notícias, numa disputa entre jornalistas e redes de TV uns contra ou outros, acaba por provocar a morte de um homem ingênuo – assim é o filme, hoje célebre. É exatamente essa a imagem que temos da mídia: às vezes achamos que ela pode matar quem ela quiser, eleger quem ela quiser, e, logo em seguida, desconfiamos que não, que apenas no filme de Gravas isso valeu. Os populistas não estão nem aí para essa questão, eles sabem apenas que, no espaço dessa dúvida, precisam entrar. Devem aproveitar a dúvida e confirmar que a grande mídia é feita de gente calhorda, que só quer sangue (agora certos intelectuais descobriram a Internet como vampira!), como no filme. Quando os populistas têm esse trunfo onde estão trabalhando, é claro que vão jogar suas forças contra o rosto do poder, o rosto da mídia que se mostra como poder. O populismo é vingador do povo e o povo precisa ser atiçado contra um inimigo que represente o não-povo. A Rede Globo tem o Jornal Nacional, que boa parte dos brasileiros não entende. É uma candidata ideal para ser posta como a “inimiga do povo”. Além disso, a Rede Globo é chique, não é uma TV mambembe. Melhor ainda! O populista pode jogar seu ódio sobre ela e atiçar os magoados da vida. E magoado não falta no Brasil. Os intelectuais mais afinados com a direita são magoados. E os da esquerda, já faz um tempo, são também meio que fascistóides – o campo par excellence da mágoa, do ressentimento e da impotência. O impotente não vê a hora de poder aderir a alguém que xinga a Globo.

A testa de Huck tem a Globo. Abaixo da testa, um nariz grande que pode não deixá-lo alçar voo. Ou seja, um nariz que lhe atrapalhe os olhos. Caso ele não tenha amigos que o avisem que ele tem casa na praia, caso ele não tenha amigos que o avisem que ele é rico demais, ele irá se meter na política. Deixará Lula feliz. Pois Bolsonaro não é de fato páreo. O chefe de quadrilha Lula sempre teve sorte: quanto mais erra, trai, escorrega, mais volta à jogada com chances. É quase um Mr. Magoo. Teve por anos a oposição do PSDB, uma piada, e agora ganha como adversários, um Bolsonaro e, talvez, o prêmio máximo: um carinha com a Globo na testa. Lula nasceu com a bunda virada para a Lua?

Paulo Ghiraldelli Jr., 60, filósofo. São Paulo,

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2 Responses “Luciano Huck e seu nariz”

  1. Tudor
    27/11/2017 at 15:01
  2. LMC
    23/11/2017 at 15:13

    Só pra lembrar:até Jânio cair
    doente e depois morrer,
    Roberto Marinho sonhava com a
    candidatura de Jânio a
    presidência em 89.Aí,ele apoiou
    Collor,porque Brizola apoiou Lula.

    E quando é que vão apanhar o
    Alckmin?Porque ele não é do RJ?

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