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21/10/2017

“A Justiça no Brasil não vale nada” – a nova palavra de ordem dos gnomos e pigmeus


Até pouco tempo era a esquerda que se insurgia contra juízes, promotores e até advogados. Lula estava na mira, então, todas as baterias se voltavam contra os homens da lei. Bastou Aécio, Serra e Temer entrarem na mira da justiça, e também a direita resolveu decretar que o poder judiciário no Brasil se imagina como Deus, e inciou o blá-blá-blá contra as pessoas do Direito. Nessa leva, veio a campanha de Reinaldo de Azevedo contra Moro. Agora, aderindo ao seu mentor, Luís Felipe Pondé segue a fila e parte para a simples difamação de juízes, promotores e advogados. Terá a irmã de Aécio também feito ligações para Pondé? Ora, não é necessário isso!

Pondé diz que não confia na política, que ela é um “circo” etc. Acha-se inteligente ao reiterar esse senso comum bolsonarístico. E se aproveita, como sempre, para falar contra livros que ele não leu. Cita pejorativamente O Capital, mas Pondé não sabe a diferença entre valor e valor de troca e imagina que a palavra mercado se referira ao Mercadão Municipal, do qual ele não sabe apreciar nem mesmo os vitrais. Seu texto recente (Folha 05/06/2017) é fundamentalmente uma tentativa de dizer que o mundo é ruim, que o homem é imperfeito, que a política é uma droga, que o Brasil não vale a pena e que, enfim, só Pondé, ele próprio, merece viver e merece crédito. É um texto meio doente. Uma doença perigosa? Além da doença da mentira, Pondé espalha um vírus safadinho, que é o de descrédito das instituições da justiça, deixando pairar no ar uma ideia que pega na esquerda e na direita autoritárias.

A ideia de que a Justiça é a “justiça burguesa”, “meramente liberal”, é utilizada na esquerda para invocar a inocência perpétua de Lula, como sempre foi o caso em todos os lugares onde líderes dessa causa fazem a quebra das leis em favor de “interesses maiores”, “interesses do povo” e coisas do tipo. Há um ar de leninismo nisso. Afinal, a Revolução é o fim dos tribunais burgueses, para sobre eles surjam os “tribunais populares”. Nos esquecemos que gente como o Pondé, de direita, adoraria estar no lugar de nossos juízes, para prender Lula e proteger novamente Aécio. Também a direita – Hitler, Mussolini, Salazar, Pinochet, Franco etc. – depuseram juízes e promotores, e os trocaram não por “tribunais populares”, mas por nova casta de juízes oriundos das fileiras reacionárias e do puro banditismo, gente que jamais havia conseguido estar em tais cargos por méritos intelectuais. A ordem que Pondé recebeu, e muitos outros já estão seguindo, é exatamente esta: não podemos falar diretamente de salvar Aécio, então, vamos desacreditar a política em geral e focar nosso ataque maligno contra todos os agentes da lei, deixando-os na sarjeta. Nunca Pondé foi tão petista quanto agora, nessa sua fase em que de novo se revela amante do PSDB ou coisa pior. E essa coisa pior, todos nós sabemos qual é.

Vou citar a afronta de Pondé, bem ao gosto da rebeldia adolescente dele, para que não fique dúvida sobre suas intenções: “E o Poder Judiciário? Esse mesmo que até pouco tempo muita gente pensava ser um produto real da Marvel. Uma mistura de Batman, Super-Homem, Capitão América, Homem de Ferro e Thor. Não. O Poder Judiciário não é um monólito de pureza.” (Folha 05/06/2017). Preciso dizer mais?

O interessante é que todas as vezes que esse pessoal apegado à política, que diz que não gosta de política e não confia nela, se insurge contra as cortes do país, logo em seguida seus livros são rapidamente promovidos para a visibilidade na mídia. Patrocinadores surgem aqui e ali. E isso, sabemos, não é coincidência.

A ideia básica contra juízes, promotores e advogados é uma ideia que quer ajudar a abater a ação da polícia federal. Todos sabemos disso. E o descrédito na política, correto ou não, é apenas o pano de fundo para que a ralé possa ficar contra os “concursados”, gente como Moro, é claro. Lulistas e Pondé estão unidos agora no ataque ao mérito intelectual. A diferença é que Pondé vai fingir que está “só escrevendo”, só “ensaiando”. Talvez um dia a justiça tenha que quebrar o sigilo bancário até dos pseudointelectuais da mídia. Aí sim as pessoas vão entender que não é a mídia que manipula alguém, mas que ela é manipulada por poderes outros, em geral pelas ervas daninhas que se infiltram nela, que são escolhidos a dedo por tais poderes para nela estar. Meus colegas bons editores e bons articulistas, no jornais, e meus colegas bons intelectuais independentes, na universidade, sabem bem do que estou falando.

Todas as vezes que vejo grupos de mídia, em qualquer país, se insurgindo contra gente que estudou para ser juiz, promotor e advogado, e que arrisca a vida para tal, sei que não se trata de ataque gratuito, e fico temeroso, pois os setores mais ressentidos, da direita e da esquerda, endossam fácil essa retórica tosca da incivilidade.

Paulo Ghiraldelli 60, filósofo. São Paulo, 05/06/2017

 

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9 Responses ““A Justiça no Brasil não vale nada” – a nova palavra de ordem dos gnomos e pigmeus”

  1. Alentejano
    10/06/2017 at 20:55

    Mas vamos e venhamos que esse juiz Hermann Benjamin é o filho de Tom Jobim com a Luiza Erundina…

  2. LMC
    06/06/2017 at 12:34

    Um desgoverno como de Temer tendo
    ministros como o EMBAÇA AÍ e o TÔ
    DE QUATRO NO JARDIM não pode dar
    certo,mesmo.kkkkkkkkk

  3. Ezequias costa
    06/06/2017 at 10:58

    Parabéns Paulo, tenho a cada dia lindo seus textos. Não pode ficar em cima do muro. Ou reconhecer ou não reconhece . Obrigado um abraço.

  4. Orquidéia
    06/06/2017 at 08:51

    Gostaria que o presidente Temer ficasse no poder,mas se a Justiça precisar ser feita,para mim_tudo bem.
    Ele precisa é saber provar a inocência dele.

    Tenho um profundo repúdio pela atitude “antilei” da esquerda.
    E jamais gostei do Pondé,da Folha.
    Vejo que não estava errada, que não era impressão minha.

    • 06/06/2017 at 08:56

      Orquídea, não dá para Temer ficar, seria a completa desmoralização da lei.

  5. José Fernando da Silva
    05/06/2017 at 16:12

    E ele, Pondé, ainda se apesenta como “filósofo”, conquanto esteja mais para bobo da corte… Parabéns, Paulo, por ajudar a mostrar aos incautos quem é Pondé (ou melhor, mostrar “quem ou o que ele não é”).

    • 05/06/2017 at 17:34

      José, passe adiante esse meu texto. Acho que os nossos juristas merecem esse aviso.

  6. Gustavo Ruy
    05/06/2017 at 10:16

    Boa argumentação e excelentes referências culturais. Obrigado pelo texto, Paulo!

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